Tainara Gomes

Sou o que costumo classificar como: pararelo entre a fantasia e a realidade.

Costela Quebrada

A decepção é uma dor silenciosa, porém, implacável. É como um parasita, ela te devora por dentro, se alimenta da sua esperança e da sua vontade de viver. Foi quando eu acordei para o que tinha me transformado: eu era um pedaço de costela. A minha função era protegê-lo, quando perdi essa funcionalidade eu já não era mais nada.


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Eu sempre estava ao lado dele, o sempre foi quando eu descobri que o amava. Ele, nem de perto era o homem ao qual minhas amigas bateriam de leve nas minhas costas e diriam: ''que sorte!''. Mas eu o amava com todas as minhas forças, ao ponto do meu coração doer e não conseguir respirar.

Ele vivia queixando-se da vida, dos seus problemas, das feridas da sua infância e até vitimando-se pelo o que era culpado. E eu? Ah, eu estava sempre ali. Me doando, me compadecendo, emprestando meus ouvidos, o entregando toda minha vitalidade. Aquele amor me consumia, ao passo de não mais me enxergar como um ser, mas uma extensão daquele homem que eu tanto amava.

Acontece que o amor cria expectativas. Por conseguinte, nossas expectativas se transformam em um planeta, habitado pelos sonhos do criador. E quando o outro não corresponde assistimos bem de perto a nossa criação desintegrar-se, virar pó. Um dia ele me disse: ''me perdoe, mas eu sabia que não iriamos dar certo.'' Esse foi o dia que eu assisti o mundo que eu criei desabar. Ele já se declarava para outra mulher como sendo seu porto seguro diante dos seus problemas. Sentir como meu posto tivesse sido roubado, eu gritava, não aceitava. Fiz tudo por ele e de repente eu já não significava mais nada. Como isso era possível? Seria possível o amor evaporar-se como água no deserto? Na verdade, ele nunca existiu.

A decepção é uma dor silenciosa, porém, implacável. É como um parasita, ela te devora por dentro, se alimenta da sua esperança e da sua vontade de viver. Foi quando eu acordei para o que tinha me transformado: eu era um pedaço de costela. A minha função era protegê-lo, quando perdi essa funcionalidade eu já não era mais nada.

Costelas se quebram, eu era uma costela fraturada. Por dias me alimentei da sua pena, muitos ainda não sabem, mas a pena é um dos sentimentos mais humilhantes ao qual podem nutrir-se corações não correspondidos, é viver de restos. Mas chegou o dia que ele partiu de vez, minhas artérias explodiram, fiquei boiando inerte no meu próprio sangue, talvez querendo fingir que aquilo era apenas um pesadelo, um momento, seila. Comprimia os olhos na esperança que fosse acordar sobressaltada e descobrir que foi apenas um sonho ruim.

Sofri, chorei, me lamentei e sustentada nos pequenos fios de esperança o esperei, nossa, como esperei. Ele nunca voltou. Meu corpo involuntariamente começou a cicatrizar, a ferida se fechava lentamente. A regeneração fez eu cair em mim, só então enxerguei a toxidade daquele amor, as mentiras, as falsas promessas, a sua perversidade disfarçada de bem querer, sua sutil manipulação. Lembrei-me de como ele me fazia sentir-me culpada pelos seus próprios atos e eu me odiava por isso. Sem que eu percebesse já não era mais costela, nem mesmo uma extensão de ninguém, aprendi que eu me completo.


Tainara Gomes

Sou o que costumo classificar como: pararelo entre a fantasia e a realidade..
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