Episódica

Cinema, literatura e o amor da palavra.

Grégor Marcondes

Formado em Direito, advogado, gosta de literatura, cinema e cultura em geral.

Psi: minha vida como nunca vi

"Todos nós carregamos na bagagem da existência uma vasta carga de singularidade, mas também de banalidade e identificar isso no outro é o grande mérito do personagem principal".


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A série brasileira Psi, produção original do canal HBO, tem tido a dura missão de explorar o sombrio e empedernido campo da mente humana em suas mais variadas complexidades. Referida obra baseia-se nos livros do psicanalista e dramaturgo Contardo Calligaris, em especial nos livros "Conto de Amor" e "A Mulher de Vermelho e Branco", que dão vida e contornos ao personagem principal do seriado, Dr. Carlo Antonini.

A priori, podemos pensar que esse é mais um daqueles seriados de dramas médicos que gostam de ensinar sobre doenças desconhecidas e que geralmente são descoberta nos últimos minutos do episódio. De modo diverso, Psi nos mostra traumas cotidianos e muitas vezes banais que, todavia, acabam revelando mais sobre nós do que sobre os personagens em si. É praticamente impossível não se identificar com algum caso ou drama particular retratado na série. Desde a Grécia Antiga o filósofo Platão já trabalhava com a ideia de que conhecemos a nós mesmos a partir do momento que passamos a conhecer o mundo. Ou seja, o mundo funciona como um espelho para sabermos quem somos, do que gostamos e o que queremos. No caso da série, esse "mundo" que reflete quem somos é justamente as outras pessoas, ou melhor, as outras vidas ali expostas que muito têm para nos ensinar. E é por meio desse espelho que o próprio personagem principal identifica seus traumas e demônios interiores. Ao final dos episódios é comum aqueles mais atentos se perguntarem quem descobriu mais de quem, o Dr. Antonini ou seus pacientes?

Por falar no personagem principal, esse protagoniza no final da temporada uma das cenas que mais implicações reflexivas trouxeram para mim. Trata-se da breve cena em que esse, perturbado por conflitos internos de ordem existencial, resolve se autoanalisar. Para isso, deita no próprio divã que atende seus pacientes e começa a desabafar consigo mesmo. O mais marcante desse fato é justamente o paradoxo de sujeitos que esse acaba revelando ao público. Nele vemos um Dr. Carlo Antonini firme, racional e calculista. Que analisa as emoções e medo de forma neutra e fria. Esse Dr. Carlo Antonini esta representando na figura do psicanalista de si mesmo, sentando na poltrona escutando secamente seu "paciente". Do outro lado, deitado no divã temos um Carlo Antonini mais frágil, sentimental, com medos e emoções não resolvidas que o perturbam.

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Ao analisar esse diálogo entre os dois paradoxos de si, a pergunta que fica é: afinal qual dos dois é o verdadeiro Carlo Antonini?Talvez não seja nenhum e os dois ao mesmo tempo. Esse antagonismo que habita o personagem e que se expõe no episódio final é o mesmo que, de uma forma ou outra, habita a todos. O problema é que nem sempre temos a coragem e consciência necessárias para realizarmos essa viagem introspectiva feita pelo personagem. Confrontar a si mesmo não é uma tarefa fácil. Pelo contrário, muitas vezes é quase um luto. Pouca vezes temos a convicção e a firmeza que se fazem necessárias para ultrapassarmos a linha fronteiriça que divide nossa zona de conforto da dos medos mais recônditos. Deixamos de fazer isso não por desconhecer tais medos. Na maioria das vezes conhecemo-los bem. Na verdade, postergamos referido desafio justamente por não sabermos onde esse nos levará. O que será feito de nós se atravessarmos essa linha?Será que sairemos ilesos de nossos medos?

Tais reflexões mostram a gama de complexidade que habita a mente e vida de todo ser humano. Do mais comum ao mais extraordinário. Afinal, todos nós carregamos na bagagem da existência uma vasta carga de singularidade, mas também de banalidade e identificar isso no outro é o grande mérito do personagem principal. Como diz o próprio Contardo Calligaris "Para ser terapeuta, é preciso ter a capacidade de se surpreender com coisas ordinárias e achar ordinárias as coisas mais surpreendentes". Quando damos conta disso, toda vida passa a ser interessante, por mais comum que possa aparentar ser.

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Grégor Marcondes

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