entre linhas e dizeres

"As coisas mudam no devagar depressa dos tempos." (Guimarães Rosa)

Rosimayre Oliveira

Professora em constante formação. Estudou Letras, e desde então, palavras em prosa e versos a constituem. A escrita a seduziu e praticá-la promove sua catarse.

SOBRE A OBRIGAÇÃO DE SER JOVEM, BONITA E FELIZ

Frequentes são os casos de cirurgias plásticas mal sucedidas, silicones injetados de forma irresponsável e até criminosa; doenças como anorexia, bulimia e depressão atestam o quanto muitas mulheres estão se autodeformando, ao serem seduzidas, enganosamente, pelo antídoto da felicidade descrita na embalagem de um corpo e de um sorriso pré-fabricado.


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Historicamente, no contexto da cultura ocidental, as mulheres sempre foram vítimas das determinações patriarcais machistas, que lhes impuseram, ao longo dos tempos, modelos padronizados de estética e comportamento. Não é de hoje que ideais de beleza feminina são disseminados, desconsiderando as características individuais de cada mulher, na tentativa de formatá-las em série, como se todas pertencessem ao mundo dos minions, porém, compondo uma outra categoria mais “evoluída” fisicamente, com corpos exaustivamente esculpidos em academias, sob o pretexto da busca pela saúde perfeita e do prolongamento da longevidade.

Alcançar esse corpo considerado ideal gera uma sensação de pertencimento, de aceitação social dentro dos moldes vigentes. Entretanto, como cada mulher, naturalmente, possui um biótipo, uma beleza própria que lhe é peculiar, que a torna singular, querer se igualar ao modelo da moda, chega a ser mutilador. De forma que, frequentes são os casos de cirurgias plásticas mal sucedidas, silicones injetados de forma irresponsável e até criminosa; doenças como anorexia, bulimia e depressão atestam o quanto muitas mulheres estão se autodeformando, ao serem seduzidas, enganosamente, pelo antídoto da felicidade descrita na embalagem de um corpo e de um sorriso pré-fabricado.

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Interessante observar que essa ditadura do ideal de beleza feminina não é um fenômeno exclusivo da globalização, embora esta tenha potencializado seus efeitos e disseminado discursos hegemônicos mais dominadores e de alcance ilimitado, tornando-o mais difícil de resisti-lo. Esse processo de manipulação do comportamento e do corpo feminino decorre de tempos idos.

O enquadramento da mulher em um modelo padronizado de beleza, surgiu a partir da Pré-História, quando se via o belo apenas naquelas mulheres cujos seios eram fartos e os quadris avantajados, numa evidente valorização do feminino enquanto ser reprodutor. Bela era aquela mulher que possuía características físicas de uma legítima fêmea parideira.

Com o predomínio da religiosidade, na Idade Média, a mulher passou a ser símbolo de pecado, e seu corpo deveria ser negado, ocultando qualquer vestígio de sensualidade, embora existam registros que demonstrem a valorização de uma beleza de bibelô: pele branquinha, bochechas rosadas, seios pequenos e uma barriginha proeminente, ainda simbolizando a maternidade, numa alusão à imagem da Virgem Maria. Aquelas que não conseguiam exibir naturalmente suas barrigas salientes, recorriam aos enchimentos com tecidos para torná-las visíveis.

A idealização do corpo feminino com formas mais delineadas, cintura fina moldada por espartilhos, foram evidenciadas a partir do século XVII. Apertava-se tanto as cinturas para se obter os resultados desejados, que não raro algumas costelas eram quebradas. Porém, com o advento da Revolução Industrial, iniciada no século XVIII, descartam-se as cinturas finas e recupera-se o ideal de beleza renascentista, semelhante ao que conhecemos hoje como mulheres plus sizes.

Com as rupturas sociais e comportamentais desencadeadas a partir do século XX passou a existir uma liberdade maior de exposição do corpo e, consequentemente, aumentou a preocupação com a boa forma. A partir deste período, a indústria da moda começou a exigir corpos magros e longilíneos para vender seus produtos, a exemplo da consagrada Gisele Bunchen. Paralelamente a esse modelo tão amplamente difundido, destaca-se o tipo de corpo malhado nas academias, com pernas torneadas, bumbum e seios avantajados, no caso destes últimos, quase sempre turbinados de silicones.

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Com o advento das novas tecnologias, da disseminação das redes sociais, em especial, os padrões de beleza e comportamento se tornaram mais massivamente divulgados e exibidos numa grande vitrine virtual. Com isso, um manual de sobrevivência passou a ser rigorosamente seguido por todos que necessitam elevar ou manter a autoestima, através da admiração constante do outro. E para não submergir a esse mundo sustentado pelas aparências frívolas, há três condições básicas a serem obrigatoriamente atingidas: ser jovem, bonita e feliz, como se estivéssemos sempre atuando em um comercial de produto de beleza.

É proibido envelhecer. Mulheres que já foram consideradas ícones de beleza na televisão brasileira, a exemplo de Xuxa e da ex-miss Brasil Vera Ficher, são frequentemente vítimas de chacotas nas páginas do faceboock, quando flagradas por algum fotógrafo mal intencionado. “Olha aí, elas são normais, perderam a juventude, coitadas! As rugas estão aparentes, a pele perdeu colágeno e a flacidez denuncia a diminuição do tônus muscular.”_ indignam-se eles/elas, que não admitem a ação natural da lei da gravidade.

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O que fazer então? Recorrer a algum procedimento estético milagroso, capaz de por tudo em seu devido lugar, porque é proibido ser o que é? E quando não se tem dinheiro para recorrer às melhores clínicas dermatológicas, como as celebridades o fazem? Ah, ainda assim, se pode utilizar os editores de imagem, que filtram as imperfeições e devolvem, pelo menos virtualmente, a juventude perdida. Marcas de expressão, espinhas, manchas senis desaparecem com apenas alguns cliques. A "perfeição" ao alcance de todos.

Feito isso, a foto estará pronta para ser postada, compartilhada com os amigos nas redes sociais e receber algumas dezenas, ou talvez centenas de likes (quanto mais likes, mais aceitação pública e a sensação de autoestima elevada). Os comentários abaixo das fotos também ajudam a reforçar o bem estar emocional, através de elogios mecanizados que se tornaram clichês, por constarem sempre as mesmas palavras (linda, arrasou, perfeita), denotando uma constante falta de originalidade e criatividade, características recorrentes a um grande número de usuários das redes sociais, onde a imagem predomina sob as demais linguagens. Mas, isso já seria assunto para outro texto.

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A beleza é essencial aos olhos, mas ela se apresenta de forma multifacial, multirracial, multicorporal, na diversIDADE e não na unilateralidade.

Assim como canta Zeca Baleiro, em Salão de Beleza...

Mundo velho/ E decadente mundo/ Ainda não aprendeu/ A admirar a beleza/ A verdadeira beleza/ A beleza que põe mesa/ E que deita na cama/ A beleza de quem come/ A beleza de quem ama/ A beleza do erro/ Puro do engano/ Da imperfeição...

Ao passo que Pitty complementa: “Mesmo que seja estranho, seja você...”


Rosimayre Oliveira

Professora em constante formação. Estudou Letras, e desde então, palavras em prosa e versos a constituem. A escrita a seduziu e praticá-la promove sua catarse..
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