epifania

Súbito entendimento ou compreensão de que os livros são parte do Ser

Gisele Bellucci

Cada livro conta uma história e cada história contém a magia certa para encantar as nossas vidas

Depois daquela viagem

Ser jovem nos dias de hoje parece ser bem mais fácil, não é mesmo? Mas não é bem assim. As dúvidas, medos, preocupações estão em qualquer idade, em qualquer ser humano, em qualquer época.


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O livro de Valéria Piassa Polizzi escrito em 1997, foi publicado pela Editora Ática, foi um livro que marcou a minha vida. Em 1989 pouco se sabia sobre a AIDS que era conhecida como “doença de gays”. Através de uma linguagem simples e clara, ela explica como foi infectada pela doença e como era viver sendo HIV positivo. Eu lembro que no começo, aqui no Brasil, sabíamos apenas que era uma doença contagiosa e assim, foi criado o preconceito de não podermos encostar em pessoas infectadas, não podemos beijar, beber do mesmo copo, se sangrar então, corra! Foi uma época triste e muito difícil onde muitas pessoas perderam seus empregos, amigos e até familiares. Todos tinham medo de ‘pegar’ AIDS, porque sabíamos que a pessoa iria fatalmente morrer em pouco tempo. Se a pessoa emagrecesse muito ou tivesse manchas roxas na pele, tínhamos medo que era um aidético, e alguns aidéticos por sua vez, não falavam que eram portadores da doença por puro medo da reação das pessoas. Hoje em dia, sabemos que as pessoas contaminadas sobrevivem muito bem com a doença se compararmos quando ela surgiu.

Quando eu li o livro, já tinha tido minha primeira relação sexual e não tinha filhos, por isso me lembro bem que só pensei em mim, em como teria que usar camisinha em qualquer relacionamento mais íntimo para continuar saudável. Hoje, tenho uma filha pré adolescente, gostaria muito que ela lesse esse livro e entendesse, como é difícil a ‘primeira transa’ na cabeça de todo e qualquer adolescente. Como as dúvidas, medos, receios, preocupações não eram coisas apenas da minha época, mas da dela também. Como foi publicado pela editora Ática, muitas escolas adotaram o livro, o que atingiu o objetivo da autora de divulgar para cada vez mais jovens a se preocuparem com o início da vida sexual ativa.

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Minha preocupação gira em torno do que os adolescentes (e mesmo adultos) acreditam que isso acontece somente em universos distantes do que eles vivem, a vida dos jovens adultos é cheia de coragem e entusiasmo onde parece que nada de ruim pode acontecer a eles, se sentem imortais, mas não é bem assim. Era assim na minha época e é assim hoje em dia.

A gravidez na adolescência também é marcada por um ‘conhecimento’ que todos têm mas que não usam. “Eu sei muito bem como se engravida mas não quero usar camisinha porque é chato”. Chato é ter um filho quando se é jovem demais para saber como criar uma outra vida, chato é ter de abdicar dos seus sonhos e desejos quando a responsabilidade pela outra vida torna-se imprescindível. Mas quando é exatamente isso que você quer, ok, sim conheço mulheres que quiseram engravidar na adolescência, esse era o sonho delas, então foram em frente, não tenho nada contra isso.

O meu ‘contra’ aqui é sobre a ignorância, sobre o ‘ouvi dizer que’, se informe, questione, vivemos em uma democracia, pelo menos por enquanto, vá ao médico. Seja aberto com seus pais, ouça o que eles tem a dizer, se não concordar com eles, tudo bem, mas acredite que também já fomos jovens como vocês e tudo o que falamos, é para o bem de vocês. Se não explicarmos, a vida explicará do jeito dela, e não será tão bacana como nós somos. Aos pais também um alerta: vejam seus filhos! Olhem para eles, pergunte se estão bem, ouçam o que eles têm a dizer. Muitas vezes, por não querermos perder o ‘respeito’ de pais, falamos como se tivéssemos nascidos velhos, esquecemos que já tivemos a idade deles. E se um pai tem uma filha então, tenta protegê-la de tudo e de todos que podem vir a fazer mal a ela. E sabemos que não é bem assim. Sabemos que nossos filhos não são nossos, como diz o poeta “são emprestados”. Eles têm a vida deles, eles vivem e muito bem sem nós ou sem nossos sermões. Apenas queremos que vivam suas vidas da melhor forma possível, e não da forma que achamos que eles devam viver. A experiência da Valéria, como a história de todo escritor, tem sempre algo a nos ensinar, basta estarmos atentos para ouvi-las.


Gisele Bellucci

Cada livro conta uma história e cada história contém a magia certa para encantar as nossas vidas.
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