epifania

Súbito entendimento ou compreensão de que os livros são parte do Ser

Gisele Bellucci

Cada livro conta uma história e cada história contém a magia certa para encantar as nossas vidas

O fantástico mundo de L. Frank Baum

O clássico "O Mágico de Oz" continua, mesmo nos dias de hoje, a nos dar a fantasia de que precisamos para seguir em nosso dia-a-dia. Será que além de algum arco-íris terá algo especial para você ou para mim? Se acreditarmos, com certeza terá. Eu acredito.


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Desde pequena eu já gostava, amava o filme O Mágico de Oz, mas foi recentemente que me interessei para ler o livro e descobrir algumas coisas bem interessantes sobre ele que quero dividir com vocês. Se você nunca assistiu ao filme, de 1939, ou nunca leu o livro, escrito em 1900 por L. Frank Baum, sugiro que pare este artigo e vá fazer isso antes de ler esse texto, que não pude evitar, sim, contém spoilers.

A primeira diferença que percebi e li, de acordo com o livro que tenho, uma edição ilustrada e comentada, lançada pela editora Zahar em 2013, é que a nossa Dorothy, tem aparentemente 6 anos, de acordo com as ilustrações de W. W. Denslow. No filme, a atriz Judy Garland, tinha 17 anos e, interpretava uma menina de 14 ou 15 anos, ou seja, a Dorothy original do livro, era bem mais nova. Porque era uma história para crianças, onde o autor escreveu para os seus filhos. A outra diferença é que cada “reino”, “país” como é descrito no livro é descrito com uma cor predominante. Os países em volta são de cores primárias como azul, vermelho e amarelo, mais ao centro, como a Cidade das Esmeraldas, são verdes, obviamente unindo as cores primárias azul e amarelo para obter essa terceira cor. Por falar em cor, os sapatos de Dorothy no livro são prata e se tornaram sapatos de rubi na adaptação para o filme apenas para dar contraste em relação aos tijolos amarelos, filmados em technicolor.

Mais uma diferença é que a parte inicial em sépia no filme, não existe no livro. Aquilo simplesmente não acontece. E também que os tios de Dorothy, tio Henry e tia Em, tenham sidos inspirados em seus sogros Henry e Matilda, que costumava assinar seu nome apenas com a inicial “M”. Outra coisa interessante no livro é que a primeira bruxa boa com que Dorothy encontra, é com a bruxa Boa do Norte, que no livro não tem nome, mas no filme, Dorothy se depara de cara com Glinda, a bruxa boa do Sul. Então seriam no total quatro bruxas, duas delas boas, a do norte e a do sul, e duas más, do leste e do oeste, parece que no filme isso não fica bem claro na rosa dos ventos.

Também passam por vários países, cidades, reinos ou simplesmente lugares diferentes, o que não acontece no filme, Dorothy vai encontrando seus amigos e companheiros de viagem: o Espantalho, o Lenhador de Lata (sim, e não apenas Homem de Lata) e o Leão covarde. Apesar de pedirem e insistirem para que Frank Baum alterasse o termo “ciclone” para o termo mais específico “tornado”, que realmente acontecia na região, isso nunca foi mexido, mesmo no filme.

A jornada de Dorothy no livro parece ser mais ofegante, nos deixando mais apreensivos quanto a atingir o objetivo de retornar ao Kansas ou não. No filme parece que fica mais claro e nos deixa mais tranquilos, mas não sei se é uma impressão minha, por ter visto o filme antes de ler o livro. O Lenhador de Lata foi de fato humano antes de ser transformado em lata por uma maldição da bruxa, e seu grande desejo de voltar a ter um coração, era porque já tivera alguém que amava profundamente e seu desejo, era poder sentir aquilo de novo. O campo das papoulas no livro tem a ver com o ópio que é retirado dessa planta mesmo, e não apenas com uma fragrância que o faz adormecer. A Cidade das Esmeraldas, do grande e magnífico Mágico de Oz, já dá pinta de ser uma farsa no livro, porque todos os seus habitantes devem usar um óculos com lentes verdes e não podem tirá-los nunca, pois estes são trancados em seus rostos e somente o guarda da cidade tem a chave para abrir e tirá-los. Ou seja, você enxerga tudo verde, roupas, cabelos, paredes, tudo.

Uma coisa que me surpreendeu no livro foi que a bruxa má do Oeste, irmã da bruxa má do leste que morreu soterrada pela casa de Dorothy, não era tão má assim, ela era até mesmo medrosa. Mas tinha olhos que enxergavam longe, por isso sabia de todos os movimentos de Dorothy e seus amigos. Os macacos alados também não eram tão terríveis e assustadores assim, eles eram apenas escravos de uma maldição e, por causa dela, teriam de atender três pedidos de quem usasse um gorro de ouro e os chamasse usando as palavras mágicas.

Depois de descobrirem que o Mágico de Oz não passava de uma grande farsa, porque ele explica que chegou ali por um balão sem rumo, na verdade ele é de Omaha, próximo ao Kansas, este decide construir um balão e viajar de volta com Dorothy e Totó, mas ela não consegue pegar o balão por estar procurando Totó que está correndo atrás de alguma borboleta, o mágico embarca sozinho nesta viagem de volta, deixando Dorothy e seus amigos na Cidade das Esmeraldas. As árvores que lutam é outro capítulo bem diferente do filme, que aparecem quase no início, mas no livro aparecem no final, e é uma parte que eles devem passar para conseguirem encontrar Glinda.

O delicado país de louça que aparece no livro, só nos foi apresentado no filme “Oz, Mágico e Poderoso” de 2013. Talvez porque o autor, Baum, tenha escrito doze continuações das aventuras em Oz. É dito também que os companheiros de jornada de Dorothy, tenham sido inspirados nos três reinos: vegetal (espantalho), mineral (lenhador de lata) e animal (leão). E cada um deles fica com um reino todinho para si quando Dorothy consegue voltar para o Kansas.

Quando encontram com Glinda, a bruxa boa do Sul, ela acaba por revelar que o poder de voltar para o Kansas sempre esteve com Dorothy, que basta bater o calcanhar dos sapatos de prata três vezes e dizer para onde quer ir, que ele atenderá o pedido. Mas isso também acontece no filme e é perceptível que, o que eles mais desejavam, mais queriam que o Mágico lhes desse, já estava, na verdade, dentro de cada um deles. O Espantalho sempre teve ótimo raciocínio e achava que precisava de um cérebro; o Lenhador de Lata prestava atenção para não pisar em nenhum ser vivo, porque senão chorava tanto que enferrujava sua lataria, queria um coração; o Leão enfrentou situações difíceis somente para salvar sua amiga Dorothy, e medo, todos nós sentimos, este queria coragem. Mas a parte interessante do livro é o amadurecimento da menina Dorothy, porque se não tivesse passado por todos os obstáculos que passou, não teria voltado para casa, como também não teria ajudado seus amigos a conseguirem o que tanto queriam. Mas uma coisa Frank Baum deixa claro neste livro: Oz era inquestionavelmente um lugar real, no qual Dorothy voltaria nos livros seguintes da série, e não apenas um sonho, como nos mostra o filme.

Moral da história: leia o livro e veja o filme, você não tem nada a perder com isso. Ambos são maravilhosos. Apenas acredito que a adaptação cinematográfica, tenha sido estruturada nas doze etapas da Jornada do Herói, de Joe Campbell, para ser melhor comercializada e aceita, mas continuo amando os dois mesmo assim.


Gisele Bellucci

Cada livro conta uma história e cada história contém a magia certa para encantar as nossas vidas.
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