entre o mar e as terras do meio

Literatura e cultura do Oriente Médio e do Mediterrâneo

Cassandra Gomes Hochberg

Cassandra Gomes Hochberg é engenheira por formação, escritora e nômade por vocação. Mas o que gosta mesmo é de ler, de bater boca sobre política e do Oriente Médio. Tenta ser romancista e escreve sobre literatura e cultura.

Escritores que nos ensinam sobre o Oriente Médio

Por meio da literatura eletrizante de países como Israel, Turquia, Irã e Egito penetramos vidas marcadas por guerras, desesperanças e, acima de tudo, a busca por um sentido em meio o caos.


Iranian_Revolution_Women.jpg A Revolução Iraniana, 1979

Países destruídos por guerras, fanatismo religioso, mulheres oprimidas, famílias arruinadas pelo caos e jovens que buscam o mais inalcançável dos sonhos—a paz—são alguns dos tópicos que permeiam a literatura contemporânea do Oriente Médio. Graças a maestria de escritores como Orhan Pamuk, Dalia Sofer, Naguib Mahfouz e muitos outros, podemos penetrar o complexo Oriente por meio de uma literatura eletrizante, que nos apresenta o desconhecido e nos leva a buscar respostas ao incompreensível. Assim, pelos olhos de inúmeros personagens andamos pelas ruas do Cairo, Jerusalém e Teerã, vales e montanhas, normalidade e caos, ansiosos para entender o significado da vida no Oriente Médio.

Marjane Satrapi e Dalia Sofer, Irã

A queda do Shah e a ascensão dos aiatolás ao poder durante a revolução iraniana de 1979 foi um dos eventos mais traumáticos na vida de muitas famílias, políticos e intelectuais iranianos, que abandonaram o seu país em busca da liberdade. Os eventos da revolução são retratados por ambas escritoras Marjane Satrapi e Dalia Sofer, de formas diferentes, porém marcantes. Persépolis, a autobiografia em quadrinhos de Marjane Satrapi, reconta a trajetória da escritora e sua família liberal e secular em Teerã durante um período de perseguições políticas e imposições de mudanças comportamentais, como o uso do véu, discrição, apoio ao aiatolá e total adesão ao Islã. Em Setembros de Shiraz, Dalia Sofer conta a história de uma família judia iraniana em um ambiente de crescente fanatismo islâmico. O pai, Isak, é acusado por guardas da revolução de ser um espião e encarcerado sem julgamento, enquanto o restante da sua família vive um período de desordem, sem respostas e pistas sobre o futuro. Ambas nascidas em Teerã, Satrapi e Sofer se mudaram para a França e Estados Unidos, respectivamente, na década de oitenta, o que explica os impressionantes detalhes da alienação de suas famílias no Irã.

Naguib Mahfouz, Egito

Nos seus 94 anos de idade e 73 de carreira, Naguib Mahfouz foi um dos mais prolíficos escritores do mundo árabe, sendo o primeiro a receber Prêmio Nobel da Literatura, em 1988. A Trilogia do Cairo retrata a saga de uma família durante três gerações e três eras políticas e sociais distintas e marcantes da história do Egito—da Revolução Egípcia de 1919 que levou à expulsão dos ingleses, a turbulenta década de 20 e a modernização da sociedade, culminando na Segunda Guerra Mundial. Um patriarca que lutou para manter sua família sob rédeas curtas, assiste ao fim de cada um dos seus netos: um comunista, um fundamentalista islâmico e uma amante de um grande e poderoso político. Suas obras não apenas focam no ambiente político do Cairo contemporâneo, mas sobrevoa terras distantes do Egito medieval em As noites das Mil e uma Noites, baseado no clássico As Mil e Uma Noites, e em cidades desérticas fantásticas como em Os filhos do Nosso Bairro. No discurso de premiação do Nobel, a academia o aclamou por ‘compor uma arte de narração árabe que se aplica à toda humanidade.’ Naguib Mahfouz conduziu com proeza uma das mais difíceis tarefas num ambiente marcado por drásticas mudanças: retratar com clareza, humanidade e sentimento as inúmeras transformações que impactam a região.

Jerusalem_Dome_of_the_rock_BW_14.JPG Jerusalem

Amos Oz, Israel

O mais consagrado escritor israelense, Amos Oz é um fiel representante da intrínseca sociedade de Israel. Em seus livros, personagens em diferentes estâncias da vida caminham de norte a sul, por guerra e entre-guerras, desertos e mares e relações familiares conflituosas que são nada mais que um reflexo das contradições e dificuldades políticas que permeiam o país. Meu Michael conta a história de um casal recém-casado em Jerusalém na década de 50 e a incessante busca por um sentido no relacionamento. Em Uma certa Paz, Yonatan decide abandonar sua mulher e o Kibbutz onde nascera, devido à insatisfação e revolta com a ilusão coletivista na qual foi criado. Por mais que Amos Oz domine a arte da ficção, nenhum dos seus trabalhos se compara à sua brilhante biografia, De Amor e Trevas, na qual reconta a chegada de seus pais a Israel, o suicídio de sua mãe quando o escritor tinha apenas 12 anos e fatos de sua vida—a fonte da sua genialidade e maestria. Amos Oz nos leva, juntos aos seus personagens, à busca da paz com seus passados, o sentido das suas relações e a cura para uma angustia incurável.

Hanan al-Shaykh, Líbano

A Guerra Civil do Líbano foi um tema amplamente abordado na literatura do Oriente Médio, levando ao surgimento de um círculo de escritores libaneses que se dedicaram a escrever sobre o conflito. Dentre esses, temos a poderosa e feminina voz de Hanan al-Shaykh, uma das escritoras mais aclamadas do mundo árabe. Nascida em uma família Shiíta em Beirut, a autora cresceu em um ambiente extremamente conservador, a qual abandonou no início da guerra civil em 1975. Uma das suas obras mais famosas, A História de Zahra, narra a vida de uma jovem atordoada pela repressão, problemas emocionais, traumas familiares e uma guerra sangrenta, a qual observa da sua janela, dos corredores dos prédios e das ruas bombardeadas. A intensidade da voz de Zahra é única e incomum no mundo feminino árabe. Hanan al-Shaykh aborda temas como opressão feminina, adultério, estupro e insanidade com uma linguagem poética feroz, deixando o leitor com marcas profundas e questionamentos infindos.

Beirut,_Lebanon_(6276580488).jpg A destruição de Beirut durante a Guerra Civil do Líbano em 1975

Orhan Pamuk, Turquia

O grande escritor turco, Orhan Pamuk, narra intrigantes eventos da sociedade turca, como a ascenção do conservadorismo islâmico e a queda da classe-alta liberal, a vida de excessos em Istanbul e a vida recatada em vilarejos, a tradição do período otomano e a modernização do século 20. Vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 2006, “que na busca da alma melancólica da sua cidade nativa, descobriu novos símbolos que descrevem o choque e o entrelaço de culturas,” Pamuk aborda o encontro do Oriente e do Ocidente de forma poética e instigante. Em Neve, um poeta exilado viaja a uma pequena cidade para investigar um fenômeno social alarmante: o suicídio de jovens muçulmanas em protesto a favor do uso do hijab, ou véu. Entre nevascas e debates religiosos e filosóficos, Pamuk indaga as incertezas dos seculares e a assertividade dos fanáticos. Nas altas classes de Istanbul, Kemal alimenta uma obsessão com uma prima distante em O Museu da Inocência, o tipo de obsessão que nos remete ao Amor nos tempo da Cólera, de Gabriel Garcia Márquez. Em seus meandros, caminhamos pela linda Istanbul e seus modernos bairros, praias e paisagens. Com estas e outras grandes obras, Pamuk nos mostra como o encontro e não o afastamento dos dois mundos leva ao maior entendimento da experiência de ser humano no Oriente Médio.


Cassandra Gomes Hochberg

Cassandra Gomes Hochberg é engenheira por formação, escritora e nômade por vocação. Mas o que gosta mesmo é de ler, de bater boca sobre política e do Oriente Médio. Tenta ser romancista e escreve sobre literatura e cultura..
Saiba como escrever na obvious.
version 3/s/literatura// @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Cassandra Gomes Hochberg