entre rabiscos e palavras

"Agasalho-me com as leituras." ( Walter Benjamin).

Clêuma Alves

Escrever é exteriorizar para o mundo as experiências do ser... Ser que experimenta saberes, dizeres e viveres.
Acredito na força das RETICÊNCIAS, elas me conduzem para UM além de mim...

LIMA BARRETO: O INTELECTUAL PARA ALÉM DO SEU TEMPO

Lima Barreto crítico incansável, dono de uma escrita inovadora para a literatura brasileira, nitidamente evidenciada em seus romances e contos.
“Ah! A literatura ou me mata ou me dá o que eu peço dela” ( LIMA BARRETO).


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O texto é um organismo “preguiçoso”...o texto é “esburacado” e espera que o leitor o complete. O leitor investe no texto a partir de sua experiência de mundo e da literatura... (ECO, apud. RESENDE. p. 25- grifo meu).

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QUEM É LIMA BARRETO?

Lima Barreto nasceu no dia 13 de maio de 1881, à Rua Ipiranga no Rio de Janeiro, filho de uma professora pública e com quem aprendeu a ler, e de pai tipografo e depois administrador da Colônia de Alienados na Ilha do Governador. Aos sete anos, perde sua mãe. Nesse período, passa frequentar a escola pública. Frequentou também um dos mais conceituados estabelecimentos de ensino da época, o Liceu Niteroiense, pago por seu padrinho de batismo o Visconde de Ouro Preto.

Cronologicamente, no ano de 1903, interrompeu os estudos para cuidar de seu pai que enlouquecera. Lima Barreto assumiu a responsabilidade de sua família, tinha que trabalhar para mantê-los. Foi professor particular, funcionário público e trabalhou em jornais. Barreto faleceu no primeiro dia do mês de novembro de 1922, vítima de ataque cardíaco, em razão do alcoolismo.

QUANDO COMEÇA A VIDA LITERÁRIA DE BARRETO?

Sua vida literária teve início exatamente no período que foi colaborador em jornais como a Quinzena, e a Lanterna. Uma vida cercada por tantos percalços de sofrimento, dores e conflitos, mas que brilhantemente o escritor transformou todas em arte “a arte da escrita”. O cenário que amava era do subúrbio, das ruas, das casas de alpendre, das galinhas nas ruas, das classes sociais “despercebidas.”

A respeito de Lima Barreto fala Alfredo Bosi (2002, p.285): “O marginal de Lima Barreto não é o mesmo dos naturalistas, sempre a beira do patológico: é o intelectual mulato, humilhado e ofendido, e do seu ressentimento impotente nasce à potência da sua critica social e política.”

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"Há, igualmente, e isso provavelmente em qualquer cultura, em qualquer civilização, lugares reais, lugares afetivos, lugares que são delineados na própria instituição da sociedade, e que são espécies de contra posicionamentos, espécies de utopias efetivamente realizadas nas quais os posicionamentos reais, todos os outros posicionamentos reais que se podem encontrar no interior da cultura estão ao mesmo tempo representados, contestados e invertidos, espécies de lugares que estão fora de todos os lugares, embora eles sejam efetivamente localizáveis. Esses lugares, por serem absolutamente diferentes de todos os posicionamentos que eles refletem e dos quais eles falam, eu os chamarei, em oposição às utopias, de heterotopias [...]"(FOUCAULT, 1984, p. 415).

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Seu primeiro romance foi “Recordações do Escrivão Isaías Caminha”, publicado em 1909. Triste Fim de Policarpo Quaresma, em 1911, o seu mais conhecido romance, afinal quem nunca ouviu algo sobre o famoso “Major Quaresma?”, entre outros. Fez algumas tentativas a uma vaga na Academia Brasileira de Letras, porém sem sucesso, inclusive nesse período fez uma critica a postura elitista e preconceituosa da ABL.

'[...]temos diante de nós uma personalidade complexa, ambivalente que batalha pela autonomia de sua escrita, mas se sente inadaptada e incapacitada de realizar tal propósito, por conta da origem social e étnica ou seu desempenho em sociedade ( tema frequente em suas crônicas, diários e contos). A literatura parece ser, assim, refugio e igualmente muralha."(SCHWARCZ, 2010, p 16).

O escritor Lima Barreto desafiou as regras do seu tempo, não por capricho, porém tomado pelo desejo de ver nascer uma sociedade melhor, sem utopias é claro.

"Tendo inúmeras dificuldades e impedimentos que um escritor negro, pobre e do subúrbio, experimentou para vingar nesse mercado nascente das letras nacionais, vale a pena perceber as ambivalências desse autor, que atuou em muitos sentidos e de maneiras variadas. Construiu sua literatura como uma espécie de voz isolada do subúrbio [...]" (INTRODUÇÃO- CONTOS COMPLETOS DE LIMA BARRETO, org. Lilia Moritz Schwarcz,2010,p. 18).

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Demonstra essa vontade, envolta em critica aos vícios elitistas das classes em ascensão no início do século XX, figuras constantemente lembradas, pois Lima Barreto sabia como era desafiador conviver em meio a dificuldades econômicas e sociais. Sua escrita é transparente, crítico, e com certa dose de humor brinca com as palavras e provoca o leitor a refletir.

UMA PERSONAGEM: ISAÍAS CAMINHA

Isaías tinha verdadeiro deslumbramento por seu pai: “Meu pai que era fortemente inteligente e ilustrado, em começo da minha primeira infância, estimulou-me pelas obscuridades de suas exortações.” Essa inteligência que tanto admirava era um verdadeiro espetáculo em sua vida, repleto de descobertas e alegrias, junto à ignorância de sua mãe e de outros familiares deu impulso ao jovem.

"Parecia-me que aquela sua faculdade de explicar tudo, aquele seu desembaraço de linguagem, a sua capacidade de ler línguas diversas e compreendê-las constituíam, não só uma razão de ser de felicidade, mas também um titulo para o respeito dos homens e para superior consideração de toda gente." ( BARRETO, 2005, p.5).

Seus primeiros passos nos estudos foram graças a seu pai, quando este morre, as dificuldades na vida de Isaías e de sua família aumentam. Dono de um espírito jovem como qualquer rapaz aos dezenove anos, desejando crescimento profissional e intelectual, e diante das dificuldades que o cerca é movido pelo desejo de ir para o Rio de Janeiro a procura de melhores oportunidades financeiras para poder ajudar sua mãe já tão desgastada pelos infortúnios da vida, e também para estudar e se tornar doutor. A vida desse jovem pobre, do interior e mulato não foi nada fácil, sem dinheiro e desprovido de maturidade suficiente para lidar com aquele turbilhão que o atingia vive a mercê da própria sorte.

Passando por todos os martírios Isaías se encontrou com ele mesmo, como se a todo o momento tivesse em processo de (re) conhecimento , fez dos conflitos uma descoberta enquanto sujeito. e sua história constituída de dor e medos não seria deixada para traz, mas era preciso que suas lembranças, fossem ouvidas por outras pessoas. Seu retorno para o lugar de origem significou muito, pois nesse instante já não existia desejo de vingança as opressões e sentimentos angustiantes, tudo agora lhe parecia tomar o rumo certo. “Sua pena” levaria ao mundo memórias e lembranças. O mundo conheceria As Recordações de Isaías Caminha.

UM CONTO: A nova Califórnia

“Ninguém sabia donde viera aquele homem. O agente do Correio pudera apenas informar que atendia pelo nome de Raimundo Flamel, pois assim era subscrita a correspondência que recebia. E era grande. Quase diariamente, o carteiro lá ia a um dos extremos da cidade, onde morava o desconhecido, sopesando um maço alentado de cartas vindas do mundo inteiro, grossas revistas em línguas arrevesadas, livros, pacotes...” ( LIVROS DE CONTOS- SCHWARCZ, 2010. p.63).

SUGESTÕES DE LEITURAS:

- Recordações do escrivão Isaías Caminha (1909) - Triste fim de Policarpo Quaresma (1915) - Numa e ninfa (1915) - Os bruzundangas (1923) - Clara dos Anjos (1948) - Diário Íntimo (1953). - Contos de Lima Barreto, organização Lilia Moritz Schwarcz.

"No fundo havia na escrita dois tempos. Um primeiro tempo da balada, o tempo baladeiro, paquerador quase, durante o qual se paqueram lembranças, as sensações, os incidentes deixa-se que eles desabrochem. Depois, havia um segundo tempo, o da mesa em que se escreve [...]" (BARTHES, O grão da Voz. p. 480-481).

ESCREVER NOS LIBERTA!

REFERÊNCIAS

BOSI, Alfredo: Literatura e resistência. - São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

DALVI, M.A; REZENDE, N.L; JOVIER- FALEIROS (org). Leitura e Literatura na sala na escola. São Paulo, S.P. Parábola, 2013.

SCHWARCZ, Lilia Moritz, org. e introdução. Contos Completos de Lima Barreto – São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

REFERÊNCIAS WEB:

FOUCAULT, Michael: Outros Espaços: http://www.uesb.br Acessado em 03 de janeiro de 2016 às 19h30.

Biografia. Disponível em: http://www.suapesquisa.com/quemfoi/lima_barreto.htm. Acessado em 03 de janeiro de 2016 às 19:00.


Clêuma Alves

Escrever é exteriorizar para o mundo as experiências do ser... Ser que experimenta saberes, dizeres e viveres. Acredito na força das RETICÊNCIAS, elas me conduzem para UM além de mim....
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