entre o mar e as terras do meio

Literatura e cultura do Oriente Médio e do Mediterrâneo

Cassandra Gomes Hochberg

Cassandra Gomes Hochberg é engenheira por formação, escritora e nômade por vocação. Mas o que gosta mesmo é de ler, de bater boca sobre política e do Oriente Médio. Tenta ser romancista e escreve sobre literatura e cultura.

A amizade feminina por Elena Ferrante

A amizade entre mulheres nos confunde, abala e deixa marcas que carregamos por toda uma vida. Mas esta não é sempre a maneira como a relação, perigosa e inevitável, é retratada. Na literatura nos deparamos com disputas hostis e convivências desagradáveis, muitas vezes vencidas pela força da irmandade. Na vida, infelizmente, a banda toca diferente. Elena Ferrante nos mostra na sua obra, A Amiga Genial, um retrato feroz, caótico e devastadoramente real do amor, inveja e amizade no mundo feminino.


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“A amizade entre mulheres é, para nós mesmas, terra incognita, um campo sem regras fixas. Nada é certo, não sabemos o que esperar,” assim a autora Elena Ferrante explica uma das motivações para escrever a série napolitana e um dos retratos literários mais fiéis da complexa e dolorosa amizade entre mulheres. Único na ficção, mas muito corrente no mundo feminino.

Considerada pelo New York Times como a maior romancista dos últimos tempos, a autora italiana que leva o pseudônimo Elena Ferrante - sim, pseudônimo - mantém sua identidade secreta. Ela afirmou, em uma carta ao seu editor após o lançamento do seu romance em 1991, que “livros, uma vez escritos, não precisam de seus autores. Se eles tem algo a dizer, mais cedo ou mais tarde encontrarão os leitores. Se não, eles não vão.”

Uma vez no mundo napolitano de Elena Ferrante, o título de maior romancista faz sentido: temos acesso a uma nova ótica feminina. O primeiro livro da série, A Amiga Genial (editora Biblioteca Azul) conta a saga da protagonista, Elena (Lenú) Greco, filha do porteiro da prefeitura, e sua amiga Rafaella (Lila) Cerullo, filha do sapateiro, em um bairro pobre nos anos 50 em Nápoles. As duas, no primeiro ano da escola primária, desenvolvem uma forte amizade devido ao reconhecimento mútuo da genialidade, persistência e curiosidade, características não muito comuns em um ambiente marcado pela violência, pobreza e ignorância.

“Não tenho saudade da nossa infância cheia de violência. Acontecia-nos de tudo, dentro e fora de casa, todos os dias, mas eu não me lembro de jamais ter pensado que a vida que nos coubera fosse particularmente ruim. A vida era assim e ponto final, crescíamos com a obrigação de torná-la difícil aos outros antes que os outros a tornassem difícil para nós.” (Ferrante, p.29)

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O que mais marca a obra é a sinceridade com a qual ela retrata a complexidade da amizade feminina: uma ligação marcada por admiração, competição, ódio e, acima de tudo, cumplicidade. Cumplicidade não necessariamente resultante da afeição, mas da intimidade excessiva que leva a dependência, conivência.

“Decidi que deveria regular-me de acordo com aquela menina e nunca perdê-la de vista, ainda que ela se aborrecesse e me escorraçasse. É provável que essa tenha sido minha maneira de reagir à inveja, ao ódio, e de sufocá-los.” (Ferrante, p.38)

Desta forma, a amizade entre Lenú e Lila mostra ao público, principalmente feminino, que a amizade entre mulheres é um tema muitas vezes explorado de forma superficial. Segundo a autora, numa entrevista para a Vanity Fair, “na literatura, os retratos desta amizade são raros e seus avanços, lentos. Em todo momento existe, maior que tudo, o risco da honestidade da narração ser ofuscada por boas intenções, hipocrisias ou ideologias que exaltam irmandade de maneira nauseante.”

O risco de ofuscação, Ferrante insiste, vem da demarcação territorial imposta pelos homens, que dominam o mundo das publicações. Estas delimitações já fazem parte do nosso inconsciente literário e estabelecem o conteúdo e a forma na qual as mulheres devem se expressar. A honestidade da série napolitana é libertadora e nos mostra que a complexidade das amizades entre mulheres é universal, digna de ser explorada e merece ser feito da forma mais sincera possível.

“Em certas manhãs frias, quando me levantava ao alvorecer e repassava as lições na cozinha, tinha a impressão de que, como sempre, eu estava sacrificando o sono quente e profundo da manhã para fazer bonito diante da filha do sapateiro, e não com os professores da escola dos ricos.” (Ferrante, p. 150-151)

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A autora dá nome para este tipo de sinceridade: a verdade literária. Em uma entrevista concedida à revista americana The Paris Review no ano passado, a primeira dos seus 25 anos de carreira, Ferrante faz um paralelo com a reprodução escrita dos sonhos. Quem já tentou relatar os próprios sonhos, principalmente aqueles que nos fazem acordar envergonhados, sabe que colocar os gestos, sentimentos e pensamentos no papel é uma operação muito mais complexa do que parece. E o mesmo ocorre com a narração. A dificuldade vem da tentativa de domesticar da verdade. Nas palavras da autora, “domesticar a verdade é a opção por adotar meios de se expressar que ja foram usados e abusados, traindo a narração devido a preguiça, aquiescência, conveniência ou medo. O texto é, então, reduzido a clichês para consumo em massa.”

Clichês, por definição, são expressões que traem e transformam pensamentos e sentimentos originais em frases supérfluas. No entanto, a sinceridade não provém apenas do realismo brutal e temas do mundo feminino pouco explorados. Segundo a autora, a verdade literária não significa narrar eventos exatamente da forma como aconteceram, nomes reais, descrições exatas de lugares e situação: esta surge da combinação entre a sinceridade crua e prática incessante, levando à colocação perfeita das palavras.

O resultado final são passagens que lemos e relemos boquiabertas, com entusiasmo febril. E as mesmas nos revelam características e experiências comuns a mulheres que, por muitos anos, estavam enterradas sob regras ocultas da conduta literária. Para a nossa sorte, Elena Ferrante acabou de quebrá-las.

A Amiga Genial - Elena Ferrante Tradução: Maurício Santana Dias


Cassandra Gomes Hochberg

Cassandra Gomes Hochberg é engenheira por formação, escritora e nômade por vocação. Mas o que gosta mesmo é de ler, de bater boca sobre política e do Oriente Médio. Tenta ser romancista e escreve sobre literatura e cultura..
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