Episódica

Cinema, literatura e o amor da palavra.

Grégor Marcondes

Formado em Direito, advogado, gosta de literatura, cinema e cultura em geral.

A fonte da vida e o nosso medo do fim.

Percebemos nela que toda vida passa a ser plena e completa quando nos libertamos do medo da morte, pois, ao negar que tudo tem um caminho lógico de começo meio e fim e que, queiramos ou não, um dia "tudo que é sólido tende a se desmanchar no ar", apenas perpetuamos nosso sofrimento.


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Darren Aronofsky é seguramente um dos diretores mais bem conceituados da atualidade. Antes mesmo de atingir seu ápice com o “Cisne Negro”, Aronofsky já tinha conseguido arregimentar uma legião de fãs do cinema cult com “Réquiem Para um Sonho” e o enigmático “PI”. Porém, não obstante todo mérito reconhecido por tais filmes, há na filmografia de Darren Aronofsky um filme que reputo dos melhores de sua carreira, mas que não galgou o sucesso que lhe era devido. Falo do injustiçado “A Fonte Da Vida” lançado em 2006. Filme esse que conta com o “eterno” Wolverine - Hugh Jackman e a lindíssima Rachel Weisz como protagonistas. A falta de reconhecimento do filme talvez tenha explicação em sua complexidade. Sim, esse é um daqueles filmes difíceis de entender e com múltiplas interpretações. Uma das coisas que deixa desde logo o filme complicado é o fato de se passar em três épocas distintas, com personagens diferentes, porém interpretado pelos mesmos atores. Explico: Primeiramente nos deparamos com o navegador/explorador espanhol Tomas Creo, que parte para “O Novo Mundo” em uma busca desesperada pela lendária árvore da vida. Concomitantemente, somos apresentados para o cientista Tommy Creo, que também esta em uma busca pela vida, já que tenta achar a cura para sua esposa Izzi Creo, qual padece de um câncer terminal. Por fim, uma terceira história tenta unir as duas. Um astronauta do Século XXVI parece encontrar as respostas para algumas questões existenciais (essa terceira história não será objeto de analise aqui). 2006 The Fountain 046.jpg Dentro dessa teia de tramas há um pano de fundo em comum e que mostra ser o grande tema do filme: A morte. Quando percebemos esse elo nas histórias, facilmente notamos que o filme trata de maneira peculiar e espetacular o ciclo inevitável que percorre toda nossa existência, demonstrando que tudo possui um começo, um caminho e um inevitável final. Desde as gigantes estrelas que o astronauta do filme se depara, até uma pequena flor que nasce bela e termina por murchar. De todos os personagens o que mais se destaca é o pesquisador Tommy Creo. Como já dito, esse busca encontrar a cura para o câncer e consequentemente, salvar a vida de sua esposa. Nele vemos nitidamente a inconformidade que esse carrega em relação à morte. E assim como na maioria de nós, o medo do cientista não é o da própria morte, mas da dos outros. Sim, o maior medo que temos da morte não é o da nossa, mas a daqueles que mantém com nós uma relação de afeto, vez que essa traz consigo um emaranhado de sentimentos pesados, entre eles a saudade e o medo da solidão. Essa inconformidade faz com que o Dr. Creo despenda horas e noites não dormidas em seu estudo. E é justamente essa obsessão do cientista que acaba por "sequestra-lo" de sua própria vida e existência. Ao contrário dele, sua esposa Izzi parece aceitar mais que naturalmente a morte inevitável. Percebemos isso quando ela diz para o marido, após sofrer uma grave convulsão, que ela “não tinha mais qualquer medo” e “sentia-se em paz e completa”. images (2).jpg

Notamos com isso que ao compreender a morte, Izzi compreende principalmente a vida. Ao aceita-la, passa a viver de forma plena, sem angústia ou magoa. E é justamente isso que ela quer passar ao marido, pois esse “já não vive mais” devido sua cegueira obsessiva. Essa consciência libertadora de Izzi sobre a morte é um dos grandes trunfos que o filme traz. Percebemos nela que toda vida passa a ser plena e completa quando nos libertamos do medo da morte, pois, ao negar que tudo tem um caminho lógico de começo meio e fim e que, queiramos ou não, um dia "tudo que é sólido tende a se desmanchar no ar", apenas perpetuamos nosso sofrimento. Essa verdade faz também com que Izzi queira salvar seu marido de sua “fuga da realidade”. Percebemos inclusive, em diversas partes do filme que o cientista deixa de passar momentos importantes com a esposa devido o propósito de tentar salva-la. Porém, o que ela queria era justamente poder passar mais tempo com ele, quando, por exemplo, pede para esse acompanha-la na neve.hugh-jackman-the-fountain-23.jpg

Preocupada com isso, Izzi resolve então tentar “libertar” seu marido. Para tanto, ela começa a escrever um livro cuja história tem como pano de fundo a busca desenfreada de um conquistador espanhol pela chamada “árvore da vida”. No livro, a Espanha arde em chamas com a inquisição e a personagem rainha Isabel esta ameaçada por um inquisidor, que a acusa de ter ideias hereges, pois essa tenta achar a fonte da eternidade. Dentro desse cenário, o conquistador Creo, que nutri um grande amor pela rainha, é enviado para a América Central (Guatemala) em busca de uma pirâmide maia que esconderia a “árvore da vida”, cujo caule supostamente seria capaz de dar vida eterna para aquele que dele bebesse. A jogada mais genial de Izzi é que ela deixa o último capitulo do livro para o marido escrever. Assim, com uma história inacabada sobre vida, morte e renascimento, ela imagina que possa libertar definitivamente o marido de seus medos e que a partir daí esse possa “renascer“ mais consciente. Assim, aproveitar a efemeridade da vida em seus momentos mais singulares, talvez seja um dos maiores legados que ela quer deixar ao seu marido que é tão preso a morte. Em um mundo deveras inconstante e de eterna impermanência, saber valorizar certos instantes e sentimentos acaba sendo a chave para desfrutarmos da felicidade, tão rara nos dias movimentados de hoje. Por isso, aceitar que nossa vida é um ciclo, que nada é estanque, funciona como um bálsamo para a alma, libertando-a de todo medo e frustração. E nisso não estamos apenas falando da “morte final”, mas também das várias mortes que passamos em vida. Morte de um ciclo, de um relacionamento, de um emprego ou de uma fase. Mortes que temos que nos deparar constantemente, afinal, toda mudança traz em si uma morte. Mas nisso também há vida, renascimento, pois só se pode ter uma nova vida depois que a antiga morre. Talvez seja isso que um “shaman” maia queira dizer logo do início do filme quando fala que a morte é o caminho para o sublime. Para alcançar nosso sublime muitas vezes precisamos morrer, por mais doloroso que isso seja, pois terminar um ciclo nunca é fácil.

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Grégor Marcondes

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