entre inquietações

Sem a tranquilidade da acomodação

Bia Lopes

Autora do blog Conversa de Gente Fina e do Livro Incondicional. Publicitária e escorpiana, não necessariamente nessa ordem. Coleciono paixões, as maiores delas pela escrita, música e cinema. Inquieta por natureza e sonhadora incorrigível. De passagem por este mundo, tentando, aprendendo, vivendo.

Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo

Mas talvez seja essa a graça da vida: essa eterna metamorfose que vai se perpetuando ano após ano, geração após geração. E até o que aprendemos com a tradição conseguimos transformar em contradição, porque há sempre uma nova maneira de olhar.


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Ter a preferência de ser uma metamorfose ambulante não deveria ser um privilégio só de Raul. Todos estamos sujeitos a mudanças, porém nem todos admitimos ou aceitamos tal condição. Mudar não é fácil, eu diria até que é um ato de coragem, mas é algo saudável e muito necessário. Ter a liberdade de dizer agora o oposto do que já foi dito, de assumir outra posição diante de determinado fato não nos torna pessoas instáveis, mas mostra a nossa capacidade de expandir a mente e ver as coisas de um outro ângulo. Aliás, não há nada tão útil quanto poder ter diferentes percepções sobre o mesmo assunto. Significa que você não se prende apenas à sua visão limitada, mas consegue se colocar no lugar do outro e enxergar como ele enxerga. E é somente a partir de então que podemos dar um parecer mais justo sobre determinado tema.

Se você puder rever suas anotações sobre o amor nos diários da época de adolescente e puder escrever hoje novamente sobre isso, perceberá o quanto a sua visão mudou. A vida, as experiências, a época, o contexto social, a expansão intelectual, tudo isso vai nos fazendo abandonar aquela visão de conto de fadas e nos conduzindo ao amor real e aos seus diferentes aspectos. Então até a nossa velha opinião formada sobre o amor passa por um processo de desconstrução. Outra utilidade da música de Raul é nos mostrar sutilmente que não há razão nenhuma nas tantas vezes que afirmamos saber quem somos. Ora, se somos seres em constante mudança, do que adianta nos prendermos a determinados moldes? Talvez a única justificativa sejam as amarras sociais, mas, no fim das contas, para que elas nos servem mesmo? E se pensarmos bem, nem nós mesmos sabemos quem somos, porque não somos, mas estamos. Se nada é permanente, como poderíamos ser? Ao invés disso, temos apenas a certeza do estar. E podemos sim, a qualquer momento mudar, sair do lugar.

Olha a rotatividade do mundo, olha o quanto as coisas mudam enquanto ele gira. As estrelas de maior sucesso de todos os tempos hoje já não brilham mais. E Raul acertou mais uma vez quando afirmou: “se hoje eu sou estrela, amanhã já se apagou”. Nada é cem por cento bom, nem de todo ruim. Não há felicidade ou tristeza permanentes, tudo é um ciclo, um mar de mudanças e possibilidades. Nossos planos para o futuro podem, inclusive, nem chegarem a se concretizar. Imagina se vamos ter o domínio sobre o verbo ‘brilhar’!

Se todas as coisas mudam, imaginem só os nossos sentimentos. A ironia do destino (existirá destino?) nos faz nos apaixonarmos justamente por quem já chegamos a odiar. E quem poderá dizer que esse amor não virá um dia novamente a se transformar em ódio? Promessas de amor eterno muitas vezes não passam do primeiro ano, isso quando sobrevivem aos primeiros seis meses. Sim, Raul tinha razão. Somos atores. Não atores no sentido de fingirmos algo, mas de interpretarmos momentaneamente nossos personagens temporários, aqueles que acreditamos realmente ser. O que dizemos hoje é resultado do personagem que vivemos atualmente. E em circunstâncias diferentes podemos ser mocinhos ou vilões, agir com a frieza da razão ou simplesmente derreter por causa dos nossos corações. Somos previsivelmente imprevisíveis, porém absurdamente clichês.

Mas talvez seja essa a graça da vida: essa eterna metamorfose que vai se perpetuando ano após ano, geração após geração. E até o que aprendemos com a tradição conseguimos transformar em contradição, porque há sempre uma nova maneira de olhar. Aqueles que não se permitem a mudança, que insistem em remar contra a correnteza da modificação, perdem muito mais do que o aprendizado – se mantêm aquém de grandes e magníficas experiências. Despir-se do ser para assumir o estar é permitir-se viver. Viver de verdade. Saber que muito além do que conhecemos há inúmeras possibilidades. E nem é preciso ter nascido há dez mil anos atrás para saber disso. Porque aceitar a metamorfose é entender que nós, seres humanos, estamos sempre em construção. E afinal, do que nos adiantaria manter sempre a mesma opinião?

Toca Raul!


Bia Lopes

Autora do blog Conversa de Gente Fina e do Livro Incondicional. Publicitária e escorpiana, não necessariamente nessa ordem. Coleciono paixões, as maiores delas pela escrita, música e cinema. Inquieta por natureza e sonhadora incorrigível. De passagem por este mundo, tentando, aprendendo, vivendo..
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