entre inquietações

Sem a tranquilidade da acomodação

Bia Lopes

Autora do blog Conversa de Gente Fina e do Livro Incondicional. Publicitária e escorpiana, não necessariamente nessa ordem. Coleciono paixões, as maiores delas pela escrita, música e cinema. Inquieta por natureza e sonhadora incorrigível. De passagem por este mundo, tentando, aprendendo, vivendo.

Precisamos falar sobre as mulheres

Sim, precisamos falar sobre as mulheres. Todos os dias.


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A violência contra a mulher, como todo mundo sabe, foi tema da redação do Enem esse ano. Para quem fez a prova, como eu, foi motivo de alegria ver algo tão cotidiano (e muitas vezes tão banalizado) ser finalmente levado a reflexão por tanta gente no Brasil ao mesmo tempo. E isso me instigou a trazer essa discussão aqui pro blog. Tá todo mundo falando sobre isso agora? Ótimo. Quanto mais gente, quanto mais texto, quanto mais levantarmos esse debate, essa bandeira, quanto mais nos mostrarmos contra, melhor.

Não, eu não vou reproduzir aqui minha redação. As trinta linhas para mim foram pouco. O assunto pede mais. Muito mais. E que bom se alguém chegar a dizer que o tema já se tornou clichê. É sinal de que estamos falando tanto quanto deveríamos. Mas não significa que já falamos o suficiente. Isso só terá realmente efeito quando as estatísticas da violência diminuírem. E pra que isso aconteça ainda temos um longo caminho a percorrer. Infelizmente.

Precisamos falar sobre as mulheres todos os dias. Precisamos conversar com nossos filhos, nossos vizinhos, nossos amigos, nossos seguidores nas redes sociais. Precisamos acabar com a ideia de que os homens podem isso e aquilo e as mulheres, não. De que elas precisam aceitar a submissão. De que eles têm direito sobre elas. De que podem levantar a mão, a voz, o ego. Não, não é assim. Quer dizer, ao menos não deveria ser.

As leis existem, há delegacias e órgãos especializados na defesa dos direitos da mulher, há ongs lutando pela igualdade de gênero e isso tudo é mesmo muito bom. Hoje, quando um cara resolve bater na namorada, esposa, mãe ou irmã, elas são amparadas pela lei e ele tem que responder judicialmente. Quando isso acontecia com nossas avós, elas não tinham esse apoio e muitas delas continuavam apanhando. Muitas, abandonadas à própria sorte, sequer tinham a coragem de contar para alguém. O medo chegava a ser maior do que qualquer outra coisa. Hoje há esse suporte e há punição, mas a violência continua. Mulheres são agredidas todos os dias, física e psicologicamente. Outras tantas são assassinadas. E nem as medidas punitivas anulam essa violência. Se essa realidade parece assustadora para você, imagina para nós, que vivemos com medo em uma sociedade machista, onde temos que pagar com a vida pelo simples fato de sermos o que somos. Mulheres.

A violência contra a mulher não se resume ao ato de agressão. Ela está muito além disso. Ela começa quando os pais ensinam ao filho que o menino deve ser o macho alfa e a menina, submissa. Quando esse mesmo menino entende que pode assediar a menina por ela não estar vestida da maneira que ele acha adequada. E quando ele, irritado pela rejeição, resolve agredi-la. A violência usa roupas diferentes e nem sempre anda de cara limpa. Às vezes ela se mascara de alguém cortês, educado, aparentemente inofensivo. Em outras (muitas outras, inclusive), ela mora sob o mesmo teto. Ela pode vir (e geralmente vem) de onde menos se espera. Aí é que tá. Não dá pra saber. E por isso mesmo é preciso mudar.

Enquanto educarmos nossos meninos como seres superiores às meninas, seremos coautores dessa violência. Enquanto concordarmos que a mulher que usa minissaia pediu para ser estuprada, seremos cúmplices do estupro. E enquanto ficarmos calados diante do desrespeito, do preconceito e da agressão, estaremos contribuindo para que as estatísticas permaneçam assustadoras e a sociedade, cada vez mais machista. Mas antes de continuar com isso, é bom pensar. Talvez você não dê a mínima se o mundo me trata assim. Mas é esse o mundo que você quer para sua filha?


Bia Lopes

Autora do blog Conversa de Gente Fina e do Livro Incondicional. Publicitária e escorpiana, não necessariamente nessa ordem. Coleciono paixões, as maiores delas pela escrita, música e cinema. Inquieta por natureza e sonhadora incorrigível. De passagem por este mundo, tentando, aprendendo, vivendo..
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