Lucas B. Friedmann

‎"I want to stay as close to the border as I can without going over.
Out on the edge you see all kinds of things you can't see from the center." Kurt Vonnegut (1922-2007)

Eu escrevo porque (eu não entendo e nem sei como explicar) era
o que eu sempre quis fazer, mesmo antes de saber escrever

sobrevivendo às revelações / 1

Eles estavam aproveitando alguns dias de descanso mergulhando em algum desses paraísos do Caribe. Era um casal já com anos de convivência, com carreiras, com filhos e assim por diante. Mas ela tinha algo novo em mente, um plano que talvez não o incluísse.


Eles acordaram cedo naquele dia que seria o último antes da quarentena necessária para se pegar um avião e retornar das férias. Queriam aproveitar todos os minutos disponíveis, o que também servia para amenizar as saudades de casa e dos filhos e do pequeno Ajax, um spaniel de pouco mais de quatro meses.

Depositphotos_25776405_m-2015.jpg

Ela sabia que teria o dia seguinte para arrumar as malas, mas já ia separando as coisas para facilitar a organização final das malas. Até porque haviam muitas lembranças, inclusive aquele presentinho para a sogra e a lembrança para a senhora que colaborava com ela na limpeza da casa e na preparação das refeições.

Ela percebera a falta de uma bermuda, uma cueca e uma camiseta dele. Também percebera a falta daquele par de tênis que ele sempre levava como reserva. “Você não sentiu falta de algumas peças de roupa e daquele tênis que você reclama que é desconfortável?” ela lhe perguntou. “Não senti falta de nada” ele respondeu.

Ele já desistira de tentar ajudá-la nessas circunstâncias. Ela parecia exigir ajuda na organização de suas coisas. Ele tentava ajudá-la mas descobrira que preferia mesmo criar conflitos. Ele pelo menos sempre se adiantava aos esforços dela e deixava suas coisas organizadas. Assim ela se perdia na organização das suas coisas.

Ela já tinha tudo planejado. Pensava nisso há muitos meses. Na verdade, um pouco mais que um ano. Tinha elaborado todos os passos minuciosamente. Sabia os segundos a serem gastos com cada etapa do plano. Tinha medido esses tempos em vários passeios que tinham feito nos últimos anos a paraísos dedicados ao esporte.

Ela nem gostava tanto de mergulhar. Ela não via essa graça toda em observar peixinhos coloridos ou mesmo em observar tartarugas ou arraias. O objetivo para ela era claro e sempre foi claro. Ela queria uma forma de se livrar de um incômodo em sua vida de um modo que fosse sustentável. Ela era uma péssima mentirosa!

A ideia era, chegando ao ponto de encontro, logo entrar na água e dirigir-se aos locais que (vinha sempre dizendo nos últimos anos) ela tanto gostava. Ela queria logo ir admirar os peixinhos coloridos, as arraias e os pequenos filhotes de tubarão que se deslocavam pelo fundo naquela época do ano.

Ele era um acidente da natureza embaixo da água. Ele tentava acompanhá-la e, no fundo, ficava nadando como se fosse um zumbi desfilando em uma escola de samba. Nadava para lá e para cá como se não tivesse um objetivo específico. Parecia apenas deixar o tempo passar. Não se importava com arraias ou com pequenos tubarões.

Ela esperaria que ele começasse seu desfile esquizofrênico pelo fundo do mar e, quando ele estivesse distraído, ela nadaria para a superfície. Entraria no bote, soltaria a amarração da âncora e levaria o barco até a praia. Daí invadiria o hotel aos prantos pedindo que encontrassem seu marido, que tanto adorava mergulhar e que se perdera nadando em busca de peixinhos, filhotes de tubarões e assim por diante.

Mas por que justamente agora? Talvez ela não soubesse algum motivo para isso ou não tivesse mesmo quaisquer motivos. Era talvez fruto de imaturidade. O motivo, bem lá no fundo, era uma soma de pequenos desleixos, de pequenas implicâncias. E nessa soma deveria entrar um desejo dela de mudança e um desejo dela de encontrar alguém diferente e melhor que ele. Ela sempre queria mais.

Mas por que teria que ser assim? Talvez ela não soubesse de outras alternativas ou em sua ingenuidade ela não tivesse outras alternativas. Ela não o queria com outras mulheres e ela não conseguia imaginar uma vida na qual seus filhos tivessem que ser compartilhados. Ela não gostaria de encontrar alguém e ter que explicar que era uma mulher divorciada. Ela sempre queria tudo para ela.

Eles desceram juntos, com uma pequena sacola de mantimentos comprados em um supermercado próximo e alguns apetrechos de mergulho, para tomar apenas o desjejum. O resto do equipamento era alugado do hotel. Ela adorava vê-lo carregando todo esse peso. Ele odiava essa parte do dia em que ela o usava como carregador. Ele não era habilidoso e se sentia constrangido por isso.

Deixaram a carga em um canto do salão do restaurante, como todos ali costumavam fazer. Havia um funcionário em pé que sempre ganhava uma gorjeta. Parecia estar ali apenas para isso, porque não existiam casos de furto na ilha há muitos anos. Servia mais para passar segurança aos hóspedes, desejosos desse tipo de cautela.

Sentaram na mesa que vinham ocupando nos dias anteriores. Era um costume de ambos, muito sistemáticos. Ela serviu-se de frios e uma fatia de mamão. Tentou focar seus pensamentos na refeição e evitar que algum nervosismo ou algo inesperado tomasse conta de suas reações. Ele procurou coisas leves e um suco de laranjas.

Para ela foi inevitável pensar que aquela seria sua última refeição. Mesmo tentando não desviar seus pensamentos daquilo que estava mastigando, lembrou de alguns momentos que poderiam fazê-la desistir do plano minuciosamente arquitetado. Algum momento em família, alguma circunstância divertida. Mas a culpa por essas idéias nem era dele. Talvez não fosse mesmo por ninguém, senão por ela própria.

Ela mastigou as raspas da fatia de mamão misturadas com um pouco de iogurte esforçando-se por pensar em paisagens verdes, em água corrente ou outras coisas desse gênero. Essa habilidade ela tinha desde muito cedo: focar-se em algo e não perceber nada mais que a rodeasse. Talvez por isso essa frieza diante de um ato brutal e definitivo prestes a ser concretizado.

Ele sabia dessa habilidade dela e sabia, também, ela devia julgá-lo um bocaberta, como tantas vezes já o tinha ofendido em discussões mais sérias. Ela parecia se divertir com algum tipo de catarse coletiva. Mas depois de tantos anos de relacionamento tinha se acostumado com ela e não pensava em procurar outro relacionamento. Ele preferia sempre as alternativas que lhe exigissem menos esforço.

Quando estavam saindo em direção ao mar, ela disse “você não quer um cafezinho ali na beira mar?” Ele estranhou a proposta. “Você nunca nega um cafezinho e eu acho que vou ter que retornar ao quarto para um ‘número dois’. Já pensou se me dá essa vontade no mar?” Ele concordou. "Então vou tomar esse cafezinho!"

Deixaram os pesos ao lado de uma mesinha do café. Ela seguiu em direção à ala dos quartos. Ele sentou-se e procurou o atendente com os olhos. “Um cafezinho?“ o atendente perguntou de longe em um francês de escolas de idiomas. “Sim, sim”, ele respondeu em espanhol, quase gritando. Ali o barulho das ondas era intenso.

Olhou em torno e percebeu que soprava uma brisa leve. Uma dessas brisas de mudança. “Algo muito importante está para acontecer”, ele pensou com seus botões, como se diz. Ele reconhece que chegou a sentir uma certa felicidade nesse momento, pelo local, pela proximidade dela, pela iminência do café, pelo momento.

Alguns barcos singravam um mar que era mescla de um azul turquesa com tons de verde esmeralda. O céu tinha algumas nuvens leves. Nada que lembrasse a mínima chance de alguma precipitação naquele dia que se avizinhava perfeito. Mas aqueles nuvens estavam ali no céu. Elas ocupavam seus espaços.

Algumas pessoas conversavam em uma mesa à esquerda. Um homem aparentando ser italiano, muito gordo, falava a três ou quatro rapazes jovens. Ele gesticulava enfaticamente parecendo querer dizer algo que ia além de sua capacidade de expressão ou de sua capacidade de se expressar com as palavras que dizia.

Uma jovem e elegante senhora tomava algo de um copo que parecia ser de uísque. Ela parecia estar revendo anotações em uma caderneta. Eventualmente seus olhos prestavam atenção no que acontecia ao seu redor, mas seus pensamento estavam absortos no que ela escrevia. Talvez ela estivesse escrevendo alguma estória ou algum roteiro de cinema. Talvez ela estivesse escrevendo um conto policial.

Um casal em uma das mesas que fica bem à beira mar conversava com espalhafato, mexendo os braços no ar e gesticulando muito com as mãos, com o corpo e com o rosto. Prestando um pouco de atenção em sua conversa logo se percebia que não eram casados nem pareciam ter um affair. Havia ali um relacionamento comercial.

Eles conversavam sobre um livro que aparentemente ela estava concluindo e ele se encar-regaria de publicar. A conversa mais se parecia mesmo com uma conversa de botequim, por-que não pareciam querer cumprir algum objetivo. Eles conversavam ora sobre detalhes do texto e ora sobre grafismos na capa ou em ilustrações internas.

Mais parecia um livro de contos, já que muitos assuntos aparentemente eram abordados nesse livro. A autora talvez tenha escrito esse livro do mesmo modo como levava aquela conversa: um cigarro entre os dedos da mão direita, bermudas frouxas e uma blusa justa, sandá-lias atiradas sob a mesa e um copo de uísque.

Em certo momento, iniciaram uma discussão sobre o título desse livro e aí ficou evidente que seria um livro de contos. “Vampiros e lobisomens”, ela sugeriu. “É muito batido!”, ele respondeu. E, de fato, um título desses está muito batido. Acho que o último texto fala mais sobre o conjunto que compõe o livro, ele continuou.

Mas esse último conto mais parece uma lista de supermercado, ela disse, depois de uma longa baforada de fumaça do cigarro, acendido na chama do anterior. Sim, ele concordou, e acho que devemos substituir o título. Acho que seria melhor algo como: manual de sobrevivência ao fim dos tempos, ele sugeriu.

Ma, nu, al, de, so, bre, vi, ven, cia, ao, fim, dos, tem, pos, ela repetiu, vagarosamente. Não tenho opinião formada, ela disse, preciso amadurecer. Armaggedon, ao invés de fim dos tem-pos, não seria melhor? Não, ele respondeu, “armaggedon” é muito mais do que apenas “final dos tempos”.

Conversamos sobre isso, melhor, depois, ela disse. O que você achou daquele conto polici-al? Eu acho que está satisfatório, ele respondeu. O clima está bem montado, mas poderia ser um pouco mais longo e poderia caracterizar ainda um pouco melhor aquelas duas persona-gens secundárias que aparecem no começo da estória.

Se poderia ser um pouco mais longo, ela começou, então é porque está bom.

Quando o café chegou, ele perguntou “vocês aqui não falam espanhol?” em francês. O atendente respondeu que sim e disse que tinha antes arriscado em francês por causa de suas feições. E fazia um gesto quase grosseiro dando a entender que seu nariz avantajado dava a impressão que ele fosse um francês.

“Você quer dizer que por causa do meu nariz você achou que eu sou francês?”, ele perguntou. “Desculpe-me se o ofendi”, defendeu-se o atendente. Foi evidente sua posição de retaguarda. “Ok, sem stress!” E fez um gesto com a mão direita dispensando seus serviços. Ele não se sentiu incomodado, não completamente.

Ele então degustou o café sugerido por ela talvez por alguma segunda intenção. Ele desconfiava dela já há algum tempo. Ela parecia concentrada demais em seus próprios objetivos e ele sabia que em uma situação dessas ela estaria aprontando alguma surpresa. Ela parecia sempre estar aprontando algo.

Quando ela retornou do quarto para finalmente seguirem para o mar e os mergulhos, eles juntaram os pesos e seguiram em direção ao ancoradouro do hotel. O barco seria o mesmo do dia anterior. Os equipamentos de mergulho também. Já tinham feito esse tipo de passeio algumas vezes antes, mas nunca com tantos mergulhos em uma mesma viagem. Estavam passando várias horas por dia embaixo d’água.

CONTINUA...


Lucas B. Friedmann

‎"I want to stay as close to the border as I can without going over. Out on the edge you see all kinds of things you can't see from the center." Kurt Vonnegut (1922-2007) Eu escrevo porque (eu não entendo e nem sei como explicar) era o que eu sempre quis fazer, mesmo antes de saber escrever.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/literatura// @obvious, @obvioushp //Lucas B. Friedmann