Episódica

Cinema, literatura e o amor da palavra.

Grégor Marcondes

Formado em Direito, advogado, gosta de literatura, cinema e cultura em geral.

Sete anos no Tibet e a busca pela felicidade

É a partir desse momento que a vida de Heinrich e sua maneira de enxergar o mundo começam a mudar. No começo de sua missão, Harrer é um homem arrogante, confiante de si e extremamente egoísta. Alguém que não sente remorso e não sabe pedir desculpas. Entretanto, o mundo acaba ensinando-o que a vida era muito maior que ele podia imaginar.


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Sete anos no Tibet, vivido e escrito por Heinrich Harrer é considerada uma das mais completas obras sobre a vida e cultura tibetana pré-invasão chinesa de 1950. A obra ganhou uma adaptação cinematográfica em 1996 e seu escritor/personagem foi imortalizado pela interpretação de Brad Pitt. Muito mais que contar parte da história dessa deslumbrante e exótica região, o livro/filme traz consigo grandes reflexões para nossa vida. A obra (que se confunde com a trajetória de vida de seu escritor) nos conta sobre Heinrich Harrer, um alpinista austríaco que é enviado pelo Terceiro Reich Alemão em uma missão cujo principal objetivo é cravar uma bandeira nazista no topo do monte Nanga Parbat, localizado no Himalaia. Harrer, que já era conhecido por seus feitos como grande alpinista e atleta, aceita o encargo, deixando para trás a esposa grávida de quatro meses. Todavia, a viagem de Heinrich acaba sendo muito mais longa e profunda do que esse esperava. Devido a declaração de guerra entre Alemanha e Inglaterra, o alpinista acaba sendo preso pelas autoridades locais, pois a região do Himalaia daquela época fazia parte da Coroa inglesa. Após diversas tentativas fracassadas, Heinrich consegue finalmente fugir do campo de prisioneiros e então começa sua longa viagem até o desconhecido Tibet.

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É a partir desse momento que a vida de Heinrich e sua maneira de enxergar o mundo começam a mudar. No começo de sua missão Harrer é um homem arrogante, confiante de si e extremamente egoísta. Alguém que não sente remorso e não sabe pedir desculpas. Entretanto, o mundo acaba ensinando-o que a vida era muito maior que ele podia imaginar. E é isolado num lugar distante de tudo, rico de belezas naturais, mas ao mesmo tempo inóspito e perigoso que Heinrich se depara com a fraqueza de sua própria existência e começa sua jornada de redenção e autoconhecimento. Essa experiência de Heinrich se encaixa perfeitamente ao dito pelo escritor português José Saramago quando nos alerta que “É necessário sair da ilha para ver a ilha, não nos vemos se não nos saímos de nós”. É justamente no Tibet que o egocêntrico alpinista começa a sair de sua pequena e limitada ilha que habitava e passa a enxergar o mundo em toda sua complexidade e beleza. Após um longo caminho de sofrimento e privações Heinrich finalmente consegue entrar em Lhasa, a cidade proibida tibetana e lar do líder espiritual Dalai Lama. É ali que Heinrich se depara com o estilo de vida simples e caridoso do povo tibetano que o acolhem muito bem. Durante sua estada na cidade proibida acompanhamos a mudança de comportamento do alpinista, que começa a se espelhar na generosidade dos tibetanos para aos poucos também se tornar um homem mais generoso.

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Heinrich percebe que os tibetanos não se importam com o ter e sim com o ser. Uma das cenas mais interessantes é quando ele resolve mostrar para uma costureira local fotos com seus feitos pessoais de quando era alpinista e atleta, mas essa não dá muita atenção, respondendo para ele em seguida que no Tibet “as pessoas admiram o Homem que consegue abandonar seu ego”. E é justamente esse pensamento que começa a permear a vida do alpinista dali para frente. Abandonar seu ego não seria apenas um ato de libertação, mas também de rebeldia contra sua antiga e infeliz vida. Seria a morte e o renascimento de Heinrich como uma pessoa melhor. É interessante notar aqui que Heinrich, pouco a pouco acaba por trilhar um estilo de pensar muito parecido com o de outro personagem que ganhou vida nos cinemas com Brad Pitt, falo de Tyler Durden da obra O Clube da Luta. Uma das maiores “lutas” de Tyler é justamente contra o estilo de vida vazio e sem sentido que levava Heinrich, preocupado apenas com si mesmo e em acumular riquezas matérias e glórias pessoais. As frases de Tyler: “Trabalhamos em empregos que detestamos, para comprar um monte de coisa que não precisamos”, ou então “as coisas que você possui acabam possuindo você” talvez fizessem parte do estilo de vida anterior de Harrer e da de boa parte dos ocidentais que ele conhecia. Ao se confrontar com a cultura de vida simples e caridosa dos tibetanos, que apesar de terem muito pouco eram extremamente felizes, Heinrich começa a questionar em si mesmo quais os caminhos levam o Homem à felicidade e a completa realização. Se analisarmos essa questão, perceberemos que na verdade não há um caminho único ou uma forma geral para a felicidade ou completa realização do ser humano. Ser feliz é algo muito singular e particular e funciona de uma forma diferente para cada um, seja por entre as montanhas isoladas do Tibet ou na correria das grandes metrópoles. Entretanto, não nos damos conta de nossa infelicidade ou fazemos de conta que não, justamente pelo medo que temos em “deixar a ilha”. Essa é a maior virtude de Heinrich, a coragem de abandonar a ilha, de olhar para si pelo lado de fora, de enxergar suas angústias, erros e aflições e não temer ter que abandonar tudo. E é justamente por isso que Sete Anos no Tibet é uma obra fantástica, traz consigo um mundo de reflexão, pois a vida de Heinrich e o caminho de sofrimento e mudanças por esse percorrido muitas vezes confunde-se com o nosso. É tipo de filme que toda mãe deveria passar para seu filho assistir. Talvez, ele ache tudo muito chato ou sem sentido. Ou talvez, assim como Heinrich Harrer, ele perceba que a vida pode ser ao mesmo tempo simples e maravilhosa.


Grégor Marcondes

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