entreletras...

Sobre o reaprendizado de vida e outras reflexões.

Adriane Pereira

É por meio da escrita que me relaciono com o mundo externo e o meu mundo interior. Bem vindo ao meu mundo que ao ser compartilhado se torna nosso. Formada em Letras.

Verdadeiramente Clarice

Respeito. Palavra tão fundamental em todas as relações humanas o qual inicia a partir do autorrespeito. Nem sempre adotamos esta conduta pessoal, no entanto, conforme aborda Clarice Lispector é essencial para viver. Resta-nos então cumprir esta cláusula acima de tudo.


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...“ Ouça: respeite a você mais do que aos outros, respeite suas exigências, respeite mesmo o que é ruim em você – respeite sobretudo o que você imagina que é ruim em você – pelo amor de Deus, não queria fazer de você uma pessoa perfeita – não copie uma pessoa ideal, copie você mesma – é esse o único meio de viver.”(Moser, Benjamin. Clarice, uma biografia. pág 302. Edição 2013).

Ainda nem cheguei à metade do livro citado, mas aos poucos vou começando a entender Clarice Lispector...Muito aos poucos por que qualquer personalidade é um mundo e a soma de suas experiências. As boas, as más e àquelas que nem se digeriu ainda para definir qual papel desempenhou em nossa vida.

Este trecho me tocou profundamente e só isso já é para mim objeto de autopesquisa, mas este fato é outra análise a ser feita. Contudo, ela aborda tema que acho ser fundamental na vida de qualquer ser humano, o respeito.

Só quem tem autoconfiança suficiente é capaz de falar sobre si de modo tão verdadeiro. Algumas pessoas inseguras de sua autoestima e/ou talvez arrogantes, jamais reconheçam um traço imperfeito em si, pois isso abalaria sua estrutura emocional já frágil. Fato que elas mesmas desconhecem ou têm medo de admitir, mas Clarice é verdadeira inclusive ao falar de suas fragilidades.

Não à toa que cita em outra parte da biografia que gosta de escrever sobre sensações. Entendo-a bem nesta parte. De modo algum a defino somente com o trecho deste livro, já que Clarice é muito, muito mais e muito maior que este pedacinho do seu ser e ainda nem comecei a entender sua extensa obra literária, muito menos seu mundo interior.

Concordo plenamente quando ela cita: “não queira fazer de você uma pessoa perfeita”...E com isso penso que ela não quis dizer não se melhore ou não se aprimore, mas quando cita neste mesmo parágrafo sobre o respeito, engloba inclusive respeito as nossas imperfeições e nossa incapacidade de ser melhor naquele momento, o que não quer dizer impossibilidade em sermos melhores no minuto seguinte.

Respeito engloba a nós mesmos e o outro. Certa feita me disseram: quando você deseja o melhor a todos isso inclui você. Fato! Como é que eu ainda não tinha me dado conta disso? Autorrespeito em primeiro lugar. Querer o melhor para as pessoas não é excluir-se desse bem e acima de tudo não é egoísmo.

Para existir, existir de fato é preciso conhecer-se em pormenores senão só passamos pela vida. E é esse autoconhecimento, esta noção profunda dos limites pessoais, das imperfeições, somadas a nossa genialidade particular e peculiar que nos torna seres diferentes e que se complementam. Não fujamos do que nós somos, mas também não nos acomodemos quando poderíamos ser melhores. E por favor, vamos reconhecer que temos coisas boas, muito boas. O mundo já ressalta o suficiente quando erramos e nem sempre aponta o que temos de melhor. Façamos este favor a nós mesmos e usemos em prol de outras pessoas àquilo que temos de melhor.

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Ainda nesta página do livro, Clarice comenta numa fase da vida ter esquecido de si, por este motivo ela frisa o respeito próprio e que sem ele é impossível viver. Tenho para mim que pode ter sido essa uma das causas de sua melancolia naquele período de sua vida. Mas repito, não estou definindo-a somente por este comentário. Nem tenho conhecimento suficiente ainda para criticar sua obra, me refiro a Clarice enquanto pessoa e a pequena noção que passo a obter sobre a maneira como ela via os acontecimentos e a si mesma. Pretendo conhecer e falar muito mais de Clarice mais a frente.

Conclui-se perante este tema ser saudável fazer concessões, mas a anulação íntima poda nossa existência e torna-se doentio perante nossa realidade íntima. Façamos o possível para sermos felizes diante de nós mesmos!

Não posso terminar este artigo sem antes agradecer Clarice. Obrigada! Falo isso por que ainda esta semana me perguntava não consigo pensar em nada para escrever, Vou escrever qual tema? Quando isso ocorre sempre me pergunto: e agora? Não tenho mais inspiração? Mas quando destaquei este parágrafo e sentei para digitá-lo sem qualquer intenção de escrever tudo me veio à mente. Neste momento lembrei-me da frase que havia lido um dia antes “inspiração existe, mas tem que te encontrar trabalhando”. (Picasso).

Respeito-a muito Clarice. Gratidão!


Adriane Pereira

É por meio da escrita que me relaciono com o mundo externo e o meu mundo interior. Bem vindo ao meu mundo que ao ser compartilhado se torna nosso. Formada em Letras..
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