epílogo

sobre mídia, sobre comportamento, sobre vida

Thais Moraes

Apaixonada, minimalista e analítica. Comunicóloga, Coach e Marketing Planner, tem a reflexão crítica como motivador cotidiano.

O pequeno que carrega o peso

Sobre como a queda da imprensa regional tem afetado a grande mídia, e o país inteiro


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Um fluxo de informação adequado segue a seguinte linha: primeiro, as pessoas precisam saber o que acontece no entorno onde moram, depois sobre a região da cidade em que vivem e, por último, notícias sobre o país. E é assim mesmo que funciona, mesmo que você estranhe a pensar de primeiro momento. Conversando com senhores e senhoras que vivenciaram a ditadura militar em suas juventudes, nas cidades minúsculas aqui do interior paulista, ouvi discursos do tipo “a gente não tinha medo, porque não sabíamos exatamente o que estava acontecendo ‘do lado de fora’”. “Do lado de fora”, nas cidades, nos centros.

A maior ferramenta usada para que haja um fluxo de informações, o jornalismo, é estruturado de uma maneira parecida. Ouvi de outros pesquisadores da área da comunicação que os pequenos são os pilares dos grandes, e em dois ângulos possíveis. Vou explicar: a grande imprensa, os monopólios, os gigantes do jornalismo precisam (sim, precisam no sentido de depender) das informações que só os jornais pequenos, como os da sua cidade, podem fornecer. Eles ficam caçando feito cães farejadores por notícias que valham a pena e, com uma pinça, escolhem o que todo o Brasil vai ouvir, assistir e ler ao mesmo tempo. Sem os pequenos, como eles saberiam das notícias?

Vendo de outro ângulo, os grandes precisam que os pequenos façam seu papel de informar e educar o cidadão de perto para que eles fiquem preparados para recepcionar as notícias “de grande porte”, como de política, economia e conflitos internacionais. Sem seus pilares, a grande mídia perde o equilíbrio, e é exatamente isso que estamos vivenciando hoje.

Na última década, milhares de jornais, revistas e emissoras de rádio de cidades pequenas fecharam as portas. Alegam que as pessoas não se interessam mais pelas notícias “da gente”. De repente, as pessoas também perderam o interesse nos veículos grandes. Cada vez menos exemplares vendidos e demissões em massa como consequência.

“O brasileiro precisa praticar a economia doméstica”, dizem os especialistas. “Os brasileiros precisam aprender a votar, a pesquisar, a usar as ferramentas disponíveis pelo governo” e bla bla bla. Mas como saber de tudo isso, se não nos importamos nem com o comportamento dos vereadores das nossas cidades? Se não nos preocupamos nem com a merenda que nossos filhos comem nas escolas? Se não temos incentivo nem pra participar do Tribuna Livre da câmara?

A falta de interesse da população pode ter tido início na educação que é dada nas escolas, que afetou os jornais pequenos, que afetou a grande mídia, que afetou milhares de profissionais da comunicação que perderam seus empregos, que afetou a qualidade do conteúdo que ainda é transmitido, que afeta o dia a dia do cidadão, que afeta a economia, a política, a educação, a saúde... É um efeito dominó. Se não houver uma mudança de postura, os desmoronamentos que estamos vivendo hoje serão apenas indícios de uma avalanche muito maior.


Thais Moraes

Apaixonada, minimalista e analítica. Comunicóloga, Coach e Marketing Planner, tem a reflexão crítica como motivador cotidiano..
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