entre inquietações

Sem a tranquilidade da acomodação

Bia Lopes

Autora do blog Conversa de Gente Fina e do Livro Incondicional. Publicitária e escorpiana, não necessariamente nessa ordem. Coleciono paixões, as maiores delas pela escrita, música e cinema. Inquieta por natureza e sonhadora incorrigível. De passagem por este mundo, tentando, aprendendo, vivendo.

Like a Prayer: polêmica e questionamentos sociais em um single que marcou os anos 80

Na música, guitarras que se misturam a um enigmático canto gospel. No vídeo, uma jovem católica que presencia o assassinato de outra jovem e procura abrigo em uma igreja. Cruzes incendiadas que remetem à ku klux klan, homens brancos cometem um crime e, em seu lugar, um jovem negro é preso. Uma religiosidade exagerada, obsessiva, que faz com que a única figura masculina na vida da jovem seja a de Deus. Essa é Like a Prayer, cheia de polêmica em sua letra e na composição de seu videoclipe no contexto de uma sociedade que gritava por liberdade, mas ainda estava presa a amarras pra lá de tradicionais e longe de pensar em questioná-las.


big_1471740181_image.jpg

Mistério, assassinato, sexualidade, religião e muitos questionamentos sociais: assim é Like a Prayer, single que deu nome ao álbum de Madonna lançado em 3 de março de 1989 e que, 30 dias depois, já chegava ao primeiro lugar nas paradas musicais. O álbum completo, pela qualidade da obra, merece análise e discussão. Porém, este texto observa especificamente sua música de trabalho, visto que, condenada pelo Vaticano e com um contrato de publicidade rapidamente cancelado pela Pepsi devido às polêmicas que causou na época, todos os temas por ela abordados, mesmo quase 30 anos depois, merecem ainda ser discutidos.

Na música, guitarras que se misturam a um enigmático canto gospel. No vídeo, uma jovem católica que presencia o assassinato de outra jovem e procura abrigo em uma igreja. Cruzes incendiadas que remetem à ku klux klan, homens brancos cometem um crime e, em seu lugar, um jovem negro é preso. Uma religiosidade exagerada, obsessiva, que faz com que a única figura masculina na vida da jovem seja a de Deus. Essa é Like a Prayer, cheia de polêmica em sua letra e na composição de seu videoclipe no contexto de uma sociedade que gritava por liberdade, mas ainda estava presa a amarras pra lá de tradicionais e longe de pensar em questioná-las.

No clipe, o santo negro na igreja é associado ao rapaz injustiçado. Em determinado trecho, durante o momento da personagem de adoração ao santo, a letra e a entonação da voz da cantora remetem ao orgasmo, o que seria um dos pontos mais polêmicos da música: “I close my eyes / oh God, I think I'm falling / out of the Sky I close my eyes / heaven, help me”. No vídeo, o corpo de Madonna voa até o céu, reforçando a letra e a insinuação do ato, descrevendo musical e visualmente a sensação. De volta à realidade, o santo também volta ao seu altar, onde Madonna, devota, beija seus pés. O orgasmo feminino explicitado em uma canção e retratado em imagem, mesmo que no sentido figurado, é motivo de repúdio e escândalo para a época, ainda mais quando comparado e misturado à religiosidade.

Esse trecho, por mais polêmico, absurdo ou desrespeitoso que possa ter sido considerado na época ou talvez ainda hoje por muita gente, talvez tenha também o intuito de mostrar que o sentimento vivido dentro da religião, a devoção em si, possa causar sentimentos tão intensos que podem ser comparados não fisicamente, mas em paralelo ao espiritual, ao ápice do orgasmo, mostrando o quão bem alguém pode se sentir ao se dedicar completamente àquilo que acredita e conseguir estabelecer com o objeto de sua crença uma perfeita harmonia.

Em um outro momento, Madonna, se aproxima da imagem do “santo” e é essa proximidade que o liberta, o tira daquele altar e, mais tarde, daquele celibato, quebrando sua imagem de personagem intocável e inquestionável. Em outro trecho, já quase ao final da música, os dois estão em um romance carnal, alternando entre devoção e pecado.

Madonna certamente escolheu traçar esse paralelo entre sexo e religião, entre pecado e devoção, com o intuito de mostrar o quanto ambos têm andado juntos na história da igreja e da humanidade, além de ressaltar que aquilo que a igreja condena também é praticado por alguns de seus representantes, justamente aqueles considerados intocáveis. Hoje sabemos que não são raros os casos de envolvimentos sexuais e amorosos entre autoridades eclesiásticas e devotos, freiras e padres, padres e fiéis e, inclusive e infelizmente, os casos de pedofilia. A mesma igreja que salva, agride, comete erros graves e depois condena pessoas pelos mesmos erros os quais ela própria cometeu, estando dotada de hipocrisia e sujeira ao longo de todos esses séculos de história. E é essa mesma igreja que condena Madonna ao censurar sua música, como se letra e vídeo falassem de coisas completamente absurdas à realidade. Claro que não podemos generalizar, há religiosos bem intencionados, dispostos, que conduzem bem seus fiéis dentro dos princípios da igreja e por meio de uma conduta respeitosa. Porém, é fácil compreender que aquilo que é objeto de polêmica na música e no clipe se trata de questionamentos sociais lançados pela cantora diante de uma sociedade considerada hipócrita e preconceituosa, que condena atos praticados por uns, mas comete os mesmos atos na obscuridade e no anonimato.

Outro ponto levantado por Madonna são as injustiças mediante o preconceito de cor. O rapaz negro é preso em flagrante, quando na verdade tentava socorrer a jovem que acabara de ser assassinada. E o mesmo rapaz é colocado pela cantora na figura de santo, porque santos são mártires, pessoas que sofreram muito na terra, que foram injustiçadas, maltratadas e desacreditadas em vida. Eis uma outra maneira de protestar e fazer refletir. As marcas da cruz que aparecem nas mãos dele e nas de Madonna acabam sintetizando que todos nós carregamos os mesmos pecados, que somos todos julgados e condenados ao tentarmos ir na contramão da sociedade e das tradicionais religiões, lembrando também que, segundo as sagradas escrituras, ‘estamos em Cristo e Cristo está em nós’.

Há ainda um espaço para um outro questionamento: a maneira como condenamos algumas pessoas, mesmo estas estando na prática do bem, mostra o quanto seríamos injustos com o próprio Cristo caso ele estivesse hoje em dia convivendo entre nós. Separamos as figuras sagradas dos seres humanos, como se não tivéssemos a obrigação do amor ao próximo, do respeito e da compaixão. Nossos preconceitos e maldades nos cegam e nos limitam, fazendo com que nos comportemos de uma maneira dentro das instituições religiosas e de outra completamente diferente fora delas.

E a música nos dá ainda muitas possibilidades de reflexão, basta ouvi-la atentamente ou assistir ao seu vídeo com a mesma atenção. Além disso, com melodia e voz bem construídas e aliadas a um maravilhoso coral, é fácil compreender por que chegou tão rapidamente ao topo das paradas musicais. Mas não é só isso. É a coragem da cantora ao expor opiniões e críticas em uma época onde a igreja era considerada infalível, em uma sociedade cegamente preconceituosa e em um momento onde os videoclipes eram ainda uma novidade que ganhava audiência e discussão. Madonna, livre das amarras sociais e ainda sem conhecer o termo “empoderamento feminino”, fez história na música internacional, quebrou tabus e se mostrou disposta a expressar sua opinião de uma a maneira só dela, com uma visibilidade que só ela foi capaz de conseguir à época e o principal: a honestidade consigo mesma, com suas ideias e com seu público. Like a prayer.


Bia Lopes

Autora do blog Conversa de Gente Fina e do Livro Incondicional. Publicitária e escorpiana, não necessariamente nessa ordem. Coleciono paixões, as maiores delas pela escrita, música e cinema. Inquieta por natureza e sonhadora incorrigível. De passagem por este mundo, tentando, aprendendo, vivendo..
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/musica// @obvious, @obvioushp //Bia Lopes
Site Meter