epifania

Súbito entendimento ou compreensão de que os livros são parte do Ser

Gisele Bellucci

Cada livro conta uma história e cada história contém a magia certa para encantar as nossas vidas

O apelo de Carl Sagan

“Você talvez seja jovem. É bem possível que tenha uma longa vida pela frente. Mas você também sabe que a vida não dura para sempre. De que maneira decidirá viver sua primeira e única viagem ao planeta Terra? Que perguntas fará e que respostas dará?” – O livro das religiões


Terminei de ler o livro “O mundo assombrado pelos demônios” do Carl Sagan e confesso que tive uma visão reveladora (e quase apocalíptica) do mundo. Comecei o livro de um jeito e terminei de outro, completamente diferente. Quem começou a ler o livro foi uma pessoa crente, uma pessoa que acreditava em auto-ajuda, cartomantes, médiuns, feitiços, macumbas, projeção astral, astrologia, círculos nas plantações, abduções alienígenas, triângulo das Bermudas, canalização, bruxaria e religiões. Quem terminou de ler o livro foi uma pessoa cética e atéia. Mas com um ceticismo bom, daqueles que não ficam brigando por qualquer motivo. Um ceticismo que faz você parar de procurar por algo que não existe e te deixa completamente livre para viver a sua vida.

sagan.jpg

Confesso que me irritei um pouco com isso porque me senti enganada, enganada por quase quarenta anos (que é a idade que eu tenho e o tempo que levei procurando em muitos lugares aonde estaria a verdade). Mas depois concluí que eu não poderia me irritar comigo mesma, porque se eu tivesse lido antes esse livro, quem sabe não tivesse entendido ou acreditado, talvez não fosse o momento tão certo como foi agora. Juntamente com a leitura do livro, fiz um curso de filosofia com o professor Clóvis de Barros Filho, e os dois me levaram a mesma conclusão. Carl Sagan foi um cientista, astrônomo, astrofísico, cosmólogo, escritor e um belíssimo divulgador científico norte-americano falecido em 1996. Mas como aqueles que escrevem sempre deixam marcas apesar de já terem partido, confesso que o Sr. Sagan abriu minha mente como eu jamais pensei que pudesse abrí-la. Apesar de continuar tolerante com todas as pessoas, acredito que perdemos tempo de vida ao aceitar que a pseudo-ciência seja a nossa verdade. Perdemos tempo em procurar essa verdade e nos esquecermos de viver.

sagan2.jpg

No livro ele explica de forma simples o que é o pensamento científico, qual o método, como chegamos onde estamos, a evolução do homem, as teorias, os experimentos, os grandes gênios da humanidade, pessoas que realmente criaram coisas para ajudar a humanidade. Conta também do lado não tão bom disso tudo, onde se encontram as armas nucleares e a bomba de hidrogênio, por exemplo. Mostra como estamos criando nossos filhos, dando-lhes apenas migalhas de tudo o que possam vir a saber, se os deixarmos livres para investigar e tirarem suas próprias conclusões. Em vez disso, incurtirmos na cabeça dos jovens que existe algo muito maior do que eles e que se essa vida não é boa, após a morte será melhor. Mas não damos garantias que isso seja veradeiro. Mas quero deixar claro que não estou aqui defendo ou ofendendo as religiões ou crenças que cada um possa ter em suas vidas. Quero apenas tentar transmitir o conselho de Carl Sagan para que a humanidade, não importando qual a sua opção espiritual, se concentre mais na vida em si do que em especulações. As religiões sempre foram usadas para “garantir” a ordem e a obediência de um povo, de uma nação, mas não é por isso que devemos julgar quem não acredita nelas, quem é livre dessas culpas.

sagan3.jpg

Outro apelo explícito de Sagan é o que estamos ensinando aos nossos filhos com o conteúdo da TV em nossos dias? Analise com calma, não tenha pressa, mas pense bem. Tanto na TV aberta quanto na paga o que mais se vê são programas sobre abduções alienígenas, assombrações em edifícios, desaparecimento de pessoas de forma paranormal, e tudo isso apenas mostrado para chamar a atenção, nada provado cientificamente, demonstrado com o respeito que merecemos. Onde queremos chegar agindo dessa forma? Já queimamos bruxas, já condenamos a morte por pedradas, enforcamentos, decaptação de cabeças, crucificamos, e tudo isso sem necessitarmos de prova alguma de que essas pessoas poderiam ser culpadas de algo. Tudo isso também já ocorreu antes da Santa Inquisição, pois existiam os “sacrifícios” aos deuses, porque senão, eles ficariam tão bravos conosco que um vulcão poderia entrar em erupção. Mas era o momento do vulcão se tornar ativo novamente, com ou sem a nossa interferência. Por quê o ser humano acredita que é uma forma de vida mais especial que todas as demais? Porque pensamos? Seria essa a nossa resposta para toda a calamidade que criamos? Confesso outra coisa depois de ler esse livro: comecei a dar maior importância à minha vida, tanto quanto a qualquer outra forma de vida existente. Se não existe vida após a morte, se não existe alma, se não existe paraíso ou vida eterna, então eu chego a conclusão de que me resta muito pouco tempo para fazer o que eu realmente quero com a minha vida. Se durante quase toda a minha vida eu acreditei em alguém que cuidava de tudo, alguém que criou tudo, alguém que me deixaria ver meu pai novamente, definitivamente não existe, o que então eu estou esperando para viver plenamente? Somos todos primos, temos nosso DNA quase 100% igual ao do chimpanzé, somos mais uma forma de vida, entre muitas, mas nós pensamos, conseguimos ter raciocínio. Isso nos coloca em um lugar onde muitos de nós não podem estar. Somos responsáveis pela sobrevivência da raça humana. Podemos agir diferente e termos a consciência de cuidar melhor da nossa casa, do nosso planeta. Que tenhamos mais pensamento crítico e método científico para a nossa existência. E aqui vai um conselho meu: se você ainda não leu o livro “O mundo assombrado pelos demônios”, faça um favor a você mesmo e leia, mas só se tiver coragem.

sagan4.jpg


Gisele Bellucci

Cada livro conta uma história e cada história contém a magia certa para encantar as nossas vidas.
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/literatura// @obvious, @obvioushp //Gisele Bellucci