entre inquietações

Sem a tranquilidade da acomodação

Bia Lopes

Autora do blog Conversa de Gente Fina e do Livro Incondicional. Publicitária e escorpiana, não necessariamente nessa ordem. Coleciono paixões, as maiores delas pela escrita, música e cinema. Inquieta por natureza e sonhadora incorrigível. De passagem por este mundo, tentando, aprendendo, vivendo.

Tieta do Agreste, tua luz é toda nossa

Uma pequena cidade, uma grande mulher. Tieta está para o Agreste como Madonna para o mundo: revolucionária, questionadora, à frente de seu tempo. E, claro, assim como uns se encantam, outros se chocam, afinal, uma mulher que se recusa a seguir os padrões e convenções sociais é uma pedra no sapato dos velhos defensores da moral e dos bons costumes. Mas o que realmente são a moral e os bons costumes?


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Tieta do Agreste, obra de Jorge Amado, ganhou repercussão e popularidade ao ser exibida como telenovela pela Rede Globo, estrelando Yoná Magalhães. O ano era 1989 e, muito mais do que nos dias de hoje, a sociedade era tomada de preconceitos e capaz de fechar os olhos para assuntos como a pedofilia, o abuso sexual, os relacionamentos abusivos e, claro, o machismo. Porém, Jorge Amado possuía um olhar crítico e diferenciado e, ao escrever suas obras, não se importava se a sociedade se chocaria ou não. Na verdade, é provável que o intuito fosse mesmo chocar ao demonstrar tipos tão deploráveis como o personagem Modesto Pires, por exemplo, que mantinha a amante praticamente sob sua custódia e era capaz de amarrá-la ao pé da mesa ou deixá-la ao relento durante uma noite de tempestade, quando esta não agia de acordo com as suas expectativas, mas era reconhecido na cidade como um homem de bem, pai de família e cidadão exemplar.

Acontecia de tudo na pequena Santana do Agreste, mas esse tudo era realmente assustador. Um prefeito cujo título de coronel lhe orgulhava mais do que qualquer coisa na vida gastava seu tempo comprando mocinhas ainda adolescentes, de famílias extremamente pobres, e as explorava sexualmente alegando estar lhes ensinando o “bê-a-bá”. Seu José Esteves, um homem já idoso, casara pela segunda vez com uma adolescente, Tonha, que tinha a mesma idade da sua filha Tieta, com quem a relação era de escravidão, não tendo esta direito a opinar, questionar, ter qualquer vaidade ou fazer o que quer que fosse da própria vontade. Um pequeno retrato da nossa sociedade hipócrita, na qual existem milhares de Modesto Pires, Artur da Tapitanga e Zé Esteves, todos exploradores, machistas e cruéis, mas vistos como cidadãos de bem.

Porém, é a filha de um desses homens que causa a verdadeira revolução na cidade. Antonieta Esteves, filha de Zé Esteves, espancada em praça pública e expulsa da cidade pelo pai ao ser dedurada pela irmã invejosa, Perpétua, quando atentava contra os “bons costumes” do povo daquela cidade, chega de São Paulo 25 anos depois daquele tão humilhante fato. Disposta a se vingar de todos, percebe que pouca coisa mudou após sua partida, especialmente a hipocrisia que sempre imperou naquele lugar.

Uma mulher vivida, moderna, revolucionária e rica causa naquela cidade um impacto não antes imaginado. Tieta é a mulher independente, que precisou vender o próprio corpo para sobreviver na cidade grande (embora ninguém em Santana do Agreste saiba), casou-se com um homem rico do qual herdou, além da fortuna, grande sabedoria e astúcia. Agora se chamando Antonieta Esteves Cantarelli, encanta todo o povo com sua influência ao conseguir finalmente uma estrada asfaltada para a cidade e a tão sonhada luz elétrica, que mudou de uma vez por todas a vida daquele pacato lugar. Mas a luz de Tieta não se resumia a isso. Mulher justa, tomava para si as dores dos injustiçados e por eles brigava, usando de sua influência e sabedoria para resolver diversas questões locais. Não costumava seguir padrões ou respeitar os valores morais a ela impostos, mantendo com seu sobrinho Ricardo, filho de Perpétua, um caso de amor às escondidas. Além disso, sua coragem a levava a enfrentar o coronel Artur da Tapitanga e a própria irmã Perpétua, viúva amarga, que não se contentava em viver a própria vida e insistia em atrapalhar a de quem atravessava seu caminho.

Santana do Agreste poderia ser só uma cidade pacata e inofensiva, não fosse um retrato social de qualquer cidade brasileira, grande ou pequena, repleta de pessoas que não se respeitam, que não respeitam as diferenças, que preferem olhar para o próprio umbigo a dar vez e lugar ao outro. Há pessoas apontando as prostitutas como pecadoras enquanto usam de sua religião como fachada para cometer crimes dos mais absurdos. Há casamentos de aparência e muita submissão, assim como há pessoas frustradas por não terem a coragem de se assumir como são, nem de ser donas das próprias vontades, como as beatas Cinira e Amorzinho.

Há muita injustiça e pouca coragem, há crimes não questionados e bastante impunidade. Porém, há também um outro lado: pessoas de bem, que sofrem exploração, que se prestam à submissão por não conhecerem outro caminho para a sobrevivência. Pessoas sofridas, que sonham com dias melhores, quando terão a oportunidade de simplesmente serem felizes. Tieta, embora tomada por sua sede de vingança, deixa falar mais alto sua ânsia por justiça. É ela a heroína daquele povo, é alguém igual a ela que eles desejam se tornar. Tieta é a mulher que superou a humilhação, que foi apontada e apedrejada, mas, forte como toda mulher, deu a volta por cima e hoje é quem dita as regras. Tieta do Agreste é cada uma de nós, mulheres, que almeja se libertar e encarar de frente essa sociedade tão massacrante, cruel e covarde com quem diante dela não consegue se impor. A eles, discernimento. A nós, a luz. A brilhante e encantadora luz de Tieta. Obrigada, Jorge Amado.


Bia Lopes

Autora do blog Conversa de Gente Fina e do Livro Incondicional. Publicitária e escorpiana, não necessariamente nessa ordem. Coleciono paixões, as maiores delas pela escrita, música e cinema. Inquieta por natureza e sonhadora incorrigível. De passagem por este mundo, tentando, aprendendo, vivendo..
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