entre inquietações

Sem a tranquilidade da acomodação

Bia Lopes

Autora do blog Conversa de Gente Fina e do Livro Incondicional. Publicitária e escorpiana, não necessariamente nessa ordem. Coleciono paixões, as maiores delas pela escrita, música e cinema. Inquieta por natureza e sonhadora incorrigível. De passagem por este mundo, tentando, aprendendo, vivendo.

Literatura de Cordel, muito além do barbante

São muitos os feitos da Literatura de Cordel em todas as áreas da comunicação. Servindo como fonte de informação e esclarecimento sobre os mais variados assuntos, entre eles notícias, propagandas políticas, prevenção de doenças e conhecimentos gerais, o cordel tem sido também instrumento de manifestação cultural e até mesmo ferramenta de alfabetização, já tendo sido inclusive batizado de “professor folheto”.


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Entre as modalidades comunicativas de cunho popular, a poesia ocupa merecido lugar de destaque. Entre os meios de expressão cultural do povo, a poesia popular impressa, mais conhecida como literatura de cordel, destaca-se de maneira significativa. Com origem na Europa, mais especificamente na era medieval, recebeu este nome pelo fato de ficar exposta em barbantes nas feiras, durante a comercialização.

Embora originária na Europa, foi no Nordeste brasileiro que essa literatura virou referência. Foi o primeiro jornal do sertanejo, antes mesmo que este tivesse acesso à rádio, à TV e ao jornal propriamente dito. Leandro Gomes de Barros, um dos pioneiros no cordel e considerado o primeiro poeta que o editou e comercializou, exerceu o papel de repórter do povo e em suas obras é possível observar o quanto coube a ele a função de crítico social e formador de opinião.

São muitos os feitos da Literatura de Cordel em todas as áreas da comunicação. Servindo como fonte de informação e esclarecimento sobre os mais variados assuntos, entre eles notícias, propagandas políticas, prevenção de doenças e conhecimentos gerais, o cordel tem sido também instrumento de manifestação cultural e até mesmo ferramenta de alfabetização, já tendo sido inclusive batizado de “professor folheto”. Durante muitos anos ele tem sido responsável pela alfabetização de milhares de nordestinos. Além de auxiliar na alfabetização, a literatura de cordel proporcionava um estímulo à imaginação, pois eram comuns as leituras coletivas, o que permitia que os participantes pudessem visualizar a história e se sentir parte dela, colocando-se no lugar dos personagens e sentindo a emoção na declamação de cada verso.

É vasta a contribuição da Literatura de Cordel para o povo nordestino, devendo ser caracterizada como um importante meio de comunicação de massa. A temática variada é um dos principais atrativos, além do estilo popular, constituído de termos utilizados no cotidiano, que aproximam ainda mais o povo desta rica literatura. Por ser popular, o cordel trata dos assuntos que interessam ao povo. E quando o faz, refere-se a assuntos e pessoas sob o ponto de vista popular.

As temáticas vão desde romances tradicionais originários na Idade Média até assuntos históricos brasileiros, abordando também a religiosidade, o misticismo, a vida campestre, crimes, desastres e acontecimentos atuais. Além disso, a literatura de cordel aborda também temas engraçados, envolvendo a cachaça, a malandragem, a mentira e personagens para os quais já se criou certo estereótipo, como a sogra, por exemplo, quase sempre tida como vilã e cujas histórias são voltadas para o tom comediante.

Atualmente há quem se preocupe com a sobrevivência do cordel diante da modernização dos meios de comunicação. Porém, ele não apenas sobrevive, mas vive. E bem. Claro que ao longo desse tempo e com tantas transformações sociais ele vem deixando de ser escrito por poetas populares sertanejos e analfabetos e passando a ser produzido por estudantes, universitários e pessoas interessadas em divulgar essa cultura ou em usá-la para fins estritamente comerciais. Se antes ele era escrito e lido pelas camadas mais populares, hoje, por mais que ainda usemos o termo “popular” para defini-lo, podemos considerar que o cordel ganhou os centros urbanos, as instituições culturais e educacionais, as livrarias e os centros universitários. Ele despiu-se um pouco da veste “povão” para dar lugar a algo mais elitizado, o que na gastronomia seria denominado como “prato gourmet”.

Porém, isso não chega a ser um ponto negativo. Pelo contrário. Se os meios de comunicação precisaram ganhar nova roupagem para acompanhar a evolução tecnológica mundial, é natural que a literatura de cordel também passe por um processo de mudança, embora ainda mantenha as características originais, como a estrutura dos versos e a impressão em folhetos. A literatura popular impressa tem ganhado também versões em livros que contam desde histórias infantis a lendas folclóricas. O que também se tem visto com muita frequência é a publicação em cordel de clássicos da literatura, como obras de José de Alencar e Rodolfo Teófilo. Aos que defendem o tradicional e aos que apostam no atual, vale ressaltar: o importante é que se faça cada vez mais viva e presente a literatura popular.


Bia Lopes

Autora do blog Conversa de Gente Fina e do Livro Incondicional. Publicitária e escorpiana, não necessariamente nessa ordem. Coleciono paixões, as maiores delas pela escrita, música e cinema. Inquieta por natureza e sonhadora incorrigível. De passagem por este mundo, tentando, aprendendo, vivendo..
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