entre inquietações

Sem a tranquilidade da acomodação

Bia Lopes

Autora do blog Conversa de Gente Fina e do Livro Incondicional. Publicitária e escorpiana, não necessariamente nessa ordem. Coleciono paixões, as maiores delas pela escrita, música e cinema. Inquieta por natureza e sonhadora incorrigível. De passagem por este mundo, tentando, aprendendo, vivendo.

Somos Todos Heróis

Somos heróis, sim, somos grandes heróis. Lutamos todos os dias pela nossa sobrevivência e pela sobrevivência dos nossos. Lutamos para garantir o pão, lutamos pela educação, lutamos por uma vida melhor.


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Somos todos heróis. A afirmativa pode causar um certo estranhamento, mas é das mais verdadeiras. A cada dia tenho mais dessa certeza, seja por observar a vida dos outros, seja por avaliar a minha própria. Todos temos super poderes. Não me refiro a sair por aí com uma roupa esquisita, usando e abusando da força ou de alguma habilidade extrassensorial. Isso cabe aos personagens dos gibis, porque lá no papel ou na tela do cinema tudo fica melhor se tiver um pouco de absurdo.

Mas com a gente é diferente. Somos todos heróis, heróis da nossa família, dos nossos amigos, heróis de nós mesmos. Principalmente de nós mesmos. Porque é muito fácil sair por aí voando quando se tem uma capa especial, é fichinha saltar entre arranha-céus quando se tem super teias e não é desafio nenhum enfrentar universos inteiros quando se tem o corpo de aço e uma visão raio-x.

Superação não tem nada a ver com isso. Superação é ser de carne e osso e acordar cedinho todos os dias, enfrentar um trânsito caótico e encarnar o equilibrista-contorcionista para conseguir chegar ao trabalho em um transporte coletivo. Proeza mesmo é ser pai, mãe, educador, faxineira, enfermeiro, cozinheira, motorista, psicóloga e acumular mais outras trocentas funções, só para dar conta da rotina pessoal e profissional.

Armaduras e espadas nem de longe se comparam ao poderoso pincel do professor. Isso sim é ser herói. Em uma disputa vale mais a sabedoria que a arma, vale mais a tática que a força. E quantas desgraças não seriam evitadas se a inteligência fosse usada para a sala de aula e não para tanques de guerra?

Somos heróis, sim, somos grandes heróis. Lutamos todos os dias pela nossa sobrevivência e pela sobrevivência dos nossos. Lutamos para garantir o pão, lutamos pela educação, lutamos por uma vida melhor. Não temos garras de titânio, mas temos determinação. E é ela que nos leva até o nosso objetivo maior, mesmo que isso leve anos, décadas, mesmo que precisemos sacrificar este ou aquele desejo.

Temos coragem. E como somos corajosos! Saímos diariamente de casa sem nenhuma garantia de segurança quando, nessa árdua batalha pela vida, tantos acabam morrendo em combate. Perdemos espaço para o tráfico, para a violência, para a intolerância, para o caos. O mundo, como afirmou Cartola, é um moinho. Quantas vezes nossos sonhos são triturados, nossas vontades são esmagadas e nossa dignidade amputada? Ainda assim, continuamos o caminho, seguimos adiante, sabendo que precisamos ser maiores do que qualquer medo. E somos.

Sim, somos heróis. Passamos a vida tentando mostrar que somos bons em alguma coisa, porque precisamos ser aceitos. Crescemos bombardeados por cobranças e instruções de vida, tendo que corresponder às expectativas, tendo que constar nas boas estatísticas e nos encaixar em alguma coisa que os outros acreditam que seja bom para nós. E que bom que às vezes é.

Não me deixo fascinar por heróis fictícios, que nascem com essa ou aquela habilidade e recebem a missão de salvar o mundo. É bem mais difícil salvar a nós mesmos em um planeta onde há guerras e mais guerras, sejam elas santas, civis, frias e de todo o tipo, mas nenhuma realmente justificável. Aliás, nada justifica a violência.

Heróis de roupas esquisitas não causam em mim nenhum tipo de admiração. Admiro quem veste roupa comum e ainda assim consegue ser super. A vida nos exige tanto! Somos super em tantas coisas que não caberia contabilizar. Temos atitude, jogo de cintura, temos sabedoria, força, temos humildade, amor… É, talvez venha do amor o segredo dos nossos superpoderes. É dele que tiramos toda a nossa força. E, embora ele pareça nos deixar mais vulneráveis do que qualquer donzela aprisionada por uma feiticeira cruel, é dele que vem a essência da vida. É ele que nos faz assim, tão humanos, tão mortais, mas tão espetacularmente sentimentais. É ele que nos faz super. Pra herói nenhum botar defeito.


Bia Lopes

Autora do blog Conversa de Gente Fina e do Livro Incondicional. Publicitária e escorpiana, não necessariamente nessa ordem. Coleciono paixões, as maiores delas pela escrita, música e cinema. Inquieta por natureza e sonhadora incorrigível. De passagem por este mundo, tentando, aprendendo, vivendo..
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