entre inquietações

Sem a tranquilidade da acomodação

Bia Lopes

Autora do blog Conversa de Gente Fina e do Livro Incondicional. Publicitária e escorpiana, não necessariamente nessa ordem. Coleciono paixões, as maiores delas pela escrita, música e cinema. Inquieta por natureza e sonhadora incorrigível. De passagem por este mundo, tentando, aprendendo, vivendo.

Onde cabe seu coração?

Alguns sentimentos engradecem o coração. Outros, ao contrário, apertam até esmagá-lo.


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Nascemos para ser completos, para nos sentir inteiros. Mas, às vezes, nos permitimos ser metade. Insistimos no encolhimento, como alguém que deseja a qualquer custo caber em uma peça de roupa que há muito já não lhe serve. E não estou falando de medidas ou quilos a mais em nosso corpo. Nada disso. Estou me referindo ao coração. Sim, também sofremos de anorexia sentimental. E isso acontece com mais frequência do que imaginamos.

Quando alguém que amamos já não nos quer e não conseguimos aceitar o fim, quando exigem de nós mudanças que não nos são favoráveis, quando nos anulamos apenas para agradar o outro, tudo isso nos torna menores do que realmente somos. De que tamanho você é? Não me refiro à sua estatura, mas à dimensão da sua alma. E eu sei que ela pode ser grandiosa. Mas você não conseguirá se adaptar ao seu verdadeiro tamanho enquanto não der um basta ao encolhimento emocional. Muitas vezes não nos damos conta da nossa grandiosidade – nos fazemos menores para caber no molde que alguém criou para nós sem levar em consideração o que realmente somos. Mas ninguém consegue ir longe com um sapato lhe esmagando os dedos.

Quando nos apaixonamos, quando começamos uma relação, há, claro, uma adaptação. Mudanças devem acontecer de ambas as partes. Podemos nos anular pelo outro se a recíproca for verdadeira, se ele também se anular por nós. A disposição faz a relação. Abdicar de um cinema para ir ao aniversário do cunhado, adiar aquela praia porque vocês planejaram ir juntos e ele ficou doente, entre tantos outros imprevistos que podem acontecer, são rotineiros e até muito naturais. Relacionamento é parceria, companheirismo, cumplicidade. Vez ou outra a gente precisa mudar os planos e se readequar a determinadas situações. O problema é quando você se anula, quando passa a abdicar de tudo o que lhe é importante apenas para satisfazer o outro e em troca recebe… Nada. Aí as coisas começam a complicar. Pior ainda é quando você abre mão não apenas de compromissos, mas de si mesmo. Aí é praticamente assinar um contrato com a infelicidade.

Em todo relacionamento há algum conflito. Alguns têm muitos, com muita freqüência, outros são mais harmônicos, levam mais tempo para cambalear na tempestade e menos tempo para se recompor. Temos conflitos com nossos irmãos, criados ali conosco, os mesmos pais, a mesma educação, por que não teríamos com alguém que veio de outra família, outros costumes, outra maneira de se relacionar? As diferenças são saudáveis, nos dão a oportunidade de abrir mão do nosso egoísmo e aprender a doçura que é ter empatia – a arte de se colocar no lugar do outro. Mas, e quando a gente só se coloca no lugar do outro e esquece a nossa própria visão?

O que te faz você mesmo, o que te dá uma identidade é uma série de fatores que, juntos, te dão a sensação de completude. Seu gosto musical, sua maneira de sorrir, seu esporte favorito, aquela mania da qual sua mãe vive reclamando, a bagunça na sua bolsa, no seu cabelo, na sua vida, tudo isso são particularidades que, embora não pertençam somente a você, ninguém tem exatamente igual. Assim como suas opiniões, seus valores e sua personalidade, cada detalhe seu, se não modificado naturalmente com o tempo ou com as experiências que a vida traz, deve permanecer. Ninguém pode lhe exigir mudanças. Pode até ser clichê, mas a velha e boa frase “não mude para agradar a ninguém” é tão verdadeira que seu autor merecia ser aclamado. Porque você começa mudando um detalhe aqui, uma atitude ali e daqui a pouco estará na frente do espelho se perguntando onde foi parar a sua verdadeira essência. Valerá a pena?

O problema é que a paixão embaça as vidraças da nossa razão e nos deixa tão vulneráveis que muitos de nós acabam não conseguindo reagir. O outro já nos roubou de nós mesmos, ou melhor, nos demos de bandeja. A questão é que nessa doação toda acabamos também por entregar nossa autoestima. E, sem ela, já não somos nada, senão um fantoche nas mãos do acaso. Ou nas mãos erradas. Começamos por abrir mão de um ponto de vista e acabamos por não sermos sequer mais capazes de sustentar uma opinião. Agradar o outro e desagradar a nós mesmos. Até o dia em que ele canse do brinquedo e troque por um mais interativo e interessante. Já se sentiu assim?

Não, você nunca foi um brinquedo e nem precisa se passar por um. Não tem que aceitar essa ou aquela condição, nem precisa mudar para manter alguém ao seu lado. O único lugar no qual você precisa caber é em si mesmo. Quando a gente coloca como prioridade os caprichos dos outros, mesmo sem perceber, está se dobrando para caber em algo que não tem a nossa medida. Números menores apertam. Amores menores massacram. Mas a falta de amor próprio é capaz de esmagar o maior dos corações.


Bia Lopes

Autora do blog Conversa de Gente Fina e do Livro Incondicional. Publicitária e escorpiana, não necessariamente nessa ordem. Coleciono paixões, as maiores delas pela escrita, música e cinema. Inquieta por natureza e sonhadora incorrigível. De passagem por este mundo, tentando, aprendendo, vivendo..
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