Tainara Gomes

Sou o que costumo classificar como: pararelo entre a fantasia e a realidade.

Maria Padilha: a sociedade falocêntrica e a mulher vagabunda

Não obstante, a feitiçaria foi uma das formas que muitas mulheres encontraram para lutar contra a opressão e a misoginia no Brasil colonial. A figura da feiticeira era temida no país, principalmente no Sertão Seiscentista. Eram procuradas para problemas amorosos, cura de enfermidades, infertilidade e aborto. Em um mundo onde ser mãe solteira era ser condenada a vergonha e a humilhação, as práticas abortitas dessas temíveis mulheres livraram muitas de nós da famosa sarjeta.


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- ''Que mulherzinha ordinária viu?...'' Foi o que soltaram como critica ao personagem de Leona Cavalli no filme: Cafundó. A produção conta a história de João de Camargo, interpretado pelo ator Lázaro Ramos, conhecido como o Papa Negro de Sorocaba. ''A mulherzinha ordinária'' ao qual se referiram é a sua esposa Rosário, associada a figura da pomba-gira Maria Padilha. A moça traí o milagreiro causando-lhe sofrimento, ao mesmo tempo que a dor que o causou serve como ponte para retomada da missão do mesmo.

Segundo a história, Dona Maria de Padilla era uma poderosa e vingativa feiticeira, pertencia a nobreza espanhola e foi amante do rei João I de Castela. Maria Padilha carrega consigo a imagem de mulher degradada, sendo caracterizada por todas mulheres que vivem uma vida as margens da sociedade, sendo boa parte delas prostitutas ou de comportamento considerado inapropriado. Toda mulher que fugir das normas socialmente impostas é uma Pomba Gira. Atrevo-me a ir mais longe, Padilha é a face negra da Virgem Maria, se a última é imaculada, a primeira é violada.

No o século XVll, Padilha foi citada nos tribunais da inquisição em Portugal, onde conjuros utilizando seu nome foram atribuídos a mulheres portuguesas acusadas de bruxaria, essas foram expulsas do país e enviadas ao Brasil e a outros países. Assim, o nome da temida mulher circulou pelo mundo afora, chegando a terra brasileira como símbolo da feitiçaria, ganhando outras facetas: cigana, bruxa, dançarina e mulher da zona, todas caracterizavam estereótipos negativos.

Não obstante, a feitiçaria foi uma das formas que muitas mulheres encontraram para lutar contra a opressão e a misoginia no Brasil colonial. A figura da feiticeira era temida no país, principalmente no Sertão Seiscentista. Eram procuradas para problemas amorosos, cura de enfermidades, infertilidade e aborto. Em um mundo onde ser mãe solteira era ser condenada a vergonha e a humilhação, as práticas abortitas dessas temíveis mulheres livraram muitas de nós da famosa sarjeta. Nessa época o nome da nobre espanhola já era conhecido entre as feiticeiras brasileiras.

Séculos se passaram, ainda assim, toda mulher enquadrada como devassa é associada a figura de Maria Padilha. Mulheres que envolvem-se com homens casados, consideradas adulteras, de vários parceiros ou que consomem bebida alcoólica são acusadas de serem associadas a ela. Aos poucos, Padilha também transformou-se para os protestantes no demônio dos desvios sexuais, da destruição do lar e patrona da prostituição.

No fim, todas mulheres livres das normas sociais, questionadoras e senhoras dos seus destinos são Maria Padilha. Vagabundas, degradadas e ordinárias, mas acima de tudo: livres. Um brinde a todas Padilhas, desde a Geni eternizada na voz de Chico Buarque a todas nós que sofremos na pele o peso de ser mulher em uma sociedade falocêntrica e hipócrita.


Tainara Gomes

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