Lucas B. Friedmann

‎"I want to stay as close to the border as I can without going over.
Out on the edge you see all kinds of things you can't see from the center." Kurt Vonnegut (1922-2007)

Eu escrevo porque (eu não entendo e nem sei como explicar) era
o que eu sempre quis fazer, mesmo antes de saber escrever

o caçador de vampiros / 1 de 2

Ele entendia de um modo profundo desde seus primeiros dias que sempre enfrentaria dificuldades. Um caminho árduo, solitário. Um caminho de provações e de constante auto reflexão. Ele sabia que estaria sempre sendo defrontado com o mal em suas várias expressões.


"O mal precisa ser combatido. Nesse processo, muitas vezes, um mal semelhante pode ser despertado dentro de nós."

Eu nasci duas vezes, e não incluo nessa soma a circunstância em que fui expulso de modo absolutamente natural das entranhas de minha mãe. A primeira ocorreu quando eu percebi, por obra de meu pai, que eu deveria me afastar de minha mãe. Quem sabe dessa vez uma expulsão não natural de suas entranhas.

A segunda dessas duas vezes coincidiu com a última vez em que vi meu pai. E apenas muito tempo depois eu fui convencido de que coincidências podem não existir. Mas muito antes disso eu já sabia que "eu sentia falta de um pai" mas "eu não sentia falta exatamente daquele que nesta vida era o meu pai".

Eu poderia dizer que nasci também uma terceira vez, quando depois de muito tempo eu reencontrei minha mãe. Eu também poderia dizer que tive uma série de outros renascimentos. ou quem sabe ressurgimentos. Mas eu estaria complicando este relato de um modo desnecessário e também estaria associando uma importância excessiva a vários fatos pequenos e menos interessantes em minha vida.

Essas primeiras linhas mostram como meus pais foram importantes em minha vida. Não, não... Isso não está certo! Não está escrito do modo correto! Vou reescrever esta frase: essas primeiras linhas mostram como minha mãe e como meu pai foram importantes em minha vida. Cada um do seu modo, de modos diferentes em épocas diferentes. Nem sempre para o bem. Nem tanto para o mal.

Este relato não está ligado a eles, mas está ligado à forma como os primeiros parágrafos foram reescritos ao longo de minha vida. Eu renasci várias vezes, e as importâncias desses vários renascimentos foram mudando com os anos. No começo, os renascimentos estavam associados aos meus pais. Com o tempo, eles foram sendo associados a outros motivos. Eu sempre perdia tudo...

Agora que eu caracterizei o ambiente em que cresci, posso dizer quem sou. Todos me tratam por Mano e isso não me desagrada, porque as razões desse apelido já foram esquecidas e porque de qualquer maneira eu não sei qual foi o nome que recebi quando nasci. O nome que me foi dado depois é Franco.

É um nome ou apelido muito comum, normalmente associado a alguém que é bem visto pelas pessoas ou a alguém que todos gostam ou com quem todos se preocupam. E acho que é isso mesmo, acho que é essa a imagem que todos têm de mim. É um apelido popular, mas isso nem chega a me incomodar.

Na primeira vez em que despertei, eu passei a ver o mundo com olhos embaçados, já que eu era vítima de um certo arrependimento. Eu me sentia traidor da minha mãe em favor de meu pai. A vida na juventude sempre é mais simples, já que as pessoas sempre podem ser classificadas como boas ou más.

Na segunda vez em que despertei, eu consegui ver o mundo novamente de um modo tranquilo, já que eu sentia ter encerrado uma fase de minha vida. Eu finalmente colocava a casa em ordem, já que eu relegava meu pai a um segundo plano e retornava ao amparo de minha mãe. Sempre entre dois pólos!

Com o tempo, nós descobrimos que o mundo não é tão simples e que as pessoas sempre se mostram como uma combinação muito complexa do bem e do mal. Já não é possível classificar as pessoas. É necessário aprender a conviver com os acertos e as falhas de cada um. E de nós mesmos, não é mesmo?

O apelido surgiu acidentalmente em uma mesa de bar. Todos bebiam cerveja há algum tempo e o desafio era que cada um se apresentasse de um modo absolutamente objetivo. Conforme os primeiros foram apresentando suas armas, ficou evidente o clima de desafio com aqueles que estariam por vir. Eu me coloquei em pé, empunhei meu copo de cerveja e declarei minha alcunha; ouvi manifestações de apoio e algumas salvas de palmas. Eu havia dito: “caçador de vampiros”. A apresentação intempestiva mostrava que essa declaração já era minha conhecida, mas dormitava em níveis arqueológicos profundos da minha personalidade.

Eu confirmei: “eu sou um caçador de vampiros!”

Tendo dito essas palavras, tendo dito essa estranha alcunha, tudo para mim se tornava claro e límpido. Eu de fato trilhara a minha vida caçando seres que se aproveitavam da minha bondade e da minha pureza para recarregar suas baterias. Ou caçando em alguns momentos e me deixando em posição de fragilidade ao seu ataque em outros momentos. Pessoas que não tinham escrúpulos de roubar a energia alheia. Pessoas que não tinham escrúpulos ou que na verdade não tinham uma exata consciência do que estavam fazendo. Pessoas que não tinham consciência do mal que faziam. E para mim era mesmo como uma caçada!

Alguns olhares se dirigiram para mim com um tom de “ok, meu amigo, a brincadeira já acabou, agora pode se sentar que o baile vai continuar”.

A história com a Luísa confirmava a alcunha. Eu a conheci em um shopping center, disputando espaço em uma fila de restaurante na praça de alimentação. Eu queria pedir uma salada Caesar e algo que não parecesse gorduroso ou pesado demais. Ela estava acompanhada de alguns amigos pesados e eles pareciam decididos a devorar pizzas com muito queijo. Eu queria o meu pedido para levar e eles todos pareciam vikings dispostos a invadir um espaço do salão e manter uma duradoura ocupação. Ela fez um charme para o meu lado que foi suficiente para que meus instintos masculinos fossem atiçados. Dali a estar misturado com a sua turma e evoluir para um encontro foi apenas questão de tempo e da aplicação de técnicas sociais apropriadas. Em pouquíssimas semanas eu já estava apresentado aos seus pais e já conhecia vários dos seus amigos. Comparavelmente rápido também foi o período necessário para que seus tentáculos me envolvessem definitivamente.

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A Flávia me encontrou no supermercado. Eu estava no corredor dos cafés procurando algum produto com um sabor que fosse um pouco diferente dos cafés normais. Os últimos anos tinham sido pródigos em novas alternativas e produtos exóticos. Ela me viu logo que entrou no corredor e não mediu esforços para deixar evidente que procurava algo casual. Eu simplesmente deixei que as coisas acontecessem. Dali a alguns minutos, nós conversávamos como se fôssemos velhos conhecidos. Ela mexia eventualmente nos cabelos. A propósito, muito bonitos. Eu seguia a cartilha das técnicas modernas de aproximação, dizendo alguns elogios entremeados por conversa puramente sem objetivos claros. É incrível a força com a qual alguns acontecimentos se impõem. Algumas horas depois dali, nós dormíamos juntos, abraçados, nossos corpos extasiados.

A Manuela era amiga de uma amiga de um amigo razoavelmente próximo. (Caçadores de vampiros nunca têm amigos, mas vamos deixar por isso mesmo!) O amigo e a amiga da Manuela se encontraram em algum local da internet e resolveram que queriam se conhecer. Meu amigo estava temporariamente impossibilitado e daí eu a Manuela fomos acionados. Eu como motorista e a Manuela como minha acompanhante. Os atores principais desse encontro não se entenderam. Ao contrário deles, eu e a Manuela nos vimos em nossos olhares. Os casais se sentaram frente a frente e os olhos redondos da Manuela não saíam de mim. Eu quase me senti acuado, não fossem os meus instintos de supressão de timidez. Ao final dali, nós combinamos um segundo encontro, agora apenas nós e nós mesmos. A química entre nós foi praticamente instantânea.

A Francisca, que eu rapidamente me vi chamando de Chica, era amiga da Manuela, a quem eu nunca chamei de Manu ou coisa parecida. Certa vez, nós estávamos todos ao redor de uma mesa de bar. A Manuela já me esnobava, porque considerava que eu já não tinha mais segredos. E a Chica, nessa época ainda apenas a Francisca, me lançava olhares provocativos. Eu mantinha um rigoroso código de conduta e nada aconteceria antes que a Manuela tivesse seu coração atravessado por uma estaca. Mas o destino sempre encaminha os fatos e dali a algumas semanas a Chica dividia a cama comigo, no meu apartamento. Aquele inverno fora extraordinariamente frio e eu guardo belas lembranças de noites que passávamos com (os tentáculos, não, não, com) as pernas cruzadas. Íamos para baixo das cobertas apenas com pijamas de verão e o toque de pele era daquelas coisas inesquecíveis da vida.

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CONTINUA...


Lucas B. Friedmann

‎"I want to stay as close to the border as I can without going over. Out on the edge you see all kinds of things you can't see from the center." Kurt Vonnegut (1922-2007) Eu escrevo porque (eu não entendo e nem sei como explicar) era o que eu sempre quis fazer, mesmo antes de saber escrever.
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