enviesado

Refletindo literatura, cinema e sociedade pelo lado direito e pelo avesso

Fabiana Pedrolo

Fabiana Pedrolo é paranaense, Mestranda em Letras e funcionária pública. Nas horas vagas gosta de ler, observar e analisar. Interessa-se por literatura, cinema e artes no geral.

Brilho eterno de uma mente sem lembranças e o medo de recordar

Se recordar é viver, isto bem explica a ânsia que temos de esquecer momentos difíceis da vida, neste filme, entretanto, esquecer não parece resolver o passado nem alterar o futuro


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O filme Brilho eterno de uma mente sem lembranças aborda uma vontade que acomete a maioria das pessoas que possuem memórias que, sendo demasiado doloridas mereceriam ser apagadas. Como enredo, Joel (Jim Carrey) e Clementine (Kate Winslet) formam um casal que, mediante as adversidades da vida, resolvem deletar um ao outro de suas mentes. Baseado numa ficção científica ainda longe de nossa realidade, o filme explora de forma cômica, porém sensível, as agruras de se querer apagar um passado malogrado.

Mas nos serviria uma alternativa destas num mundo real? Até que ponto a anulação de uma memória infeliz nos impediria de seguir os mesmos caminhos tortuosos? Seríamos os mesmos se não acumulássemos ao longo do tempo um cabedal de experiências que acabam por moldar a nossa identidade? Partindo deste pressuposto a ideia do filme já não parece tão atrativa, posto que, só somos quem somos porque passamos pelo que passamos.

Entretanto, o fato de podermos nos livrar daquilo que nos causa mal pareceria a possibilidade de tornar a vida menos pesada, a esperança mais presente e as mágoas oriundas das lembranças, algo praticamente inexistente. E então, o que é mais válido? Recordar, sofrer e aprender ou apagar, renovar e sustentar a mente isenta das cicatrizes do caminho?

Confesso que este filme me fez refletir sobre o assunto, passei a questionar e entender o porquê das memórias terem um peso tão crucial na nossa vida. Elas estão ligadas às músicas, aos cheiros, e até mesmo ao clima que nos remetem a uma época saudosa ou deprimente, a qual gostaríamos que nem tivesse existido. Elas conseguem trazer de volta sentimentos adormecidos, inquietações e acabam fazendo com que nos alegremos outra vez ou com que soframos duplamente. É o preço de lembrar.

Refletindo, percebi que até mesmo lembranças ruins têm suas funções em nossa vida. Elas nos empurram para frente, nos redirecionam, nos dão experiências que somente elas poderiam nos dar. Doloridas ou não, elas aconteceram e se forem simplesmente eliminadas perderão seu caráter didático, fortalecedor. Afinal de contas, como diria o filósofo francês Jean-Paul Sartre: “Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você.”


Fabiana Pedrolo

Fabiana Pedrolo é paranaense, Mestranda em Letras e funcionária pública. Nas horas vagas gosta de ler, observar e analisar. Interessa-se por literatura, cinema e artes no geral. .
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