entre inquietações

Sem a tranquilidade da acomodação

Bia Lopes

Autora do blog Conversa de Gente Fina e do Livro Incondicional. Publicitária e escorpiana, não necessariamente nessa ordem. Coleciono paixões, as maiores delas pela escrita, música e cinema. Inquieta por natureza e sonhadora incorrigível. De passagem por este mundo, tentando, aprendendo, vivendo.

A relação entre Chico Anysio, o Tropicalismo e a Ditadura

Como Chico Anysio satirizou o tropicalismo, driblou a censura e entrou para a história da música brasileira.


Baiano & Os Novos Caetanos (1974).jpg

Que Chico Anysio era um grande humorista, todo mundo já sabia. O que muita gente não sabe é que ele era de uma polivalência artística incrível. Ator que deu vida a tantos personagens, a maioria deles inesquecíveis, Chico era também escritor e compositor, sendo autor de músicas gravadas por grandes nomes, como Maysa, por exemplo (música Qualquer Madrugada escrita em parceria com Hianto de Almeida).

Sabendo compor e atuar tão bem, faltava para Chico apenas cantar. Mas não demorou para que isso acontecesse. Ele uniu essas três habilidades e se juntou a outros dois artistas, Arnaud Rodrigues e Renato Piau e, nos anos 70, criou o trio musical Baiano e Os Novos Caetanos (cuja genialidade já começava pelo nome), satirizando o conjunto Caetano e Os Novos Baianos. Além da paródia no nome, havia também a semelhança no visual. A cabeleira de "Baiano", o músico hippie criado por Chico, era totalmente inspirada na de Caetano versão Londres e na de Moraes Moreira. O trio de Chico, além de ser uma sátira ao Tropicalismo, também fazia uma crítica à ditadura diante do contexto político da época.

A música que abre o primeiro álbum, o samba-rock "Vô Batê Pa Tu", tornou-se um clássico do trio. Nela estão versos sobre o regime militar colocados de maneira a conseguir driblar o sistema e fazer o público cantar sem ser percebido pela dura fiscalização, como no seguinte trecho: “O caso é esse/ Dizem que falam que não sei o que/ Tá pá pintá ou tá pá acontecer/ É papo de altas Transações/ Deduração, um cara louco/ Que dançou com tudo/ Entregação com dedo de veludo/ Com quem não tenho grandes ligações”.

Mas Chico foi além. Com seu humor inteligente resolveu expor musicalmente sua visão sobre a situação econômica do país, incluindo no mesmo álbum a música "Urubu Tá com Raiva do Boi", que entre uma estrofe e outra expõe um desabafo de Baiano para o personagem Paulinho (Arnaud Rodrigues), um reflexo do sentimento geral do povo diante das dificuldades: "O medo, a angústia, o sufoco, a neurose, a poluição, os juros, o fim... Nada de novo. A gente de novo só tem os sete pecados industriais." "O norte, a morte, a falta de sorte... Eu tô vivo, tá sabendo? Vivo sem norte, vivo sem sorte, eu vivo... Eu vivo, Paulinho. Aí a gente encontra um cabra na rua e pergunta: 'Tudo bem? E ele diz pá gente: 'Tudo bem!' Não é um barato, Paulinho? É um barato..." E o contexto social e político é ressaltado ainda no refrão: "Urubu tá com raiva do boi/ E eu já sei que ele tem razão/ É que o urubu tá querendo comer/ Mas o boi não quer morrer/ Não tem alimentação."

Além das letras inteligentes, Baiano e Os Novos Caetanos tinha uma qualidade instrumental inquestionável, que contava com arranjos de violões, sanfonas e cavaquinhos. As músicas também ressaltavam a cultura nordestina e a religiosidade, como "Folia de Reis" e "Ciranda". Assim, o que era pra ser apenas uma divertida sátira tornou-se um trabalho de qualidade que rendeu o volume dois e mais três álbuns, mostrando que, na tentativa de fazer humor, Chico Anysio fez história. E este é apenas um de seus maravilhosos capítulos.


Bia Lopes

Autora do blog Conversa de Gente Fina e do Livro Incondicional. Publicitária e escorpiana, não necessariamente nessa ordem. Coleciono paixões, as maiores delas pela escrita, música e cinema. Inquieta por natureza e sonhadora incorrigível. De passagem por este mundo, tentando, aprendendo, vivendo..
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