enviesado

Refletindo literatura, cinema e sociedade pelo lado direito e pelo avesso

Fabiana Pedrolo

Fabiana Pedrolo é paranaense, Mestranda em Letras e funcionária pública. Nas horas vagas gosta de ler, observar e analisar. Interessa-se por literatura, cinema e artes no geral.

Babadook e os sentimentos ocultos que nos habitam

Quando pensamos que o mal está do lado de fora, vêm filmes como este para nos mostrar o contrário


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Babadook é um filme classificado como terror, mas para muitos apreciadores do gênero, talvez ele não apresente as características esperadas. O filme, lançado em 2014, mostra a história de uma mãe e seu filho de seis anos de difícil temperamento, Samuel.

Amelia, que mora sozinha com o menino, é a representação clássica de uma mãe sobrecarregada, responsável pelo sustento e educação do filho. Samuel é um menino agitado e notadamente assombrado com aparições e monstros imaginários, que impossibilitam Amelia de ter sequer uma noite de sono tranquila.

Visivelmente cansada da primeira a ultima cena do filme, a protagonista parece incorporar ao longo de toda a trama o seu fardo. Seu marido morrera em um acidente automobilístico enquanto a levava ao hospital para o parto de Samuel e, justamente em função disto, Amelia parece carregar um misto de carinho e mágoa pelo filho.

Mesmo que inconscientemente, ela acaba por culpá-lo pela morte do pai e isto interfere na relação dela com ele e dele com os demais membros da família. Samuel parece ser insuportável pela tia e prima, o que faz com que Amelia tenha que conviver com o menino de forma bastante isolada e triste.

Babadook aparece na trama em um livro de histórias infantis. Samuel, num de seus rompantes de histeria em função de monstros imaginários pede à mãe que leia para ele durante a noite e o livro escolhido é este. Babadook é composto por gravuras horrendas e frases soltas que acabam por assustar ainda mais o menino e a alterar profundamente o cotidiano de ambos. Assombrados pelo espírito de Babadook, mãe e filho passam a viver de forma cada vez mais recolhida, Amelia mostra-se cada vez mais esgotada com a situação e Samuel mais perturbado.

Quem espera cenas muito chocantes de medo e horror pode se frustrar com o filme. Babadook diz respeito aos aspectos psicológicos da personagem e nada tem a ver com assombrações ou monstros. O vulto que aparece no filme nada mais é que a representação dos sentimentos de Amelia em relação ao filho, especificamente. O Babadook de quem ela tanto foge está dentro dela em meio às frustrações de sua vida fracassada, à saudade do marido e ao fardo da maternidade.

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Amelia é consumida por Babadook em diversas passagens do filme e é possível verificar a mudança de fisionomia da atriz quando ele está presente. Ainda assim, o espectador parece não culpá-la por sua situação, ao contrário, se compadece dela, a entende, tamanha a densidade da interpretação da atriz australiana, Essie Davis, e tamanha a angústia sentida por Amelia.

Para ressaltar sua consistência, o filme não termina com o fim de Babadook. O “monstro interior” de Amelia é apenas escondido, domesticado e alimentado diariamente. Assim como os sentimentos ocultos que nos habitam, Babadook pode estar em todos nós e nunca terá fim, nos cabe apenas delimitar a sua intensidade e área de atuação.


Fabiana Pedrolo

Fabiana Pedrolo é paranaense, Mestranda em Letras e funcionária pública. Nas horas vagas gosta de ler, observar e analisar. Interessa-se por literatura, cinema e artes no geral. .
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