Lucas B. Friedmann

‎"I want to stay as close to the border as I can without going over.
Out on the edge you see all kinds of things you can't see from the center." Kurt Vonnegut (1922-2007)

Eu escrevo porque (eu não entendo e nem sei como explicar) era
o que eu sempre quis fazer, mesmo antes de saber escrever

armaggedon

Ao contrário do que todos imaginam quando ouvem seu nome, ele era uma divindade (ou uma pessoa ou algo desse gênero) e não um evento. Ele era uma divindade menos conhecida entre as divindades que povoaram o que se denominou como o Olimpo.


Armaggedon talvez tenha sido a divindade menos entendida entre todas as divindades do Olimpo. Ele na verdade existia já desde muito antes daquilo que ficou conhecido como “período helênico”. E continuou atuando mesmo depois do culto aos deuses e semi deuses olímpicos ter se extinguido e mesmo ainda quando esse culto tinha se tornado um conjunto de estórias de seres super humanos e de seus feitos e capacidades extraordinários.

ceramica.JPG

Armaggedon era respeitado como uma divindade e foi adorado pelos gregos em um período conturbado de sua história. Muitos especialistas não sabem de sua existência ou não o consideram como uma divindade olímpica talvez por ter aparecido no apagar das luzes da era helênica. Ele era sempre associado aos trabalhos manuais que eram mais elaborados do ponto de vista intelectual e mesmo às atividades de natureza mais introspectiva.

Em certa época, ele era respeitado como uma divindade que auxiliava quem deveria cumprir prazos ou quem encontrava dificuldades para cumpri-los ou quem tinha dificuldades para cumprir acordos. Dele se lembravam os alunos que precisavam concluir suas atividades de casa, dele se lembravam os agricultores que precisavam recolher sua colheita, dele também se lembravam todos que por algum motivo se encontravam atrasados para algum compromisso.

Erroneamente, dele também se lembravam os que seriam encaminhados ao cadafalso, que davam seus últimos passos em vida, que tinham hora marcada com algum carrasco. Além de ser frequentemente lembrado também por todos aqueles que recebiam um parecer definitivo de seus médicos, um prazo limitado de vida, um fenômeno recente e surgido principalmente com o desenvolvimento da Medicina e da Ciência depois da Segunda Grande Guerra.

Muitos de seus seguidores acreditavam piamente que ele fosse algum tipo de filho ou neto bastardo de Zeus ou de algum de seus irmãos ou mesmo de seus filhos menos famosos, já que ele não era citado em listas oficiais de deuses olímpicos. Os mais céticos se satisfaziam com a idéia de que ele fosse uma semi divindade, abençoado por algum feito extraordinário. Ele sabia que na verdade dispunha de um tipo de capacidade extraordinária.

O próprio Armaggedon não sabia quem eram seus pais ou de onde vinha. Ele inclusive demorou algumas eras para entender exatamente essa idéia de paternidade. Ele também não sabia para onde deveria ir ou mesmo qual poderia ser seu propósito aqui na Terra. Tampouco tinha uma noção muito elaborada sobre “propósito” em seus primeiros séculos. Acrescente-se nessa lista de desconhecimentos que ele não sabia quantos filhos já tivera.

Seu nome talvez venha da expressão em hebreu “har meggido”, que significa “o campo de batalha final entre Deus e o Demônio”. Ou “o campo em que se defrontam de modo definitivo o Bem e o Mal”. Meggido é uma região do Oriente Próximo onde se acreditava ocorreria esse confronto. E pelas forças envolvidas, imaginava-se um confronto de grandes proporções. Mas ele se lembra de ser chamado assim desde antes dessa região ser conhecida ou denominada desse modo.

[Nem ele próprio sabia seu nome e por isso mesmo sempre lhe interessava saber por que esse ou aquele lugar tinha alguma denominação específica. Ele precisou de muitos séculos para se entender como pessoa, ou como entidade, e em seu tempo de existência faz relativamente pouco tempo que ele goza de uma identidade. Faz pouco tempo que ele se reconhece como Armaggedon.]

Nem ele próprio sabe que seu nome vem de um idioma muito antigo, já esquecido, que era falado em uma pequena região onde hoje está a Turquia. Esse idioma teve relativa influência sobre os idiomas falados pelos povos que viveram naquela região e nas regiões vizinhas. Nesse idioma seu nome seria pronunciado como “arm ad diedon” e significava aproximadamente “aquele que não desiste”.

Uma coisa certamente ele sempre soube: o que lhe agradava. E esse conhecimento pode mesmo estar relacionado a essa habilidade que tão bem o caracteriza. Entretanto, ele também tem uma noção bastante exata de que nem tudo em seu passado poderia ser considerado, ou julgado, como bom. Mesmo em seus devaneios ele sabe que em seu caminho ele alternou bons e maus momentos. E seus maus momentos foram realmente muito ruins.

Ele conheceu prazeres diferentes em épocas diferentes. Ele havia migrado para Roma para se divertir como um gladiador, vendo as multidões urrarem com os seus feitos. As lâminas cortando carne, provocando sofrimento para uns e divertimento para outros. Também reservara alguns anos para se deleitar entre o povo nas arquibancadas, acompanhando o que ocorria nos bastidores.

Perdera a conta das vezes em que participara de guerras integrando exércitos de homens famintos e selvagens. Divertia-se com a inabilidade de alguns generais, mas se sentia muito satisfeito quando outros conseguiam realizar feitos extraordinários. Ele se alimentava sempre que seus comandantes não pretendiam apenas vencer por riqueza ou fama ou por outros motivos menores.

Passou algumas décadas entre os mongóis.

Viajou inúmeras vezes entre a Europa e o Novo Mundo em diversos navios de espanhóis e de portugueses. Também foi um pirata durante muitos anos e chegou a morar durante quarenta e cinco anos no Japão, quando se apaixonou por uma jovem senhora japonesa que mudou sua visão do mundo.

Acompanhou por um tempo um certo italiano, rebelde e também pirata, um mercenário, que sabia como poucos de sua época aproveitar a vida e aproveitar o fato simples de estar vivo. Uma de suas lembranças mais marcantes é a de dois barcos sendo transportados por terra, puxados cada um por mais de cem bois.

Esteve entre os incas e os astecas, em épocas diferentes.

Viveu como um abade a rotina maravilhosa de beber vinho e comer pão, além de "rezar muito", rezar demais até, enquanto mantinha a cultura que estava registrada em textos que eram repetidamente copiados para não serem perdidos. Naquela monotonia ele se encontrou e conheceu melhor a si mesmo.

Também viveu entre os germânicos e com outros povos bárbaros no período em que ocorreram inúmeras guerras na fronteira com o Império Romano. Esteve próximo a um louco imperador que havia perdido sua esposa e passara a empalar seus inimigos. Mas sobre ele, as lendas contavam muito mais do que ele havia feito e do que ele próprio seria capaz de acreditar.

Ele se divertiu com algumas tribos de ciganos que alcançaram um razoável nível de organização e que inclusive colocaram medo em muitas divisões de romanos. Eles corriam pelos campos de batalha gritando “nós vamos ferrar com vocês e foder as suas mulheres!” Ele adorava demais aquilo tudo!

Estava aproveitando de um modo especial o século XX, quando vinha experimentando diversos tipos de automóveis. Ele adorava as Alfas e os Mercedes, as Maseratis, alguns Horchs e alguns dos primeiros modelos da Aston Martin, mas tinha especial predileção por uma certa Ferrari 275 GTB, short nose, amarela, que pertencera a um conde italiano. Não era uma 250, era uma 275!

Esse conde vivia no alto de uma elevação e a estrada que conduzia à sua residência havia sido pavimentada há pouco e era bastante solitária. Armaggedon se empregara com a família e apresentara um currículo invejável (e que não era falso!) como engenheiro mecânico de uma falida escuderia da Fórmula 1. É claro que caíra no agrado do conde com facilidade!

E de fato ele não mentira sobre sua experiência como engenheiro mecânico. Ou na verdade um esforçado assistente de engenheiro mecânico. Ele trabalhou alguns anos entre aqueles que preparavam as Flechas de Prata. Ele conseguira trabalhar primeiro com a Mercedes e depois com a Auto Union. E depois da guerra ele também soube envenenar alguns motores.

Mas a Ferrari do conde era uma verdadeira "obra prima"!

Houve um corredor italiano que talvez fosse tão louco quanto ele próprio. Chegou a pensar que tinha encontrado alguém como ele, porque ele se arriscava demais e nunca lhe acontecia nada. Certa vez, ele sofrera um acidente terrível e acabara em uma cama de hospital, completamente quebrado. Mas esse louco deixaria de competir entre as motos? Claro que não. Convenceu seus mecânicos a ser amarrado à sua moto e segurado na partida até que colocasse a moto em movimento. O resultado é desnecessário ser revelado. Ele venceu!

Mas... a Ferrari do conde...

armagg-01.jpg

A condessa se esforçou muito para seduzi-lo, inclusive arregimentando-o para uma viagem curta até a Suíça com sua tão amada Ferrari com a desculpa de visitarem um genial joalheiro que aceitara recebê-los depois de muita insistência. Não, não, meu coração ainda é de uma senhora japonesa, falecida há alguns anos, ele teria dito.

Mas ele não consegue apagar de sua memória que também havia se divertido, num passado muito distante, jogando crianças em valas com cães provocados além de seus limites. Falhas como essa lhe valeram muitos anos de isolamento. E ainda lhe valem noites de insônia.

Isolamento dos seres humanos, porque nunca havia encontrado outros como ele. Desconfiara de alguns, como um outro corredor, um piloto, um que tratavam como um samurai, de quem diziam que não importava a máquina, ele sempre se sagraria vencedor. De fato nunca encontrara outros como ele.

Mas nunca perdera a capacidade de se surpreender com as pequenas genialidades do homem. E tentava sempre estar por perto quando algo bom estivesse acontecendo. Ele percebera com o tempo que conseguia se alimentar desses bons sentimentos.

Aliás, o que mais o agradava vinha justamente dos seres humanos.

Na verdade, ele se manifestava de modo sutil, sempre que alguma tarefa que parecesse impossível devesse ser realizada. E se essa impossibilidade estivesse associada à falta de tempo, aí então ele se esforçaria ainda mais. A capacidade humana de se superar em momentos de dificuldade sempre o fascinara.

Certa vez, uma jovem precisava realizar uma pesquisa para o colégio. Ela deveria escrever sobre o trabalho menos conhecido de Einstein, o efeito fotoelétrico, que lhe rendera o prêmio Nobel. Ela se julgava incapaz em física e odiava profundamente o professor desde o momento que lhe atribuíra essa tarefa.

Em um período em que um outro professor havia liberado os alunos, por problemas pessoais, ela foi à biblioteca da escola e buscou livros que pudessem ajudá-la nessa tarefa. Inclusive, ela superou sua dificuldade de preparar trabalhos com antecedência porque imaginava que este seria especialmente difícil.

Ela folheou os livros não pensando em encontrar elementos para a construção do tal trabalho. Ela gostaria mesmo de encontrar um milagre, ali, entre aquelas páginas. Mas a cada nova ideia que ela absorvia, ela sentia que esse caminho lhe parecia menos agressivo e mais iluminado. Ela trilhava um caminho inteiramente novo.

Ela então percebeu que aquilo lhe agradava. O assunto em si era muito interessante e o fato de ter feito mais do que aquilo que era esperado dela lhe deixou especialmente excitada. Simplesmente ter ido além. O reconhecimento alheio nem era um fator importante para ela. E essa excitação alimentou Armaggedon.

Antes disso, muito antes, um humilde sapateiro tinha uma vida bastante difícil, sempre ganhando com seu trabalho o suficiente para alimentar sua esposa e seus vários filhos, pagar os impostos exigidos pelo governante e pagar o dízimo exigido pela igreja. Em várias ocasiões ele não conseguira receber nem o mínimo suficiente.

Então em certo dia ele foi visitado por um homem bem vestido que lhe perguntou se ele poderia produzir um número enorme de sapatos em um intervalo de tempo curtíssimo. Ele disse que era impossível. E o homem lhe disse que se não aceitasse ele encontraria quem o fizesse e que não deveria reclamar de seu triste destino.

O sapateiro teve uma iluminação súbita e aceitou o desafio. O homem disse que retornaria em dois dias com o material necessário para confeccionar os tais sapatos. Nesse período, o sapateiro pensou em tudo que poderia alterar em sua rotina diária para que seu trabalho tivesse melhor rendimento. Algumas ferramentas, um planejamento diário, a cumplicidade de sua bela esposa.

O sapateiro conseguiu cumprir a cota estipulada por aquele homem de um tal modo que sobrara material. E em período de tempo menor ainda conseguiu usar essas sobras para produzir mais sapatos. O homem bem vestido gostou de ter encontrado mais sapatos do que havia pedido e apresentou o pedido de um novo lote.

E Armaggedon se alimentou da excitação do sapateiro ao perceber que havia conseguido. O sapateiro sentira-se feliz por ter sido elogiado pelo tal empreendedor que o contratara. Mas a maior felicidade, e para ela essa era uma novidade, era ele ter cumprido algo que ele próprio havia se comprometido a cumprir.

E ele poderia enumerar vários exemplos como esses que ele havia vivenciado nos últimos séculos. Ele se alimentava regularmente, como qualquer pessoa, e ele amava também, como qualquer pessoa, mas em uma espécie de dimensão alternativa, ele nesses momentos alcançava uma felicidade inexplicável.

Armaggedon percebe hoje que demorou muito tempo até saber exatamente o que lhe agradava. E em seu passado muitas manchas permaneciam, lembranças que preferia não atiçar. Muitas delas ainda anteriores às últimas eras glaciais. Mas ele agora sabia o que de fato lhe fazia feliz e isso que era importante.

Entre todas as suas experiências, ele percebera também que uma fonte inestimável de prazer poderia ser obtida do simples fato de ele próprio planejar a longo prazo e cumprir seus planos. E dentre todos os planos que ele havia experimentado ou que ele havia testemunhado, plantar videiras ou oliveiras, acompanhá-las ao longo dos anos e processar seus frutos e obter deles materiais tão nobres quanto saudáveis ou saborosos é uma missão realmente divina.

Campos_de_Cariñena,_España,_2015-01-08,_DD_32.JPG

Mas essa agora era a sua experiências e ele tinha uma consciência muito profunda da diferença entre seus objetivos e os objetivos de outras pessoas. Ele aprendera que cada pessoa (ou em última instância, cada criatura viva ou cada entidade) constrói seu próprio caminho, com as suas dificuldades, com diferentes manchas em seu passado, com diferentes sucessos e com diferentes fontes de prazer. E algo importante... ele agora sabia onde se refugiar, aonde buscar uma recarga de energia!

Atualmente, a palavra armaggedon foi associada a tragédias e a catástrofes de grandes proporções ou mesmo ao fim dos tempos. Talvez essa confusão seja antiga, porque ele surgiu como divindade apenas no final da período helênico. Quem sabe, porque ele talvez tenha sido aquele que veio para apagar as luzes. Mas isso certamente aconteceu apenas porque ele nunca se preocupou em associar seu nome à sua obra. Em suma, ele nunca se preocupou com reconhecimento.


Lucas B. Friedmann

‎"I want to stay as close to the border as I can without going over. Out on the edge you see all kinds of things you can't see from the center." Kurt Vonnegut (1922-2007) Eu escrevo porque (eu não entendo e nem sei como explicar) era o que eu sempre quis fazer, mesmo antes de saber escrever.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/literatura// @obvious, @obvioushp //Lucas B. Friedmann