entre rabiscos e palavras

"Agasalho-me com as leituras." ( Walter Benjamin).

Clêuma Alves

Escrever é exteriorizar para o mundo as experiências do ser... Ser que experimenta saberes, dizeres e viveres.
Acredito na força das RETICÊNCIAS, elas me conduzem para UM além de mim...

O “mundo” nos escritos de CAROLINA MARIA DE JESUS

A voz que vem da favela e resiste poeticamente as limitações políticas, sociais, econômicas de uma época e para além dela, mostrando a atemporalidade de versos que se revelam na sutileza dos ditos de uma mulher. Carolina Maria de Jesus, pobre, negra, favelada e mãe. Apesar dessas “limitações”, foi um CORPO cuja força ultrapassou fronteiras e se revelou através de uma escrita subjetiva. O desejo de mudar seu mundo, e o mundo dos seus que ali na favela apenas (sobre)viviam às mazelas sociais, não lhe tirou os sonhos, mas alimentava-os através dos seus escritos.


“SOMOS TODAS CAROLINAS?”

"Domingo. Um dia maravilhoso. O céu azul sem nuvem. O sol está tépido... Fui buscar agua. Fiz café. Tendo só um pedaço de pão e 3 cruzeiros [...]” (JESUS, Quarto de Despejo-.p 10).

Assim era Carolina de Jesus, uma escritora que fazia de sua vivência fonte para reflexões. Encontrou em seus diários um “refúgio”, sabia que naqueles cadernos podia registrar suas dores, incertezas, sonhos, lutas do cotidiano. O poder das mãos de uma catadora de papel que desejava alcançar um dia momentos menos dolorosos, mesmo quando tinha ambição, era uma ambição simples.

“O livro ... me fascina. Eu fui criada no mundo. Sem orientação materna. Mas os livros guiou os meus pensamentos. Evitando abismos que encontramos na vida. Bendita as horas que passei lendo. Cheguei a conclusão que é o pobre quem deve ler. Porque o livro, é bussola que ha de orientar o homem no porvir[...]” ( CAROLINA MARIA DE JESUS, em Meu Estranho Diário. São Paulo: Xamã, 1996, p.167.)

Revela o cotidiano de sua família, de seus vizinhos, bem como, as condições de vida, o lidar com a fome que fazia o “estômago reclamar alto, como um grito a clamar”. Em seus cadernos denuncia as mazelas dos governantes que não “olha para os menos favorecidos” que ficam à margem da sociedade. Porém, Carolina enxergou além, questionou seu tempo, o modo como as pessoas se comportavam seja nas favelas ou nos grandes centros urbanos.

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A mulher escritora Carolina Maria de Jesus, nasceu em Minas Gerais, exteriorizou para o mundo escritos belíssimos como: Quarto de Despejo, Casa de Alvenaria, Diário de Bitita, Meu Estranho Diário. Embora o cânone Literário não a tenha como um nome para "estar" nesse espaço que tantos outros brilhantes escritores, a exemplo, de Machado de Assis ocupa com notoriedade, ela é um exemplo de ESCRITORA que mesmo em meio as fragilidades que a miséria lhe impôs foi capaz de denunciar a humilhação social e também moral enfrentada pelos moradores da favela do Canidé, na grande São Paulo, famosa "Pauliceia desvairada" de Mário de Andrade.

Mesmo que os "dizeres" dos diários de Carolina estejam fora dos padrões estéticos exigidos pelas normas formais/gramaticais, seus relatos ressoa FORÇAS. A escrita acontece com repetição de frases, ausência de acentuação de algumas palavras, mas nada capaz de prejudicar o entendimento de seu texto, ao contrário disso, simboliza a singularidade de ser, viver, pensar e sentir de MULHER, que nos (re) apresenta um novo olhar para espaços pouco explorados pela escrita. E que a critica contemporânea "resgata" pela extrema relevância social, cultural, e experiencial de outras tantas Carolinas que existem nessa sociedade de AGORAS, e que já foi outrora, um passado que se faz presente e vice-versa.

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Assim fala Barthes : "No fundo havia na escrita dois tempos. Um primeiro tempo da balada, o tempo baladeiro, paquerador quase, durante o qual se paqueram lembranças, as sensações, os incidentes deixa-se que eles desabrochem. Depois, havia um segundo tempo, o da mesa em que se escreve [...] (BARTHE S, O grão da Voz. p. 480-481)."

As palavras que lhe condurizam, sem medo de querer dias melhores, sem dores e regados de novos horizontes.

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"O céu já está salpicado de estrelas. Eu que sou exótica gostaria de recortar um pedaço do céu para fazer um vestido[..." ( CAROLINA DE JESUS- QUARTO DE DESPEJO).”

Os desafios? Muitos, mas que impulsionam ver quão fortes as pessoas podem ser mesmo diante dos gritos que ecoam de corpos frágeis , porém produtores de discursos.

Como sabiamente diz Guimarães Rosa: " “o que tem de ser, tem muita força." Viva Carolina... Sejamos Carolinas... Deixemos nosso pensar fluir, RABISQUEMOS sem medo, o mundo precisa ouvir nossa Voz...


Clêuma Alves

Escrever é exteriorizar para o mundo as experiências do ser... Ser que experimenta saberes, dizeres e viveres. Acredito na força das RETICÊNCIAS, elas me conduzem para UM além de mim....
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