entre linhas e dizeres

"As coisas mudam no devagar depressa dos tempos." (Guimarães Rosa)

Rosimayre Oliveira

Professora em constante formação. Estudou Letras, e desde então, palavras em prosa e versos a constituem. A escrita a seduziu e praticá-la promove sua catarse.

Frida, a redenção pela arte

Para além do material de consumo banal que se tornou, Frida é um filme que eterniza, juntamente com sua obra, a história de uma mulher e artista fascinantes. Traz às telas uma narrativa que emociona e faz refletir sobre a condição de ser mulher, e a possibilidade de se apossar da arte como catarse para suas dores.


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Salve a sétima arte! Salve seu poder de representatividade dos mais amplos aspectos da vida, através de personagens que nos provocam, nos inquietam, nos inspiram, nos (co) movem, nos (trans) formam. Em um pequeno espaço de tempo somos seduzidos por um enredo que nos convida discretamente, ao pé do ouvido, para sentarmos comodamente no sofá de casa ou na poltrona de um cinema e nos tornarmos espectadores de uma história arrebatadora. Frida (2002) é um desses filmes. Espetacular. Atemporal. Impossível assisti-lo e permanecer imune a toda simbologia presente na trajetória de vida dessa mulher e artista singular, onde vida pessoal e carreira artística se fundem numa simbiose inevitável.

Ganhador do Oscar de melhor Trilha Sonora e Maquiagem, Frida, certamente, também merecia a premiação máxima de melhor atriz para Salma Hayek pela sua brilhante atuação no filme, aliada à impressionante semelhança física com Kahla, demonstrando a excelente escolha da diretora Julie Taymor, que acertou não apenas na seleção da atriz, como também em toda montagem, incluindo a bela canção tema Burn it Blue, interpretada pelo tropicalista Caetano Veloso.

Longe da pretensão de didatizar a obra, Taymon ressalta a autobiografia de Frida com o máximo de fidelidade possível aos fatos reais, porém, de uma forma bela e inovadora, quase surreal, assim como os críticos de arte denominavam suas pinturas. Denominação que ela própria contestou, ao afirmar que “não pintava sonhos, mas sua própria realidade”, apesar da evidente influência dos movimentos de vanguarda. É exatamente a partir dessa afirmação que pretendo apresentar aqui a interdependência que transparece entre a mulher literalmente atropelada pela vida e a artista grandiosa que ascende em meio às intensas dores físicas e perdas afetivas.

Diz o dito popular que existem pessoas nascidas com o bumbum virado para a lua, numa alusão àquelas que desde cedo possuem muita sorte, seus dias fluem com a tranquilidade e serenidade de um riacho de águas doces e cristalinas. Definitivamente, não foi este o caso de Frida Kahlo. A menina de sobrancelhas grossas e unidas, semelhantes às do escritor Monteiro Lobato, desde cedo fora apresentada à dor em todas as suas interfaces, ao tornar-se vítima de uma série de doenças e lesões que a acompanhariam pelo resto da vida.

Aos dezoito anos, quando ao cruzar uma avenida, o bonde em que viajava chocou-se com um trem e um ferro desprendido de um dos veículos atravessou a sua pélvis e saiu pela vagina, provocando uma grave hemorragia, parecia impossível uma sobrevida. Seu corpo foi dilacerado e precisou ser reconstituído peça por peça, como se monta um quebra-cabeça. Foram meses entre a vida e a morte. Mas, para ela que se tornaria sinônimo de força e resistência, a ociosidade da cama de um hospital, aguça a sua criatividade e esta entra em efervescência.

A arte pede passagem e adentra em sua vida como um anjo salvador, um bálsamo que a vivifica novamente, e sempre, daí em diante. Apesar de imobilizada, engessada e cheia de ataduras, consegue improvisar um cavalete preso à cama, e usando a caixa de tintas de seu pai, começa então a tomar forma os primeiros desenhos, as primeiras pinturas, entre elas, a tela A Coluna Partida. Uma obra visceral. As lágrimas que escorrem de seu rosto, os pregos que perfuram todo o seu corpo, bem como o ferro que lhe atravessa verticalmente a coluna, emitem um sofrimento atroz, remetendo analogicamente à imagem de Cristo crucificado. Como ela própria sentencia: “E a sensação nunca mais me deixou, de que meu corpo carrega em si todas as chagas do mundo”.

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Três anos após o seu “renascimento”, dar-se início a sua militância política, ao ingressar no Partido Comunista Mexicano, onde conhece o ícone muralista e grande paixão de sua vida, Diego Rivera, interpretado no filme pelo ator Alfred Molina. A arte e o amor os atraíram intempestivamente, de forma nada convencional. Como de fato, convenções morais, padrões de comportamento preestabelecidos, repressões sociais, não os subjugavam. Formavam um casal excêntrico, que possuía seu próprio código interno de convivência amorosa. Não eram adeptos da monogamia, e ambos mantiveram relações extraconjugais recorrentes, embora mais tarde tivessem que pagar um preço alto por isso. Frida fora assumidamente bissexual, e seus casos com mulheres não incomodavam a Rivera, porém, o mesmo não acontecia com os envolvimentos dela com outros homens. Machismo? Insegurança masculina? Medo de perdê-la para outro homem superior a ele? Talvez tudo isso coexistisse, o que acabou tornando o casamento conturbado, regado a bebidas alcoólicas e discussões violentas.

Frida exigia apenas lealdade que, segundo ela, diferia de fidelidade. Para a sua desolação, Rivera não lhe ofereceu nem uma coisa nem outra, ao consumar um envolvimento amoroso estável com sua cunhada, a irmã mais nova de Frida. Isso ela não perdoo. Mais um golpe doloroso e difícil de suportar. Então, ela decidiu: “Acho que é melhor nos separarmos e eu ir tocar a minha música em outro lugar, com todos os meus preconceitos burgueses de fidelidade”.

Já sozinha, em sua nova casa, que mais parece um ateliê personalizado, com as paredes cobertas de pinturas e frases, ela corta os cabelos aleatória e vertiginosamente. Esse momento simboliza uma espécie de rito de passagem. Uma nova mulher ressurge após mais uma queda dolorosa. A tela Auto – Retrato com Cabelo Curto expressa simbolicamente esse momento. Sentada em uma cadeira no meio da sala, ainda com a tesoura entre os dedos, vestida de terno azul e sapato masculino, mechas dos seus cabelos cobrem o chão. O seu olhar perdido tenta se reencontrar novamente. E a arte mais uma vez a toma pelos braços e a faz reconhecer que “Nada é absoluto. Tudo muda, tudo se move, tudo gira, tudo voa e desaparece”.

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Depois de algumas tentativas de ter um filho, seguidas de abortos sucessivos, Frida se desprende de Rivera, ainda que temporariamente, mostrando para ela mesma que é possível trilhar outros caminhos. Dar-se um tempo para se reconhecer autônoma, mulher desacompanhada, porém, autora de suas escolhas. Viaja, conhece e se relaciona com outras pessoas, entre estas o fotógrafo Nykolas Muray, além de algumas mulheres anônimas. Algum tempo depois, mantém um caso esporádico com o revolucionário marxista Leon Trotsky, enquanto este esteve exilado em sua casa, a pedido do próprio Rivera, que o afasta dela assim que percebe o envolvimento dos dois.

Ao encontrar-se com a saúde cada vez mais decadente, em consequência das sequelas do trágico acidente, eles retomam do ponto onde pararam e ele, que sempre a traiu e a amou, paradoxalmente, é quem a abraça em posição de conchinha em sua última noite. Uma cena que sacramenta a união da pomba com o elefante, como dizia a mãe de Frida que era radicalmente contra o casamento dos dois.

Sua primeira grande exposição individual aconteceu quando já estava atrelada a uma cama, sem poder caminhar, no entanto, isto não a impediu de estar presente no grande evento. Fez questão de comparecer, mesmo imobilizada. Essa, inclusive, é a primeira cena do filme, que se desenvolve a partir daí através de um longo flash back, regressando à sua adolescência e vida adulta, cronologicamente.

Quando Simone de Beauvoir disse: “Não se nasce mulher, torna-se mulher”, certamente pensou na gênese de mulheres como Frida Kahlo. Pois é da essência de uma revolucionária, destemida, do discurso que emerge de sua postura identitária, original, contrária às normas vigentes, sexistas e catequizadoras, que se forma a imagem de uma grande mulher, inspiradora para tantas outras que a sucederam.

O conjunto de sua obra traduz não somente a dor predominante em sua vida, mas também a sua capacidade de amar, viver e superar as adversidades. A catarse pessoal é evidenciada através das cores e formas, muitas vezes disformes de sua arte surrealista e, ao mesmo tempo tão real, como também por meio do cinema, onde sua história é contada e eternizada. E como ela própria dizia: “Pés, para que os quero, se tenho asas para voar”? A sua arte a libertou e a conduziu a alturas inimagináveis.


Rosimayre Oliveira

Professora em constante formação. Estudou Letras, e desde então, palavras em prosa e versos a constituem. A escrita a seduziu e praticá-la promove sua catarse..
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