entre inquietações

Sem a tranquilidade da acomodação

Bia Lopes

Autora do blog Conversa de Gente Fina e do Livro Incondicional. Publicitária e escorpiana, não necessariamente nessa ordem. Coleciono paixões, as maiores delas pela escrita, música e cinema. Inquieta por natureza e sonhadora incorrigível. De passagem por este mundo, tentando, aprendendo, vivendo.

Você tem sede de quê?

Queremos plenitude e o poder de lutar para que tudo mude. Não fomos feitos para ser metade, nem para nos contentar com migalhas. Queremos uma vida estável, tempo favorável, um sistema sem falhas.

A música "Comida", dos Titãs, traz uma perfeita definição da necessidade de todos nós, brasileiros. Ontem, hoje, sempre.


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Se eu começar o texto dizendo que tenho saudade do tempo em que as músicas nos conduziam a boas reflexões sobre o país ou sobre nossa condição social vai parecer mimimi, não é? Pois bem, que seja. Eu morro de saudade disso tudo. E sempre que tento uma interpretação de uma música da era 80’s, por exemplo, não de qualquer uma, mas daquelas que realmente nos faziam pensar, vejo o quanto a letra permanece atual. E me delicio com isso. Cada vez que Arnaldo Antunes, Marcelo Fromer e Sérgio Britto me perguntam “você tem sede de quê? Você tem fome de quê?” me vem uma lista enorme na mente e a impressão de que boa parte dessa lista não são desejos particularmente meus, mas de boa porcentagem da população brasileira, embora nem todos tenham se dado conta de que são merecedores da realização de tais desejos.

Pois bem. “A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”, porque não basta o prato cheio, a alma também deve ser preenchida. Queremos nos divertir, sair à toa por aí, cantarolando, conversando, dançando e extravasando todo o sentimento contido no escritório, no elevador, no transporte coletivo ou na sala de aula. A gente quer ler nos livros, no teatro, no corpo, nos muros e na música o que os outros têm a nos dizer. E mais do que isso, a gente quer se expressar e se fazer perceber.

“A gente não quer só comida, a gente quer saída para qualquer parte.” Condições, caminhos, acessibilidade, segurança. Garantia do direito de ir e vir. Sim, queremos mais que comida, queremos viver a vida, ter direito a escolhas, traçar nossos próprios objetivos, optar, opinar, falar, representar. Não queremos calar. E na música da vida a gente dança o nosso balé. Com ou sem sapatilha, seja qual for o ritmo, é assim que é. Queremos plenitude e o poder de lutar para que tudo mude. Não fomos feitos para ser metade, nem para nos contentar com migalhas. Queremos uma vida estável, tempo favorável, um sistema sem falhas. Sim, a barriga deve estar cheia, o bolso forrado e o coração tranquilo. É nosso direito enquanto cidadãos, trabalhadores, estudantes, seres viventes que, às vezes sem condições, se tornam errantes. “A gente não quer só comer, a gente quer comer e quer fazer amor”, afinal, quem não quer prazer pra aliviar a dor?

Que sejam partidos em mil pedaços todos os paradigmas de que é preciso se matar de trabalhar por horas a fio em um sistema onde você passa mais tempo na empresa e no transporte até ela do que em sua própria casa, apenas para garantir uma vida um pouquinho melhor aos seus. Queremos sim, trabalhar, mas queremos também usufruir do fruto do nosso trabalho (que por favor, deve ser justo). Pois é, quem diria. “A gente não quer só dinheiro, a gente quer dinheiro e felicidade. A gente não quer só dinheiro, a gente quer inteiro e não pela metade.”

“A gente não quer só comer”. Os impostos que pagamos devem retornar a nós em forma de benefícios nas mais diversas áreas: em saúde, educação, esporte, cultura, lazer, em uma vida onde se pode escolher o que se quer fazer. E quem disse que desejo não é necessidade? Sim, “vontade é necessidade”. Todas as crianças na escola, todos os jovens tendo oportunidade. Seria pedir demais que tudo isso se tornasse realidade? E aquele cidadão que já tanto trabalhou e agora se sente cansado, por que não podemos vê-lo aposentado? Bom, é disso que tenho fome. E minha sede é de vida. Vida melhor, Brasil, pra essa gente tão sofrida! E você, tem sede de quê?

Valeu, Titãs!


Bia Lopes

Autora do blog Conversa de Gente Fina e do Livro Incondicional. Publicitária e escorpiana, não necessariamente nessa ordem. Coleciono paixões, as maiores delas pela escrita, música e cinema. Inquieta por natureza e sonhadora incorrigível. De passagem por este mundo, tentando, aprendendo, vivendo..
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