Tatiana Sousa

Insisto que precisamos, cada vez mais, inventar novas respostas para a seguinte pergunta:

"O que existe entre o silêncio e a escuta?"

A autodestruição familiar no filme A Bruxa

O que o ser humano é capaz de fazer quando lhe resta somente o medo?


Aviso¹: Esse texto contém SPOILERS

Aviso²: Essa é mais uma das possíveis leituras sobre o filme.

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Esse é um filme pra sair da zona de conforto, um exemplo clássico de horror psicológico.

Nova Inglaterra, meados de 1630. Uma família se vê obrigada a abandonar a comunidade onde vivem. O pai William (Ralph Ineson), a mãe Katherine (Kate Dickie), a adolescente Thomasin (Anya Taylor-Joy), o pré-adolescente Caleb (Harvey Scrimshaw), as crianças gêmeas Jonas (Lucas Dawson) Mercy (Ellie Grainger) e o bebê Samuel. Uma típica família puritana da época, excomungada de uma pequena vila puritana. O motivo real não é explicado, mas parece haver uma discordância de valores entre o pai da família e outros membros da colônia.

Totalmente guiados pela religião, a família segue o seu destino. Carregando poucos pertences, alguns móveis e animais, encontram em uma clareira no meio da floresta a possibilidade de recomeçar a vida de maneira ainda mais íntima com seus preceitos religiosos.

Uma pequena fazenda é construída e todos parecem bem adaptados ao novo estilo de vida. A cabana isolada carrega consigo uma aura de mistério, de um desconhecido que espreita e ameaça. Não se sabe ao certo se o perigo está dentro ou fora da casa. Pouco tempo depois, Samuel desaparece misteriosamente na presença da irmã Thomasin, que não consegue explicar e nem entender o que realmente aconteceu naquele piscar de olhos. O sumiço inexplicável de um bebê é o início de um conflito devastador na devoção religiosa de cada um. A fé em Deus começa a ser testada diariamente após a tragédia. O desespero se intensifica com o fracasso da colheita do milho e a aproximação do inverno. A possibilidade de passar fome é real e provoca uma pressão psicológica insuportável. Dúvidas e questionamentos começam a surgir. Denúncias quanto à hipocrisia de alguns membros da família são levadas à tona. Qual teria sido o destino do bebê Samuel que não foi batizado? Estaria ele condenado à sofrer pela eternidade no inferno?

O ser humano teme o desconhecido. O que não se entende é assustador. Configura algo totalmente novo e representa uma mudança que, compreensivelmente, num primeiro momento provoca uma certa resistência. Permanecer cercado do mesmo o tempo todo compõe uma atmosfera segura. Esse amparo promovido por uma suposta segurança é necessário para a vida em sociedade. As nossas instituições foram, em grande parte, organizadas através do medo. São as certezas que garantem uma previsibilidade confortável dos fatos e, porque não da vida?

Entretanto, eis um fato: mais assustador do que desconhecer o que vem de fora é desconhecer o que há dentro de si. Em vista disso, é coerente que o ser humano tente de todas as formas expulsar o mal que lhe pertence o projetando no outro.

A repressão religiosa e sua moralidade puritana, assim como o conservadorismo familiar e suas crenças cristalizadas foram o combustível para as crescentes dúvidas e paranoias que ocasionaram a ruptura de todos os vínculos que existiam entre eles. O delírio preencheu as lacunas daquilo que não conseguiram explicar. E assim, começaram a desconfiar cada vez mais uns dos outros. O medo fragmentou uma família inteira e isolou cada um naquilo que lhe parecia mais suportável como resposta. Ora as suspeitas pairavam sobre sobre um, ora sobre os outros, ora sobre si. Alguém precisava ser responsável e carregar a culpa por tamanho infortúnio sem explicação. São as prováveis consequências da fé - ou da falta dela.

É preciso nomear o desconhecido para que ele se torne então, conhecido. Uma bruxa. A bruxa da floresta. Thomasin. A filha mais velha. Pecadora. O bode expiatório.

Realmente existe um mal sobrenatural no filme? Ou este seria apenas uma projeção de crenças acerca da culpa e do desconhecido? A resposta está no cartaz do filme: o mal assume muitas formas.

O que o ser humano é capaz de fazer quando lhe resta somente o medo?

O que cada membro de uma família é capaz de fazer antes de sucumbir ao medo? A falta de respostas para o que estava acontecendo era tão insuportável que acabaram uns com os outros. Foi preciso expulsar o medo de dentro de si e direcioná-lo para algo, ou para alguém: "foi a bruxa", "você é ela", "foi ela", "foi você", "a culpa é sua". Assim cada um evitou - da sua maneira - olhar para a própria bruxa interior que de tão desconhecida, dominou cada pensamento, palavra e ação. A família terminou em pedaços, arruinada e destruída por aquilo que ela mesma criou.

A puberdade natural de Thomasin representa uma mudança estrutural extremamente incômoda na família. Foi a primeira dos filhos a deixar de ser criança e o seu desenvolvimento corporal provocou sentimentos ainda não experimentados, alguns até desconhecidos. O pai ensinou aos filhos que todos eles são frutos do pecado original e portanto, já nasceram pecadores. Inclusive, algumas pessoas já estão antecipadamente condenadas ao inferno. Não há escapatória. E naquele momento, viver uma vida atormentada não era o pior. Existia um lugar de sofrimentos e misérias eternas que assombrava o destino de cada um. A puberdade de Thomasin expõe a trágica e real possibilidade da condenação ao inferno. O despertar da sexualidade resultou numa luta avassaladora, como se a origem do mal habitasse na sexualidade feminina. Há - literalmente - um inferno na culpa.

Thomasin nos remete às mulheres acusadas pela inquisição. O filme é um retrato fiel da sociedade da época, ambientado algumas décadas antes do sombrio período da história onde mais de vinte pessoas inocentes foram queimadas vivas acusadas de bruxaria em Salem.

É importante compreender a complexidade do ser humano e o que compõe a sua natureza. A bruxa que habita o interior de cada um é a mais assustadora (e perigosa) de todas. Por isso esse é um filme desconfortável, que incomoda quando toca no que existe de mais íntimo em cada um. Uma análise perturbadora que aponta justamente aquilo que não se quer saber sobre si.

A bruxa que o público esperava existe? No final das contas, sua existência é somente um pano de fundo que permeia o filme. Arrisco dizer que simplesmente não importa.


Tatiana Sousa

Insisto que precisamos, cada vez mais, inventar novas respostas para a seguinte pergunta: "O que existe entre o silêncio e a escuta?".
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