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Sobre o reaprendizado de vida e outras reflexões.

Adriane Pereira

É por meio da escrita que me relaciono com o mundo externo e o meu mundo interior. Bem vindo ao meu mundo que ao ser compartilhado se torna nosso. Formada em Letras.

A busca de reencontrar-se...

A biografia apresentada no filme Wild, aborda temas muito próximos de qualquer ser humano, pois trata de questionamentos e reflexões íntimas pertinentes a todos que visam reencontrar-se. Retrata o caminho percorrido pela autora Cheryl para superar a si mesma e é um convite ao autoquestionamento.


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O filme Wild (2014) traduzido no Brasil com o nome Livre foi baseado no livro A Jornada de Uma Mulher Em Busca do Recomeço de autoria de Cheryl Strayed (atriz Reese Witherspoon), o qual conta a história real da referida autora.

O filme é tocante na medida em que o telespectador pode assistir e ao mesmo tempo mergulhar nas reflexões da personagem, sendo que tais reflexões pode ser comum a qualquer um de nós.

O filme mostra a trajetória realizada por Cheryl em busca de equilíbrio íntimo para reencontrar-se. Para isso decide fazer a trilha de 1.770 quilômetros pela Pacific Crest Trail, trilha na costa oeste dos Estados Unidos, que vai do deserto de Mojave, na Califórnia, até o Estado de Washington, perto da fronteira com o Canadá.

Cheryl perde a mãe aos 22 anos de idade e inicia um processo de autodestruição por meio das drogas e de relacionamentos destrutivos. O término de seu casamento ocorre devido às traições cometidas por ela, quando então resolve deixar tudo para trás e iniciar o percurso da trilha. Seu objetivo: autossuperação.

O início do filme me fez lembrar àquela situação em que nos preparamos para uma viagem e geralmente colocamos bem mais roupa na mala do que de fato iremos utilizar, seja por precaução ou por falta de experiência. O peso da bagagem é tamanho que mal consegue levantá-la, no entanto, ao longo do filme percebe-se que peso maior está em sua bagagem íntima. Ela leva consigo sensações, lembranças boas e outras nem tanto, remói arrependimentos, revê em sua memória cenas, reavalia-se, ou seja, lida com as escolhas que fez e as consequências decorrentes disso. Sua bagagem maior é sua experiência de vida.

Strayed inicia a trilha querendo desistir a cada passo que dá, mas persiste. A frase escrita na primeira etapa da trilha serve-lhe de incentivo a chegar ao final de sua caminhada. “Se sua coragem sumir, vá além da sua coragem”! Ótima pedida para lançarmos mão diante dos obstáculos. Frase realista por que muitos de nós, diante de adversidades, temos a necessidade de ir além do que achamos poder superar.

Os desafios da caminhada pelo deserto surgem. Está sozinha, necessita vencer tais desafios, mas o prazer em vencê-los degusta igualmente sozinha, sem que isso seja interpretado como ruim, ao contrário, faz parte de seu crescimento. Percebe ao longo da jornada sentir falta de pequenas coisas do dia a dia, mas que fazem grande diferença quando se está privada deles e esse é um questionamento interessante de se fazer. Por que às vezes deixamos que algo aconteça para notar que tais coisas nos fazem falta? Melhor valorizar tudo o que é bom diariamente a deixar para fazê-lo em momentos de necessidade.

Em certa altura do filme, encontra o personagem de nome Frank, que reforça sua necessidade de ir até o final do que havia planejado, pois este comenta sempre desistir quando algum obstáculo aparecia. Mais uma oportunidade para o telespectador sentir proximidade com a história narrada, pois é inevitável que nos lembremos de momentos de persistência ou desistência em nossa própria vida.

Outro aspecto do filme a ser abordado trata da paciência do aprendizado, pois todo novo caminho exige adaptações e boa dose de paciência consigo mesmo. Paciência para aguardar a adaptação física e mental necessária para os novos desafios, para os novos aprendizados, para os novos amigos e até para os novos medos e a nova coragem decorrente destas situações.

Num de muitos encontros que têm, conhece um senhor em um dos alojamentos da trilha e ele se dispõe a ajudá-la a fim de deixar sua mochila mais leve desfazendo-se de objetos que não usa. Em analogia com a vida, é possível perceber que mantemos conosco utensílios que se tornam “bagulhos”, pois não nos servem mais, por vezes insistimos em guardá-los quando na realidade poderia ser útil a outra pessoa, ou ainda os “bagulhos emocionais” que insistimos em manter quando o melhor seria abrir mão deles. Nossa alma estaria mais leve e abriria espaço para novos aprendizados.

Uma das partes mais tocantes do filme no meu ponto de vista é a frase que sua mãe lhe diz: se há uma coisa que eu posso lhe ensinar é como encontrar a sua melhor parte. E, quando encontrar segure-a para o resto da vida. O tipo de frase que devíamos deixar sempre à vista para não esquecer de que o que vale mesmo a pena é o que somos e não o que temos. É encontrar nossa essência e assumi-la.

Ao final do filme percebe-se que Cheryl está totalmente entregue à vida como ela é. Está integrada com a natureza, com o percurso, com ela mesma, não importando mais estar no controle de tudo, mas no controle de si mesma. O filme me fez lembrar a frase de Saramago.

“É preciso sair da ilha para ver a ilha. Não nos vemos se não sairmos de nós”.

Cheryl escolheu fazer a trilha para reencontrar-se. Quais caminhos trilhamos para nos reencontrar?


Adriane Pereira

É por meio da escrita que me relaciono com o mundo externo e o meu mundo interior. Bem vindo ao meu mundo que ao ser compartilhado se torna nosso. Formada em Letras..
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