Lucas B. Friedmann

‎"I want to stay as close to the border as I can without going over.
Out on the edge you see all kinds of things you can't see from the center." Kurt Vonnegut (1922-2007)

Eu escrevo porque (eu não entendo e nem sei como explicar) era
o que eu sempre quis fazer, mesmo antes de saber escrever

a mão de deus

É o tipo de pessoa que sempre obtém resultados muito maiores do que as expectativas. O seu esforço, sempre muito intenso, parece mesmo assim resultar em muito mais do que seria obtido por qualquer outra pessoa. É talvez algum tipo de sorte! Ou alguma intervenção divina!


"Você fez algo extraordinário!" ela disse, quando finalmente se encontraram. Era uma praça que naquele dia não tinha crianças. Era uma praça vazia. O tempo estava cinzento e úmido. Fazia algum frio e ventava eventualmente, como se estivessem em um voo turbulento. "Extraordinário!" ela insistiu, extraordinário!, tentando dizer algo que estivesse à altura dos seus feitos recentes.

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Ele meneou a cabeça. Sinalizava que sabia. Estava muito cansado e isso se manifestava em seus gestos e em sua postura. Mas não era um cansaço de entrega. Era daqueles cansaços que transparecem depois de um esforço excessivo. E o reconhecimento dela transcendia a presença de ambos e se confundia com um reconhecimento coletivo. E ele sabia que era um momento para reconhecimento.

Eles caminharam lado a lado alguns passos até se sentarem em um dos bancos colocados ao longo do passeio principal da praça. Ficaram ali sentados por alguns minutos observando as casas no entorno da praça, a alguma distância de onde estavam, adiante do espaço público, alguns carros estacionados, ouvindo o silêncio e se deixando levar pelo vento que aparecia e se escondia.

O olhar dele se perdia no horizonte. Ele tentava se fixar em algo próximo, mas os esforços recentes não lhe permitiam que sua atenção ficasse focada em algo que estivesse próximo. Durante alguns meses, e ele agora pensa assim, seu foco esteve absolutamente focado em um único objetivo. Era necessário agora olhar ao longe, era necessário agora voltar a sonhar.

Ele parecia agitado e, após alguns minutos, levantaram-se e seguiram caminhando pelo passeio principal da praça. Era como se uma agenda vazia de compromissos pesasse justamente pela liberdade implícita na falta de apontamentos. Por várias semanas, ela havia convivido com sequências intermináveis de horas de estudo e de mais e mais horas de estudo e de muitas horas de estudo.

"Foi difícil?" ela perguntou, enfim, olhando em sua direção. Ele olhava ao longe, parecendo ainda carregar um fardo enorme. Ou simplesmente parecendo não saber o que fazer com esse vazio de compromissos. Ela não sabia muito bem o que dizer. Ele, pensando melhor, parecia estar conseguindo aos poucos se desvencilhar das obrigações que lhe pesavam até há pouco tempo.

Ele parecia estar pensando no quê responder. Eu não vou dizer que foi fácil, ele disse, enfim, ainda olhando ao longe. Ela caminhava ao seu lado, tentando entender para onde ele estaria indo. Caminhavam erraticamente, caminhavam muito devagar, meio sem saber onde encontrar assento, meio sendo levados pelo vento. Eu acho que não foi fácil, mas já acabou, ele disse.

Eu sei, ela concluiu por ele, incrivelmente, essas coisas nunca parecem difíceis para você. Ele tinha de fato um histórico de vitórias em sua vida e em sua carreira. Na maioria das vezes, essas vitórias vinham acompanhadas de uma certa carga de surpresa, porque ele costumava atuar em silêncio. Eu acredito que não tenha sido nada fácil, ela disse, depois de alguns passos erráticos.

Ele então olhou na direção dela. Sinalizava que concordava. Enfim, concordava. Seus olhos se cruzaram e depois ele seguiu olhando em frente, ainda tentando se esquivar de tantas cargas, enquanto ela mirou o solo por alguns instantes e depois levantou o rosto, desviando os cabelos dos olhos, com a mão direita. Ainda ventava bastante. Entre eles persistia um afastamento, mas sem rivalidades.

"O que vai ser agora?" ela perguntou. Eles encontraram um outro banco, mais para o centro da praça, onde já não se ouviam de modo tão nítido os ruídos da cidade. As árvores em torno reduziam o efeito do vento sobre seus cabelos. Ele percebia seu corpo dando sinais que precisava um relaxamento. Ele agora se permitia perceber que estava cansado. Mas estava tudo muito bem!

O esgotamento que ele sentia era consequência em parte do esforço físico, claro, mas era devido principalmente ao esforço intelectual. Olhando ao longe, ele começava a entender que fora necessário se convencer que ele conseguiria, para depois convencer os outros que ele de fato iria conseguir. E, por fim, ele ainda teve que efetivamente concretizar essa vitória. É um caminho sempre árduo.

Perguntas, perguntas... ele disse, sorrindo, tranquilo. Aceite que não é necessário dizer nada, ele concluiu, depois de um breve silêncio. Apesar do esforço concentrado em alguns meses, ele sempre pressentiu felicidade em situações nas quais era colocado em teste e conseguia ter sucesso. O teste em si era a fase importante e, claro, o sucesso também, mas mesmo em insucessos prevalecia uma sensação final de ter cumprido com seu dever. E desse modo não restariam motivos para tristeza.

Eu não sei mesmo o que dizer, ela disse, por fim. Acho que um elogio comum seria muito pouco. Ele queria apenas desfrutar aqueles minutos de paz e quase não prestava atenção nas palavras que vinham trocando. Ela merecia mais que respostas semi automáticas, mas ele vinha em sua companhia se adaptando a um padrão que comportamento mantido em suspensão. Ela havia hibernado por tempo demais.

Ele procurou os olhos dela e disse, gentilmente, “você não precisa dizer nada, absolutamente nada”. Ela entendeu que um certo silêncio seria suficiente. Ele tentava se recolocar em sua vida durante aqueles breves minutos em que o vento mexia em seus cabelos e essa sensação, quase uma massagem no couro cabeludo, lhe permitia interagir novamente com o meio ambiente. Era necessário se reencontrar.

Permaneceram em silêncio um tempo suficiente para seus cabelos se desgrenharem com o vento que soprava. Um silêncio no qual seus olhos se perdiam no horizonte. Estavam introspectivos, talvez revivendo os fatos recentes. Em meio a esse silêncio, mas sem desviar os olhos do horizonte, ele buscou a mão dela com a sua mão e esse contato lhe fez bem. Os canais de comunicação voltavam a se abrir.

Eu queria perguntar uma coisa, ela disse. Ele seguia parecendo estar em adaptação, ou em re adaptação, ao mundo exterior. Como se fosse um computador fazendo algum tipo de re inicialização. Ela o acompanhava, mas ressentia de um canal de comunicação algo mais eficiente. Ele naturalmente se colocava em hibernação. Ela, ao contrário, precisava de alguma interação. Ele mais estava acordando da hibernação.

O silêncio teria sido suficiente, mas havia uma certa ansiedade no ar que eles não compreendiam exatamente e que fazia com que ela precisasse falar ou expressar algo e ele tentasse apenas permanecer vivo. Como se o esforço prolongado estivesse agora cobrando por seus serviços e lhe tivesse tirado essa consciência de simplesmente estar vivo.

"Em que momento você se deu conta que teria que fazer o que fez?" Ele sabia a resposta, sempre soube. Talvez fosse difícil exprimi-la com palavras e aí cabia uma certa impossibilidade. Ela sabia que ele não era apenas instintivo, mas tinha ideia de que ele talvez não soubesse como responder. Um mistério para ele: como responder. Um mistério para ela.

Ele não respondeu imediatamente e seguia viciado em olhar ao longe. Deixou fluírem alguns segundos, minutos até. Ele precisava sentir que podia dispor novamente desses pequenos detalhes. Como uma águia que foca do alto sua presa e em seguida inicia uma descida vertiginosa até ela. Ele tinha passado muito tempo se esgueirando entre descidas vertiginosas. Agora ele poderia decidir novamente.

Não houve esse momento, ele respondeu. Depois de um breve silêncio, continuou, “agora eu percebo que é como se eu sempre soubesse o que aconteceria”. Como se eu soubesse, talvez mesmo de antes de ter nascido, que viveria todos os meus dias por aquele momento. Um momento em que todos os meus esforços estavam focados em um único objetivo.

"Entende o que quero dizer?" ele disse, à guisa de uma conclusão. Sim, ela disse, eu entendo. Eu não sei dizer, ela continuou, se eu entendi exatamente o que você quis dizer, mas eu pelo menos me sinto satisfeita com essa resposta, pelo mesmo por enquanto. Ela sorriu, quem sabe pela complexidade de uma contra resposta que seria mesmo desnecessária.

O silêncio que se fez poderia ser confundido com paz. Havia uma certa ansiedade no ar... ele precisava simplesmente continuar respirando e, quem sabe, conseguir pensar novamente em coisas como futuro, sonhos, planos e qualquer coisa que não demandasse um esforço imediato, ela precisava falar e precisava expressar seu reconhecimento de algum modo concreto e precisava de qualquer modo.

Ele talvez tenha aceitado encontrar-se com ela porque sabia que poderia desfrutar de alguns momentos de tranquilidade. Era natural que ela tivesse curiosidade em relação aos acontecimentos recentes e mesmo manifestasse uma certa tentativa de explicar a surrealidade dos fatos. Ele nunca tinha se preocupado com qualquer tipo de reconhecimento e teria passado por tudo mesmo sabendo que não teria nenhum reconhecimento. Mas essa tranquilidade vinha mesmo de um certo reconhecimento. Os fatos recentes se precipitaram com tanta celeridade, com tanta voracidade, que ele ainda não tinha conseguido digeri-los apropriadamente. Era necessário respirar por um tempo, era necessário dormir por um tempo, até que seus neurônios se acostumassem com esse novo estado das coisas. Era necessário simplesmente voltar a viver uma vida comum. Era necessário voltar a viver.

Mas algo ou alguém deve ter provocado tudo aquilo. Alguém fez por você... ela disse, obviamente, a essa altura, provocando-o. Tem que ter sido alguma coisa externa a você, algum tipo de inspiração divina, ela insistiu, sorrindo. Ou você foi mesmo capaz de tudo que aconteceu?

"Você diz isso porque foi mesmo extraordinário o que aconteceu." Depois de um curto silêncio, ele continuou, “tão extraordinário que é difícil acreditar que tenha acontecido e que tenha sido eu.” Mas acredite, ele disse, sorrindo, aconteceu de fato e era eu. É tão inacreditável assim?

Sim, eu acredito, ela disse. Acredito porque sei como você é e sei que é capaz daquilo. Eu sei que quando você coloca uma ideia na cabeça você avança em frente até conseguir. Dessa vez, você exagerou, mas foi você mesmo quem fez tudo aquilo. Eu já sabia que você conseguiria.

Talvez digam que foi sorte. Pura sorte.

É, mas mesmo assim... sorte já sabemos que é aquilo que beneficia quem se esforçou, ela disse, sorrindo, quem se postou conscientemente em posições efetivamente positivas. Em circunstâncias anteriores ele já tinha se deparado com o que deveria ter acontecido e que de fato aconteceu e viu que uma preparação seria necessária. E na época tinha comentado com ela sobre tudo isso e ouviu dela um comentário irônico desdenhando de suas capacidades para vencer esse incerto desafio.

Talvez digam que foi acaso.

O acaso é o acidente de alguma coisa ter acontecido em determinado momento a alguém, sem qualquer relação de causa e efeito. É difícil aceitar a ideia de que tenha sido apenas um mero acaso, porque em determinado momento eu despendi energia para iniciar o processo que levou ao conflito que foi vencido e também despendi energia para chegar vitorioso ao final desse conflito e para sobreviver. Difícil mesmo acreditar que o que aconteceu tenha sido resultado de puro acaso.

Difícil acreditar que tenha sido apenas uma coincidência.

A coincidência pode ser resultado de uma confluência de fatores que se originam em instantes ou em locais diferentes, mesmo que aparentemente por motivos diferentes, e que se somam eventualmente, beneficiando quem estiver em determinado momento colocado de determinado modo em determinado local. Neste sentido, a coincidência pode ser benéfica para alguns e maléfica para outros, dependendo obviamente do ponto de vista considerado e dessa confluência de fatores.

Acho que vão dizer que foi “a mão de Deus”, ela concluiu, olhando depois para ele. É, foi a mão de Deus, ela repetiu, como se estivesse tentando avaliar a receptividade dessa ideia. Tentando convencer-se.

“A mão de Deus” ele repetiu para si mesmo, quase sussurrando, tentando absorver aquela informação. "A mão de Deus" ele repetiu, sorrindo, completamente satisfeito. Impossível não concordar. "A mão de Deus!"

É... talvez digam mesmo que foi a mão de Deus.

Uma forma de arte está no caminho que deve ser percorrido para que se alcance a vitória. Mas a verdadeira arte está em vencer e sobreviver, para regozijar-se de modo íntimo com o fato de ser um vencedor!


Lucas B. Friedmann

‎"I want to stay as close to the border as I can without going over. Out on the edge you see all kinds of things you can't see from the center." Kurt Vonnegut (1922-2007) Eu escrevo porque (eu não entendo e nem sei como explicar) era o que eu sempre quis fazer, mesmo antes de saber escrever.
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