Tainara Gomes

Sou o que costumo classificar como: pararelo entre a fantasia e a realidade.

Mulheres: O Falacioso Conto da Princesa e o Sapo

Nessa brincadeira toda de faz de conta, perdemos nossa vitalidade, sonhos e até a saúde mental, nos sacrificamos. Já os sapos não, vai ser beijado por muitas princesas, porque descobriram um mecanismo interessante, eles impedem a própria transformação, em virtude de serem eternamente beijados, além de fugirem das responsabilidades de príncipes, a maioria concorda, é mais divertido brincar em poças de lama. Em resumo, o conto transforma-se em um eterno déjà vu. Mas veja só, como isso é angustiante né?


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Um dia desses conversando com a minha avó ela me soltou a seguinte frase: '' a mulher quando quer muda o homem''. Aquilo criou em mim uma reflexão, de como está enraizado na nossa cultura a ideia da mulher como uma peça chave no comportamento masculino, consequentemente, somos responsáveis pelas suas atitudes. A responsabilidade masculina é transferida a nós, o homem adulto transforma em um Benjamin Button ás avessas, crianças autivas, livres de quaisquer erro que possam cometer.

Entretanto, não culpo a minha avó por pensar dessa forma equivocada, ela que tão menina já tinha aprendido que a mulher carrega o mundo no ventre. A Gaia do útero dividido entre filhos, marido, dores e a responsabilidade prematura. Mas os homens não, esses correm nos campos, sobem em árvores, escalam montanhas enquanto mulheres montadas a cavalo devem sair em disparada, alcançá-los e laçá-los. Mulheres sertanejas dominando o homem boi na terras áridas: onde o sol quente castiga as costas e cega as vistas, cascavel chacoalha o rabo, mandacaru esbanja ódio e beleza entre flores e espinhos. Enfim, a saga da mulher guerreira no solo estigmatizado.

Porém, a história pode ganhar fantasia, com efeito, começa a chover uma chuva brilhante. Mulheres viram princesas e homens transformam-se em sapos energéticos, salteando de poça em poça. Nessa fábula corremos descalças na lama, nossos vestidos fabulosos são tingidos na lama negra enquanto tentamos capturar os sapos. Após a captura vem o beijo, aí chega o momento da transformação do anfíbio em príncipe amado, como já dizia Atitude Feminina: ''o meu príncipe encantado, meu ator principal''. Mas se a metamorfose não ocorre, a princesa antes estonteante, agora descabela-se em incessantes beijos desesperados, enquanto recebe olhares desapontados, ela falhou.

Nessa brincadeira toda de faz de conta, perdemos nossa vitalidade, sonhos e até a saúde mental, nos sacrificamos. Já os sapos não, vai ser beijado por muitas princesas, porque descobriram um mecanismo interessante, eles impedem a própria transformação, em virtude de serem eternamente beijados, além de fugirem das responsabilidades de príncipes, a maioria concorda, é mais divertido brincar em poças de lama. Em resumo, o conto transforma-se em um eterno déjà vu. Mas veja só, como isso é angustiante né?

Bom, já cheguei a conclusão: o bom mesmo é ser plebeia. Minha avó termina o diálogo indignada, é antinatural para ela uma neta não aceitar correr no sertão até laçar um boi. Ainda que eu entenda a minha senhora, beirando seus mais de 70, marcada pelo caminhar dos anos, saudosa amazona guerreira. Na poeira do contraste, eu e minha velha conversamos, separadas pelas épocas mas possuidoras da mesma essência: ser mulher.


Tainara Gomes

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