Lucas B. Friedmann

‎"I want to stay as close to the border as I can without going over.
Out on the edge you see all kinds of things you can't see from the center." Kurt Vonnegut (1922-2007)

Eu escrevo porque (eu não entendo e nem sei como explicar) era
o que eu sempre quis fazer, mesmo antes de saber escrever

o caçador de vampiros / 2 de 2

O enfrentamento com o mal, em suas várias formas, deveria sempre ser visto como uma dança, com um ritual próprio. Às vezes, um passo para cá; outras vezes, um passo para lá. Esperar, avançar; respirar; esperar, avançar. Até o momento do golpe final e certeiro!


CONTINUAÇÃO DA PARTE 1.

Houve duas Marianas. A primeira delas apareceu muito cedo na minha vida. Eu ainda estava com o meu pai, antes de eu fazer as pazes com a minha mãe. Eu não fazia ideia de todos os conflitos que se desenrolavam em meu inconsciente e talvez por isso eu tenha ainda tantas magníficas lembranças com ela. Tudo começou quando ela desavisadamente tocou em minha mão durante uma brincadeira em um recreio no colégio. Depois dali eu procurei a mão dela várias vezes até que um olhar mais profundo acabasse levando os nossos lábios a se unirem. Eu suava frio porque muito nervoso. O beijo havia sido inesperado, mas eu não pdoeria dizer que não queria. Ela parecia tranquila e, inclusive, feliz. Eu senti no meu rosto o suor acumulado em seu rosto, pela agitação do momento e pela energia mesmo que era excedente naquela fase da vida. Mas ela logo se foi. Ou a vida logo a levou de mim.

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A Renata apareceu por sorte. Eu estava em um bar e com amigos e ela recebera um chopp de algum interessado. Uma tentativa falha. Ela então levantou de sua mesa e foi conversar comigo. Mas o tal interessado nem era da nossa mesa. Quando nossos olhares se cruzaram, o entendimento surgiu como que por encanto e dali em diante nós não paramos mais de conversar. Os assuntos fluíam com facilidade. Eu pensava em mudar o tipo de mulher com quem eu me relacionava. Ela parecia querer apenas algum tipo de companhia diferente da que normalmente aparece em bares e casas noturnas. Em algumas horas, nos já tínhamos intimidade suficiente para muito mais que alguns minutos de conversa. Sempre era assim, nós parecíamos descer uma ladeira, sem freios, para depois juntar os cacos de algum acidente ocorrido ao longo do percurso. Sempre havia algum acidente!

A segunda Mariana me encontrou quando eu já era um adulto e já conhecia vários desdobramentos do destino que estaria reservado para mim. Nossos olhares se cruzaram pela primeira vez em uma das bibliotecas da universidade. Ela procurava por um livro de cálculo. Eu sabia que ali haviam meninas bonitas, mas a responsabilidade me forçava a buscar livros de álgebra linear. Como era uma época de provas finais, ambos percebemos que nos encontraríamos ali várias vezes. O destino fez o resto, já que estava escrito que nos relacionaríamos. Algumas coisas parecem fortes demais, não é? Ela era muito carinhosa e atenciosa, sempre preocupada com o meu bem estar. Eu me sentia um canalha por já saber aquilo nela que me levaria ao bote final e por não avisá-la que eu já era um rapaz perigoso. Mas essas coisas relacionadas com o destino de cada um não devem ser questionadas.

Eu sentia em mim a percepção de tudo que nelas era despertado. Uma certa fome por dependência. Um abraço roubado aqui, um beijo cedido ali. Em pouco tempo eu estaria emaranhado em uma sequência de rotinas que para elas garantia a minha presença, para mim ia esgotando o ar que eu pudesse respirar, ia consumindo as energias que ainda existiam em mim e configurava uma prisão sem paredes. Com as primeiras vítimas eu era encapsulado nesse baile de passos aproximadamente ritmados, que iam reduzindo os caminhos de saída. Com as seguintes, eu fui aprendendo a ter consciência dos fatos enquanto o predador tecia sua armadilha. Recentemente, eu me via nesse processo plenamente seguro de minha possibilidades e ciente da missão que me havia sido incumbida. Eu deveria me colocar em posição de inferioridade até o momento em que o peito delas estivesse aberto.

O ataque final acontecia praticamente sempre do mesmo jeito. A cena se repetia ao longo dos anos e se repetiria ainda por muito tempo. Eu procurava a vítima em uma noite que ela não esperasse um encontro. Eu chegava sorrateiramente e dizia que nós precisávamos conversar. Invariavelmente, a reação partia de uma surpresa com aquele tipo de comportamento. “Eu não estou entendendo, não estava tudo bem ainda alguns dias atrás?” era uma frase que quase sempre era ouvida. “Você conheceu outra pessoa?” também era uma frase muito frequente.

“Eu vou ser muito objetivo”, eu começava dizendo. E eu não mentia dizendo isso. Sendo objetivo seria mais fácil reduzir o impacto do golpe e os estragos seriam menores. De um modo figurado, ou talvez nem tanto, seria derramado menos sangue e o ataque terminaria sendo algo não tão sujeito a surpresas. Várias vezes, eu quase fora convencido de que esse método de aproximação criava uma certa angústia em alguns casos, uma certa paralisia em outros. Eu considero que poderia ser um estilo próprio. Um estilo limpo, um estilo honesto, franco, direto.

A partir daí, era como descer uma ladeira. A gravidade faria todo o resto, tanto por mim quanto por elas. Os olhares perdidos e desviados. Os ataques e contra ataques. Em alguns casos, alguma violência desnecessária. Em outros, uma ação vertiginosa e extremamente precisa. Sempre, invariavelmente, uma sensação de frio cruzando a espinha precedendo o golpe definitivo e, depois, um calor que invadia o peito e terminava por acelerar os batimentos cardíacos, seguido de uma leve fraqueza das pernas. Algo como uma catarse física e mental.

Eu me lembro, com a Manuela, “você depende muito de mim e eu estou cansado”. Ela mantinha um silêncio que parecia exigir algo de mim. "Você não consegue tomar decisões sozinha?" eu disse. Eu sempre quis apenas compartilhar a minha vida com você, ela respondeu. Você quer compartilhar a sua vida comigo ou você quer que eu carregue os seus pesos nas costas? Naturalmente, ela considerou aquilo como um enfrentamento. Eu dissera a verdade, possivelmente com palavras minhas mas uma verdade absoluta. Ela tremia enquanto tentava ainda resistir à minha súbita tentativa de liberdade. Eu vislumbrava algumas golfadas de ar fresco se sobrevivesse àquele embate e conseguisse fugir de seu alcance.

Com uma das Marianas foi bem difícil. Éramos pouco experientes e nem tínhamos idéia do papel de cada um nesse baile que certamente se repetiria para mim e para ela ao longo de todos os anos seguintes. Em lados opostos, mas se repetiria, certamente ainda por muito tempo e por muitas vezes sem fim. “Você vai ter coragem de me deixar depois do que eu fiz por você?” ela tentou. “Eu não tenho outra saída, você me sufoca” eu tentei me explicar. “E você não fez por mim o que teria feito por qualquer outro” eu desferi um golpe certeiro.

Ela chorava compulsivamente e eu percebia seu peito arfando com tanto esforço. O choro consumia sua energia mas eu conseguia perceber que seu cérebro se mantinha em frenética atividade. O choro era uma manobra para minha distração enquanto ela conseguia tempo para um contra golpe. Aquela situação me sensibilizou, talvez mesmo pela minha falta de experiência. Ela ali chorando e direcionando seu olhar carente na minha direção. Pela minha falta de experiência, eu ainda não tinha certeza completa de que ela não gostasse mesmo de mim.

“Você foi o primeiro e agora vai me abandonar?” ela reiniciou. “Quem vai me querer?” Qualquer imbecil que goste de mulheres bonitas e magras e que tenha um carro, eu pensei comigo, guardando um golpe violento e certeiro, se ele se mostrasse necessário; você vai encontrar alguém que dê o que você merece, eu respondi. Ela mirava o infinito, chorosa, ainda com o cérebro em atividade. “Nós não podemos tentar de novo, recomeçar?” Eu acho que somos muito diferentes e além disso somos jovens demais. nós não poderíamos pelo menos esperar pelo verão?

Ela pegou na minha mão, talvez reconhecendo que perdia terreno e adotando alguma estratégia mais doce, possivelmente mais contundente. Além disso, eu acho que você precisa ser mais independente, eu continuei. Eu acho que não adianta você tentar ser carinhosa comigo agora, se em outros momentos você é grosseira e distante comigo e me deixa sem espaços para mim, me deixa sem tempo para os amigos e mesmo sem tempo para os estudos. Estamos talvez em fases diferentes de nossas vidas, mesmo tendo quase a mesma idade. Eu quero estudar e seguir com a minha vida.

A Chica mantinha socialmente uma pose que tinha uma certa elegância. Na intimidade, ela tinha até uma certa deselegância, com palavras inconvenientes e com uma insegurança crônica. Eu já não conseguia mais respirar e ela sempre afrouxava o aperto que exercia sobre mim. Uma experiência inata lha dava um jogo de cintura que conseguiria me manter em sangria continuada por um longo tempo. Quando ela percebia que passava dos limites, ela recuava e eu então cedia no ímpeto de fugir ao seu cerco. Ela talvez tenha sido a mais resistente no momento do abate, já que ela tentara seguir lutando. E ela lutou vigorosamente até o desfecho final.

Em determinado dia, eu desferi um primeiro golpe, dizendo “você pensa que me engana”. Eu percebi pelo canto do olho que sua expressão indicava ter consciência do que estaria por vir. Os dias seguintes foram de razoável paz e o programa da TV a cabo mostrava um locutor de noticiários, em um programa em língua inglesa, falando sobre conflitos na Ásia e, em meio às suas frases, disse “cease fire”. Foi como se nossos inconscientes se cumprimentassem com aquelas palavras. Mas a força de alguns acontecimentos não podem ser contrariadas e dias depois eu voltei à carga... “eu preciso de um tempo, não consigo respirar com você por perto!”

A Chica era uma mulher bonita. Ela tinha um corpo muito bem proporcionado e tinha uma altura razoável para uma mulher de constituição forte. A minha mãe teria sugerido em um passado distante que eu procurasse uma mulher com cintura fina e quadris largos: “é o que indica a vocação materna em uma mulher!” Após esse golpe, ela me encarou com um olhar profundo, aproximou-se de mim com uma postura que impunha um certo ar de sedução, fundamentado em seus atributos físicos, e disse: “eu sinto muito se eu te amo demais!” Ela sabia que despertaria o meu desejo. Eu sentia uma excitação tomar conta de mim. A presa se apresentava para o abate.

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Eu concluí então depois de muitas e muitas presas que precisava de ajuda e que essa ajuda poderia ser obtida com um médico. Um amigo me sugeriu o nome de um psiquiatra. Eu telefonei para o consultório torcendo para que ninguém atendesse o telefone. Uma voz muito tranquila atendeu e eu percebi que não era a gravação de uma secretária eletrônica. Eu comentei que eu considerava necessário conversar com um profissional como ele. Em minutos, já estava agendado um encontro para a semana seguinte. Eu consumi várias horas dos dias seguintes pensando em como poderia transcorrer aquela conversa. Eu imaginava os possíveis comentários e tentava imaginar que respostas poderiam ser ensaiadas. No final das contas, eu enfrentei esse desafio sabendo apenas qual seria a primeira frase dessa conversa. Eu começaria dizendo: “eu sou um caçador de vampiros!”


Lucas B. Friedmann

‎"I want to stay as close to the border as I can without going over. Out on the edge you see all kinds of things you can't see from the center." Kurt Vonnegut (1922-2007) Eu escrevo porque (eu não entendo e nem sei como explicar) era o que eu sempre quis fazer, mesmo antes de saber escrever.
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