entre inquietações

Sem a tranquilidade da acomodação

Bia Lopes

Autora do blog Conversa de Gente Fina e do Livro Incondicional. Publicitária e escorpiana, não necessariamente nessa ordem. Coleciono paixões, as maiores delas pela escrita, música e cinema. Inquieta por natureza e sonhadora incorrigível. De passagem por este mundo, tentando, aprendendo, vivendo.

Méliès e a fábrica de sonhos

Todos temos sonhos. Mas quem acredita tanto neles ao ponto de torná-los realidade e mudar o rumo da história? George Méliès sonhou, acreditou e mudou a história do cinema.


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Ele poderia ter seguido a tradição familiar e ganhado a vida como um fabricante de calçados de luxo. Para George Méliès seria um meio mais seguro. Mas para o bem da história do cinema, ele escolheu ir em busca dos seus sonhos. E os transformou em realidade, numa realidade que fez o mundo inteiro sonhar.

A parte que lhe cabia da empresa da família, Méliès usou para comprar o teatro de Robert-Houdin, grande mágico francês. Ator e ilusionista, Méliès sempre teve verdadeira paixão pela magia e pela arte de encantar o público. Em 1895, quando os irmãos Lumiére apresentaram o cinematógrafo a cerca de 30 pessoas, em Paris, Méliès estava na plateia. E viu naquela novidade uma oportunidade de mostrar sua arte.

Um dia, num desses fatos que a gente nunca sabe se atribui ao acaso ou ao destino, enquanto usava sua câmera para registrar um ônibus em movimento, o equipamento pifou. Quando voltou a filmar, na movimentação cotidiana da rua, ao invés do ônibus passava um outro veículo. A câmera parou, mas as pessoas na rua continuaram a se movimentar. Ao assistir às imagens, percebeu a "mágica": o ônibus se transformara em carro fúnebre e as pessoas eram outras. Assim nascia o stop-motion - técnica em que o movimento dos modelos são fotografados quadro a quadro e montados posteriormente em película cinematográfica (são necessários aproximadamente 24 quadros para se fazer um segundo de filme), criando assim a impressão de movimento.

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Méliès produziu mais de 500 filmes usando técnicas de filmagem inovadoras para a época, conseguindo efeitos que podem ser considerados assustadores, porém era algo totalmente revolucionário, o que lhe deu o merecido destaque. Chegou a atuar nos próprios filmes, o que fez dele um profissional completo - ator, diretor, roteirista, produtor, cenógrafo, figurinista e fotógrafo. Para Méliès, o cinema era o lugar perfeito para criar as ilusões que tanto o fascinavam e, para realizar suas produções, criou seu próprio estúdio, uma casa toda feita de vidro que chegava a lembrar uma estufa, cujo objetivo era permitir a entrada da luz solar e garantir assim a iluminação para as filmagens. Méliès criou a máscara e a contramáscara, maquetes, truques ópticos e os efeitos de transição de cena e adaptou ao cinema a sobreimpressão, técnica que possibilita aparições e desaparições de personagens fantasmas. George Méliès foi o pioneiro em colocar na tela fantasmas transparentes e cabeças sendo lançadas ao ar como bolinhas, além de conseguir transformar um ator em centenas. Ou seja: não dá para imaginar a história do cinema sem todos os grandes feitos desse mestre.

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Entre seus mais famosos filmes estão Viagem à Lua, baseada no livro do escritor francês Júlio Verne, e As Viagens de Gulliver, adaptação do romance do irlandês Jonathan Swift, ambos de 1902. A Star Films, empresa criada por Méliès em Paris, foi considerada o centro mundial do cinema. Porém, alguns anos depois, devido à concorrência com algumas outras produtoras, a empresa passa por dificuldades. Tendo sido o criador do primeiro filme a ser exportado e tendo sido eleito presidente do Congresso Internacional de Editores de Filmes em 1909, logo em seguida o genial criador sofre um duro golpe do destino. A Primeira Guerra Mundial golpeia fatalmente o cinema europeu e favorece o surgimento dos grandes estúdios de Hollywood. Méliès, que trabalhava de maneira quase artesanal, foi engolido pelo processo industrial. Arruinado, teve de vender seus bens, além de latas e mais latas de filmes. O grande cineasta virou um doce vendedor de brinquedos na estação de Montparnasse, em Paris. Algum tempo depois foi reconhecido por alguns ilustres cineastas e ganhou moradia no castelo de Orly, a casa de repouso de pessoas ligadas ao cinema. Para o criador da ficção científica, um fim dolorosamente real.

Mas os esforços de Méliès não foram em vão. A ele devemos a ficção, o entretenimento, a magia do cinema. A ele devemos a arte de sonhar. E para resgatar a sua história e compreender um pouco do seu significado, vale reencontrá-lo no livro de Brian Selznick e no filme de Martin Scorcese: A Invenção de Hugo Cabret. O reconhecimento é merecido. As lágrimas são consequência. Quanto aos sonhos... Sim, eles podem se tornar realidade.


Bia Lopes

Autora do blog Conversa de Gente Fina e do Livro Incondicional. Publicitária e escorpiana, não necessariamente nessa ordem. Coleciono paixões, as maiores delas pela escrita, música e cinema. Inquieta por natureza e sonhadora incorrigível. De passagem por este mundo, tentando, aprendendo, vivendo..
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