Tainara Gomes

Sou o que costumo classificar como: pararelo entre a fantasia e a realidade.

Billie Holiday: a estranha fruta das árvores do Sul

Billie Holiday eternizou com sua voz intensa uma das maiores canções de protesto contra o racismo e o linchamento de negros nos Estados Unidos. ''Strange Fruit'' é a tradução do horror e da violência sofrida pelos afro-americanos durante os anos de segregação racial.


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Em 1936 o judeu, professor universitário, escritor e compositor Abel Meerepol, usando seu pseudônimo Lewis Allan, escrevia o poema que mais tarde se eternizaria na voz de Billie Holiday, uma das maiores divas do jazz. ''Strange Fruit''(fruta estranha) não é apenas uma canção, é um grito de protesto contra o racismo. O poema de três estrofes nasceu após Meerepol ver a fotografia de um linchamento em uma revista de direitos civis. A ''fruta estranha'' faz alusão aos corpos dos negros torturados e enforcados em uma árvore.

Uma história sobre um bárbaro linchamento e o ódio racial Em 7 de agosto de 1930, em Marion situada no estado de Indiana, nos Estados Unidos. Um jovem branco acusou os negros: Abram Smith, James Cameron e Shipp Thomas de terem estuprado a sua namorada, as acusações eram falsas. Mais de 10 mil homens brancos reuniram-se armados com marretas em frente a delegacia. Os rapazes foram tirados da prisão, em seguida foram espancados violentamente e enforcados. James Cameron não foi assassinado porque o tio da moça insistiu que ele era inocente. Em 1982 Cameron publicou o livro “A Time of Terror: A Survivor’s Story”(A Hora do Terror: A História de um sobrevivente). A fotografia dos assassinatos de Smith e Thomas se tornou famosa, o fotógrafo Lawrence Beitler passou dez dias sem dormir para reproduzi-la, as cenas de horror venderam milhares de cópias. Essa imagem inspirou Meeropol a escrever o poema ''Strange Fruit''.

linchamento de negros em marion indiana.jpg Linchamento dos jovens negros Shipp Thomas e Abram Smith(Foto: Lawrence Beitler)

O jornalista americano David Margolick, autor do livro ''Strange Fruit- Billie Holliday e a biografia de uma canção'', relata os motivos pelos quais ocorriam os linchamentos- pequenos delitos, estupro, insultar uma pessoa branca e até comprar um carro. ''Era apenas hora de lembrar aos negros 'metidos' que deles deviam saber qual era o seu lugar”. Grande parte dos crimes ocorriam em cidades pequenas e relativamente pobres, era uma espécie de diversão, onde parte da população se reunia para assistir negros serem torturados e pendurados em árvores, para exibir o ato.

As fotografias do linchamentos de negros eram transformadas em cartões postais, era uma forma de enaltecer o orgulho racista. A violência contra negros era comum, inclusive a própria polícia era conivente. Na canção “Desolation Row”(Corredor da Desolação), Bob Dylan registrou o seguinte trecho: “Eles estão vendendo cartões postais do enforcamento”. Tempos depois as imagens geraram uma onda de revoltas e impulsionaram a luta a favor dos direitos civis da população negra.

Segundo a Equal Justice Inative, organização responsável pelo relatório sobre a história dos linchamentos nos Estados Unidos, cerca de 3.959 negros foram vítimas de ''linchamentos raciais terroristas'' em 12 estados do Sul, entre os anos de 1877 e 1950.

O poema chegou as mãos de Billie Holiday em 1939, já em forma de canção. Billie era frequentadora do Café Society- boate em Greenwich Village frequentada por setores progressistas em Nova Iorque, o local tinha como frequentadores negros e brancos. No dia 20 de abril do mesmo ano ocorreu a gravação da música, em uma pequena gravadora chamada ''Commodore Records''.

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Na escuridão da sala da boate uma pequena e fosca luz apresenta o rosto de Billie Holiday, que ao som do piano entoava uma das músicas mais perturbadoras e ácidas do jazz. Com toda certeza, não era uma música segura para se cantar, e mesmo nos lugares onde era seguro cantar ela causava um enorme desconforto. Barney Josephson, fundador do Café society, chegou a pedir que Billi encerasse as apresentações com ela.

Ao interpretar a canção Billie não era apenas uma negra cantando para uma plateia branca, como era de costume nas casas de show da época, era uma negra dizendo: ''agora me ouça!'' Nas rádios tornou-se uma música quase proibida, causava um grande mal estar nos ouvintes. Negros e brancos não queriam ouvir aquela música tão impactante.

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No ano que Billie gravou a canção apenas três linchamentos foram registrados, porém o fim de tais atrocidades ainda estava longe. Até meados de 1860 negros eram impedidos de exercerem seus direitos civis e políticos. A organização terrorista fundada em 1866 - a Ku Klux Klan- espalhava o caos e o terror na comunidade negra. Nessa época negros eram impedidos de frequentarem as mesmas escolas que brancos ou sentarem nos mesmos assentos que eles nos ônibus. Dezesseis anos depois da canção ter sido gravada, a ex-costureira Rosa Parks recusou-se a sentar no lugar reservado para negros em um ônibus de Montgomery, no Alabama. Seu ato de coragem desencadeou uma onda de protestos e boicote contra o sistema coletivo da cidade, nesse movimento surgia a figura que mais tarde se tornaria o símbolo da luta contra o racismo na América, o pastor Matin Luther King.

Billie Holiday morreu em 1959, aos 44 anos. Ela fazia o uso abusivo de álcool e era viciada em heroína. A própria Billie deu uma declaração em 1947, onde afirmava ter feito uma porção de inimigos por conta da música. Entretanto, deixou eternizada a canção que é um dos maiores hinos contra o racismo. ''Strange Fruit'' era uma extensão da Billie, se tornaram únicas e inseparáveis. A música embalou a campanha de Ben Davis Jr, primeiro negro a ser eleito em Nova Iorque, a própria Billie a interpretou. Em 1999 ''Strange Fruit'' recebeu o título de Canção do século, a condecoração foi concedida pela revista Time.

Tradução da canção Strange Fruit (Fruta Estranha):

Árvores do sul dão uma fruta estranha, Sangue nas folhas e sangue nas raízes, Corpos negros balançando na brisa do sul, Frutas estranhas penduradas nos álamos.

Cena pastoril do heróico sul, Os olhos inchados e a boca torcida, Perfume de magnólias, doce e fresco, E de repente o cheiro de carne queimada.

Aqui está a fruta para os corvos puxarem, Para a chuva recolher, para o vento sugar, Para o sol apodrecer, para a árvore pingar, Aqui está a estranha e amarga colheita.


Tainara Gomes

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