entre inquietações

Sem a tranquilidade da acomodação

Bia Lopes

Autora do blog Conversa de Gente Fina e do Livro Incondicional. Publicitária e escorpiana, não necessariamente nessa ordem. Coleciono paixões, as maiores delas pela escrita, música e cinema. Inquieta por natureza e sonhadora incorrigível. De passagem por este mundo, tentando, aprendendo, vivendo.

Sobre ser, estar, existir

E tem todos esses rótulos que costumam nos dar, toda essa segmentação, como se só pudéssemos ser uma coisa ou outra e não um ser completo. Ou complexo.


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Há alguns anos vim parar neste mundo e, agora, tempos depois, ainda não consegui entender o propósito de eu estar aqui. Se é que há mesmo um. O fato é que a gente passa a vida tentando se encontrar, se conhecer, descobrir quem realmente é e, talvez, no finzinho, mesmo se chegar à velhice, lá pelos oitenta ou cem anos (quem dera), ainda não saiba definir algo concreto sobre si mesmo.

A verdade é que não consigo me encaixar em um estilo, em um padrão, em uma linha única. Gosto de rock, mas também caio no samba. Gosto de documentários, mas também assisto novela. Coloco comédia romântica na capa do Facebook enquanto ouço “Alegria, Alegria”, do Caetano Veloso. Sou a contradição em pessoa. E me orgulho muito disso. Não imagino como se pode gostar de algo e se privar de outras coisas. O mundo é complexo, a vida é dinâmica, existem infinitas possibilidades, opções, situações. Tem dias que a gente está mais pra música clássica, em outros, até que um sertanejo cai bem. Não sou festeira, mas às vezes me acabo na pista de dança. Tenho verdadeira paixão por doce, mas também me empanturro de salgado. Sou fã de Garcia Marquez, Saramago, Machado de Assis, mas também leio John Green, Augusto Cury e J.K. Rowling.

Penso que gostar de diferentes coisas é mais virtude que defeito. Mas, se for defeito, assumo, com gosto. Já viram a vastidão desse mundo? Já perceberam a infinidade de músicas, filmes, obras de arte, lugares, comidas, livros, pessoas? Como seguir um único caminho quando há tantos à disposição? Como gostar de uma única estrela quando há incontáveis delas no céu? Dá pra gostar do preto sem desvalorizar o branco, amar o dia e se apaixonar pela noite. E dá pra mudar de opinião, também. Hoje ser bailarina e amanhã acordar publicitária. Ser cordelista e saxofonista. E muito mais. Ser de tudo um pouco e saber que, ainda assim, não sou tanto.

Como já disse, sou a contradição em pessoa. Às vezes acho que vejo o mundo invertido, não me encaixo, não me enquadro, não caibo em nada. Não sou de nenhuma tribo, mas tenho um pouco de todas em mim. Já me identifiquei com mocinho, com vilão, às vezes sou protagonista, outras, coadjuvante. Lidero, mas também sei obedecer. Aceito, mas gosto de questionar. Digo sim, mas acho o não super necessário. Aos trinta e quatro anos, ainda moro com minha mãe. Tenho filho, mas não casei. Não sonho com vestido branco, com amor eterno, nem príncipe encantado. Sonho com viagens pelo mundo, em conhecer gente nova, outras culturas, outros lugares, mares, pirâmides, vulcões. Quero conhecer a terra, saber onde piso, sentir o quanto sou pequena diante de tanta diversidade. Mas também quero ficar em casa, almoçar em família, ver TV, sentar na calçada, rir de bobagem, dar bom dia pra vizinhança.

Não me encaixo em um padrão de beleza, me recuso a viver mudando meu cabelo e me exercito mais por prazer e saúde que por estética. Tenho marcas pelo corpo, cicatrizes, algumas rugas, celulite, estria, vasos rompidos, cabelo branco e sinais do excesso de gordura na alimentação. Não me martirizo, me orgulho. Cada um conta um pouco da minha história, diz por onde andei, como me (des)cuidei, o quanto me preocupei, corri, dancei, sorri, chorei, amei, desamei, vivi. São todos parte de mim. Sou eu toda, em partes. E gosto de ser assim.

Outro dia me perguntaram pelo meu marido. Respondi: “não preciso de um”. As pessoas estranharam. Devem pensar que toda mulher tem que casar para estar realizada. Eu não acho que a nossa felicidade deva ser depositada em alguém, embora fiquemos muito felizes quando tenhamos algumas pessoas ao nosso lado. Mas elas não devem ser a causa da nossa plenitude. Devemos bastar a nós mesmos para, só então, podermos nos dar aos outros. É, acho que é assim que funciona. O fato é que há outras coisas que me deixariam bem mais feliz do que subir ao altar. E é atrás dessas coisas que estou correndo agora.

Não, não sou anti-relacionamento. Pelo contrário. Acredito que as pessoas precisam conviver umas com as outras, amar, criar laços, construir histórias, experimentar a vida a dois, saber o que isso significa e a responsabilidade tamanha que é ter nas mãos o coração de alguém. Mas isso não deve e nem pode ser o motivo exclusivo da nossa felicidade. Deve ser uma consequência dela. É estar bem para fazer bem a outro alguém. Penso que é assim que tem que ser.

É, sou meio ET. Sou de paz e sou de guerra, sou caseira e sou da rua, gosto de tranquilidade, mas me divirto na festa. Sou da solidão e da multidão, não pertenço a nenhuma religião, mas acredito em Deus. Aliás, detesto essa divisão, essas tantas regras criadas para servir a um mesmo deus. Basta o amor, o resto é consequência.

É, não me encaixo. Não me divirto com filmes violentos, mas choro com musicais e infantis. Gosto de cinema nacional, mas também dou ibope pro americano. Sou uma e sou muitas. Caminho para a frente, mas sigo na contramão. Não vejo regras em todos os lugares, mas respeito algumas por onde passo, pelo bem da sobrevivência. Rio à toa, mas choro à toa também. Sou mulher, menina, mãe, jovem, velha, mal humorada e risonha. Tenho um jeito muito particular de ser, assim como tantos milhões de pessoas. Cada um é cada um, cada um é o que é. Eu sou eu. Posso ser muitas em uma só. Posso ser igual e ao mesmo tempo diferente. Mas, acima de tudo, sou gente.


Bia Lopes

Autora do blog Conversa de Gente Fina e do Livro Incondicional. Publicitária e escorpiana, não necessariamente nessa ordem. Coleciono paixões, as maiores delas pela escrita, música e cinema. Inquieta por natureza e sonhadora incorrigível. De passagem por este mundo, tentando, aprendendo, vivendo..
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