entrelinhas do contexto

Atrás de palavras escondidas nas entre linhas do horizonte desta Highway...

Biah Triles

Namorada da literatura, amante do saber. Aquela aspirante à escritora que vive em busca de palavras escondidas.

Hollywood na Guerra Fria: a realidade contida em histórias hipotéticas

O cinema quando quer pode ser uma arma tão potente quanto uma bomba na propagação ideológica. E temos o contexto da Guerra Fria como uma das maiores provas disso.


tumblr_lnmp8ktqTy1qhvrl8o1_500.jpg O cinema ao surgir deixou claro para seu público que veio não só com a missão de entretenimento como também para retratar algum tipo de realidade, seja ela de qual cunho for. Pensando neste sentido, o papel do cineasta se torna crucial para que se alcance o objetivo pretendido, que é passar alguma mensagem para o espectador. Um filme tem o poder de persuadir e até fazer pensar sob uma nova perspectiva a respeito de algum assunto. E esse poder pode parecer não muito perceptível, já que alguns acreditam piamente que ideias e personalidades bem fundamentadas permanecem firmes apesar de supostas influências externas. Mas o que não percebem é que às vezes o objetivo que se deseja alcançar está nas estrelinhas e sem perceber pessoas consumiram e continuam a consumir isso até hoje de forma direta ou indireta.

Nesse contexto, engana-se, por exemplo, quem pensa que na Guerra Fria as “persuasões” eram feitas somente com grandes feitos (como a ida do homem a lua, ou o envio cachorrinhos para lá) para mostrar “quem é que manda”. Nessa época, o cinema foi um “tempero” essencial para se alcançar objetivos ideológicos tanto quanto as amostras de poder. Um exemplo disso é o filme “Vinhas da Ira”, produzido na década de 40 pelo diretor John Ford.

Aparentemente se assistirmos a este filme de forma descontraída pode parecer um simples filme que retrata a realidade de uma família rural, no contexto da crise de 29, em busca de melhores condições na qual para alcança-las vão seguindo rumo a “terra prometida” que lhes é oferecida através de um anúncio. Porém, ao decorrer do filme, mais precisamente no final, depois deles terem passado por tantos lugares e em condições precárias, um acampamento comunitário do governo americano os acolhe de forma gentil. E quando me refiro a isso digo que esta parte fica bem explicita, pois o próprio administrador do local faz questão de enfatizar que é algo feito pelo governo e que nele as famílias poderão viver de forma mais digna e ter até lazer (no caso os bailes do final de semana); e tudo parece ser muito bacana a partir daí, como num conto de fadas onde sempre há um final feliz. Cabe então indagar: Porque justo o acampamento do governo americano (e não outro qualquer) é “bacana” com as pessoas? Mesmo que seja dito nas estrelinhas é uma forma de propagação ideológica. vinhas-da-ira-john-ford-henry-fonda-17.jpg

Outra cena do filme que percebemos um posicionamento ideológico, e dessa vez de forma mais explícita ainda (para os mais atentos no contexto histórico) é quando alguns homens desse acampamento estão trabalhando na plantação e no meio de uma conversa que estavam tendo em determinado momento sobre um dos proprietários de terras locais diz a seguinte coisa sobre tal proprietário: “Bem, ele vive constantemente a gritar contra "os malvados dos vermelhos". "Esses vermelhos dos diabos levam o país à ruína", diz ele. "A gente tem de os enxotar daqui, a esses patifes desses vermelhos." E após um deles fazer essa citação, um outro, que parecia não entender muito bem quem eram os tais “vermelhos”, com toda sua ingenuidade pergunta quem eram esses “malvados” a quem ele se referia e a resposta veio certeira com o adjetivo “filhos da mãe” logo no começo para enfatizar ideias negativas com relações aos comunistas.

Após assistir um filme como esse, por mais que pareça não ter nada de tão persuasivo por trás, já que os posicionamentos apresentadas não são muito explícitos, se não visto com um pensamento crítico e reflexivo, poderia ser uma arma de influência para algum espectador desatento, americano ou não, que vivia no contexto da Guerra Fria ao tornar a figura do governo americano como “bonzinho” porque ajudou pessoas; e também no sentido de colocar os comunistas como “vilões” em determinado momento, mesmo que num diálogo do filme a parte. Por esses motivos, percebemos que Hollywood e alguns de seus cineastas, assim como a mídia popular em geral, ocultam o outro lado da moeda a fim de terem benefícios próprios e isso acaba usurpando a escolha daqueles que não possuem muita informação ou ainda não estão muito certos com relação ao seu posicionamento, pois na maioria das vezes tomam como verdade aquilo que é propagado. Num contexto de Guerra, ainda mais ideológica, o cinema pode e acaba então exercendo um poder absurdamente grande sobre as pessoas.

Esta influência cinematográfica não está presente somente nos filmes produzidos durante este período histórico. O filme “A vida é bela”, produzido em 1998, é outro exemplo. Ele mostra de forma romantizada o que ocorreu num campo de concentração italiano e todo o poder fascista que tomava conta do país na época. Até então tudo bem, o problema é o que fica explicitamente perceptível ao final do filme, quando o exército americano aparece como sendo o grande libertador daquelas pessoas que viviam em condições deprimentes. Não só isso, como também a forma romantizada com que isso se dá. Percebíamos ali, até mais claramente do que em “Vinhas da Ira”, o quanto Hollywood pode ter um poder de persuasão enorme. E os cineastas que anseiam por aceitação, farão o “jogo hollywoodiano” para conquistar espaço e prestígios sem hesitar. Então mesmo o diretor desse filme sendo italiano, também acabou por fazer o jogo. slide1.jpg

Quando se aborda a temática sobre a Guerra Fria na escola, aprendemos que ela foi chamada assim por não ter havido confrontos diretos entre as duas grandes potências que lutavam por sua soberania. O que convém percebemos é que a dita “frieza” poderia até haver no mundo quotidiano, entretanto nas telas de cinema e principalmente por baixo dos “panos hollywoodianos”, a situação não estava nada fria. E então percebemos que as historinhas fictícias que assistimos são mais reais e próximas do quotidiano vivido do que imaginávamos.


Biah Triles

Namorada da literatura, amante do saber. Aquela aspirante à escritora que vive em busca de palavras escondidas. .
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