Lucas B. Friedmann

‎"I want to stay as close to the border as I can without going over.
Out on the edge you see all kinds of things you can't see from the center." Kurt Vonnegut (1922-2007)

Eu escrevo porque (eu não entendo e nem sei como explicar) era
o que eu sempre quis fazer, mesmo antes de saber escrever

suspeita

Ele pressentia algo estranho há bastante tempo. Era como se ela quisesse lhe dizer algo. Até que um evento foi suficiente para desencadear uma série de outros eventos. Uma memória puxou outra. Até que ele finalmente se deu conta do que realmente estava acontecendo.


"Não há mal que dure para sempre."

Tudo começou quando eu encontrei uma revista dessas sobre comportamento sobre a mesa de centro da sala. Ela estava aberta em uma página específica, com uma reportagem específica... sobre traição. Era um comentarista de trivialidades que discutia a intromissão de terceiros na vida dos casais. Ele argumentava que os traídos não deveriam deixar que terceiros decidissem sobre o futuro do casamento. Então o próprio casal, depois da traição consumada, deveria decidir se continuaria ou não o relacionamento independentemente da participação desse terceiro.

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A revista estava evidentemente aberta e dobrada naquela página para que essa reportagem se fizesse visível. Era uma parte da revista na qual várias reportagens sobre comportamento apareciam uma página por vez. A mesinha de centro encontrava-se irritantemente limpa mas ocupada apenas por aquele abajur presente da sogra e por essa revista. O tal comentarista, um certo Paulo, ainda dizia que esse terceiro seria um coadjuvante que não mereceria respeito e que o casal deveria decidir pelo seu futuro sem aceitar opiniões ou intromissões de terceiros.

Eu tinha acordado minutos antes em uma quinta-feira, um dia que eu sempre reservava para um certo alívio das ocupações diárias. Depois de anos de carreira como executivo de uma empresa de investimentos, eu aprendera que as sextas-feiras eram sempre muito importantes e que as quintas-feiras deveriam ser reservadas para uma espécie de concentração para o enfrentamento das feras. Naquela quinta, a Cynthia havia viajado para Brasília, para uma reunião especial do comitê de crédito do banco no qual ela trabalhava já há quase dezesseis anos.

Havia ocorrido uma conversa dura alguns dias antes. Eu revelara meu descontentamento com o trabalho e ela argumentava que uma pesquisa recente apontava que esse descontentamento era privilégio da maioria da população ativa. Eu dissera que o ritmo de reuniões e de compromissos e a quantidade de frustrações estava me incomodando e ela perguntava quem pagaria as nossas contas e as viagens para a Europa e tudo que nós costumávamos fazer. Eu manifestara meu desejo de buscar uma colocação em alguma universidade e ela encerrou a conversa.

Os filhos não vieram por causa da correria do dia a dia. Sempre muitos compromissos, sempre agenda cheia, sempre muito pouco tempo para conversar. Além disso, como seria possível um período tão longo afastada do trabalho? De certo modo, os meus compromissos eram sempre os mais importantes, as minhas viagens sempre as mais demoradas e cheias de compromissos. Eu sempre carregava a responsabilidade pelas decisões mais importantes e pela falta de tempo e assim por diante, assim por diante, apesar de ser o único que percebia a nossa distância.

Aquela revista ficou ali por alguns dias. No sábado à noite eu e ela estávamos sentados na sala vendo algum desses programas de auditório, que passam ao vivo na TV, quando começaram algumas brincadeiras sobre adultério. Ela comentou “como esses homens podem ter coragem de fazer isso”. “Será que eles não percebem que uma situação dessas pode destruir a vida de várias pessoas?” Eu não comentei nada e, na verdade, eu não julguei importante comentar qualquer coisa. A indignação dela era tão evidente que eu comecei a me perguntar se ela queria me dizer algo.

Nos dias seguintes, eu percebi que ela tentava descobrir informações adicionais sobre os meus compromissos. Ela que era sempre tão desligada e desinteressada de tudo que dissesse respeito a mim, principalmente nos últimos anos. Eu dizia sempre pela manhã que ela estava bonita ou que estava interessante, já que ela sempre saia de casa uns quinze minutos antes de mim. Ela parecia nunca prestar atenção no que eu dizia e talvez nem fosse por desprezo, mas por simples desinteresse. Ao ponto desse interesse súbito dela por mim soar como algo falso.

Em um bar, com um amigo, por aqueles dias, eu ouvi dele a seguinte pergunta: “mas por que você não separa dela?” Eu respondi: “porque eu sempre penso, a cada novo dia, o que eu posso fazer para que aquele dia não se transforme em um inferno.” Para me separar, eu continuei, eu precisaria enfrentar alguns meses de vida muito ruim, para depois ver que tudo vai enfim melhorar. E não seria melhor enfrentar esses poucos meses? Sim, seria, porque eu penso agora que eu morro um pouco a cada novo dia que eu decido deixar tudo como está.

Talvez o fato mais marcante dessa trajetória tenha sido uma surpreendente pergunta dela para mim. Em um dia em que eu inadvertidamente sairia antes dela, veio a pergunta: “você está me traindo?” Eu estava já na porta e havia voltado, pelo menos parcialmente, para ouvi-la. Eu raramente me irrito e nunca demonstro o que sinto e aquela pergunta talvez me pegando desprevenido estava me irritando. “Eu te dei motivos para desconfiar de mim?” Ela daí desfez o clima de cobrança dizendo “não é isso, meu amor, é apenas para garantir!”

Dias depois, eu finalmente fora forçado a aceitar os fatos. Na janta, que nem sempre ocorria para mim e para ela simultaneamente ou mesmo em casa, como sempre acontecia nos nossos primeiros anos, ela entrou em um território muito delicado. “Olha só, eu estive com a Maria Antônia e, depois de uns exames, ela pediu que eu e você tomemos um remédio.” Eu perguntei, obviamente, “qual remédio?”, já sabendo o que poderia ser porque a Maria Antônia é uma ginecologista que a atende há vários anos. Ela me traiu, pensei comigo, e sem camisinha.

Eu assenti com a cabeça e, como se não fosse suficiente, ainda complementei dizendo “é claro que eu tomo esse remédio, não pode ser diferente, não é?” Eu não perguntei o que passava pela cabeça dela quando fez o que fez. Eu não reclamei dela ter desconfiado de mim e de ter me acusado. Eu não a acusei de nada e eu não disse nada, simplesmente nada. Eu simplesmente mantive silêncio e eu sabia que ela odiava isso em mim: a minha habilidade de manter e sustentar longos silêncios. Eu já havia aceitado o fato de que ela não seria minha companheira nesses silêncios.

Passada a janta, como de costume, eu sentei na sala para assistir um pouco de TV enquanto ela se arrumava e se deitava. Eu me recolhi um pouco depois. Na cama, estávamos deitados bastante separados, ao contrário do que acontecia nos primeiros anos do nosso casamento. Eu já tinha inclusive desenvolvido uma técnica para entrar embaixo dos cobertores reduzindo a chance dela ser despertada com o movimento dos tecidos. Tenho certeza que essa técnica sempre funcionava também por causa do interesse dela em não ser incomodada com a minha aproximação.

Eu sempre adormecia com grande facilidade. Apesar da correria da vida moderna e das atribulações do trabalho e tudo mais, eu nunca tive dificuldades para repousar à noite. Mas naquele dia, quando eu me esgueirei entre as cobertas, eu percebi que eu na verdade estava como que mergulhando em águas tranquilas em um lago de águas mansas. Meu corpo permanecera suspenso, flutuando, o nariz e a boca levemente acima da linha d’água. A respiração era pausada, permitindo que o avanço do movimento muscular fosse sincronizado com a flutuabilidade do meu corpo.

Ali, entre dois mundos, entre o respirável e irrespirável, entre o temporal e o intemporal, entre o real e o quase irreal, as imagens recentes desfilavam à minha frente, aguardando serem selecionadas em uma trama que se insinuava obrigatória e pretensiosa para mim. Um sorriso fluido que empurrava meu olhar para aqueles olhos verdes. As mãos que atraíam as minhas em brinquedos que me enredavam como um visgo quente. As pernas que me abraçavam quando em estertores de satisfação física que sempre se apresentava incompleta. Uma mistura incendiária de coisas boas com um tempero permanente com sabor de ácido.

Eu acordei então subitamente naquela madrugada, assustado com um terrível insight que se insinuava em meus pensamentos, meio conscientes mas ainda mergulhados em um sonho que eu não enxergava com clareza. Eu nunca me recordava de sonhos e não seria diferente naquela noite. Mas eu fora acordado não por um sonho mas por algum outro tipo de atividade inconsciente ou subconsciente. Eu de algum modo vislumbrara uma sequência de fatos e de acontecimentos que agora sim me davam uma certeza que eu ainda não havia me dado conta.

Em um dia, um olhar perdido ao tomar o cafezinho de sempre. Em outro dia, algumas palavras perdidas entre frases costumeiramente trocadas durante a janta. Um atraso em uma terça, para um almoço combinado no shopping. Um tempo inesperadamente livre em uma sexta à tarde, quando nas semanas anteriores sempre se empilhavam compromissos e e-mails para serem respondidos e conexões por skype que não poderiam esperar pela próxima segunda. Aquela viagem que havia sido anunciada como importantíssima e que havia sido inesperadamente cancelada.

Aqueles fluidos do sonho inacabado ainda se espalhavam entre os meus pensamentos e atrapalhavam o encadeamento adequado das ideias. Eu precisava lembrar de todas essas informações que apareciam ainda desordenadas em minha cabeça, para depois ordená-las em uma sequência que parecesse, provavelente uma sequência temporal razoável e coerente. Eu me levantei e fui até a cozinha em busca de um copo de água. O relógio da sala indicava duas e quarenta e cinco da madrugada. Eu me encostei no balcão da pia, sentia a friagem da pedra, quem sabe esse ponto de apoio não funcione como uma âncora, concedendo alguma solidez aqueles tantos pensamentos imperfeitos e ainda embaralhados pelo éter de um sonho inacabado e ainda por cima condenado em seu berço ao esquecimento?

É incrível como nesses momentos as melhores lembranças aparecem vivas e quentes no meio de tantas imagens tristes e profundamente ácidas e corrosivas. Um olhar cumplicioso surgido entre comentários da vida cotidiana trocados durante um jantar despretensioso. Um sorriso roubado visto durante a condução do carro em uma viagem subindo a serra. Qualquer pequeno momento.

“Melhores lembranças” que, é verdade, já parecem desbotadas e perdidas em tempos antigos. Aquelas mãos que se procuravam e se perderam no tempo. Aqueles olhares distraídos e satisfeitos que já estavam escondidos atrás de escudos ansiosos e nervosos. Os descuidos que antes evitados agora pareciam não exigir mais qualquer prevenção. Como sintomas de uma doença que vai se alastrando.

Já não era uma questão de tomar coragem para executar uma missão. Eu sabia o que deveria ser feito e eu estava disposto a fazê-lo. Eu estava apenas procurando um melhor momento para que a execução que eu me propunha ocorresse com eficiência, com limpeza, com exatidão.

Eu não tinha receios acerca da resposta dela e eu principalmente não tinha medo de um não. Era necessário apenas ser cirúrgico. Na verdade, o que precisava ser dito não envolvia a necessidade de uma resposta. Eu precisava dizer algo que a convencesse do que eu realmente queria.

Eu permanecia na sala sentado, esperando que ela chegasse. Havia uma viagem e ela estaria retornando naquela janela entre as 16 horas e 30 minutos e as 17 horas e 15 minutos. Tudo dependeria do tráfego aéreo e do tráfego terrestre. E dependeria ainda da descarga de bagagem e assim por diante.

Ela finalmente chegou, movimento pressentido quando o elevador foi acionado alguns andares abaixo do nosso. Ela chegou ao apartamento, abriu a porta, entrou na sala e eu fiz o que deveria ser feito. O que aconteceu perde importância. O que de fato aconteceu naqueles minutos não importa.

Quinze minutos depois, veio finalmente a pergunta. “Por quê?” As justificativas se empilhavam em minha cabeça, mas eu não satisfaria seu desejo mundano por discussões acaloradas onde os nossos estômagos colocariam para fora o que fora mal ou muito mal digerido nos últimos anos.

Face o meu silêncio, veio a segunda pergunta. “Por que agora?” Como se fizesse diferença para ela se fosse agora ou se fosse em mais dez anos. Ela seguiria com essa vida dupla. Ou seria uma vida tripla? Ou quádrupla? Eu nem gostaria de saber. Eu realmente não gostaria. Na verdade, nem de imaginar.

Eu simplesmente não quero mais, eu respondi. Mas o que você não quer mais? Eu não quero mais, e pronto. Eu dediquei os meus melhores anos para este casamento e você quer agora terminar porque “simplesmente não quer mais”? Eu simplesmente não quero mais, eu repeti (irritando-a, eu percebi).

É assim que as coisas acontecem, eu disse, conclusivamente. As pessoas são livres e decidem o que querem para si. Anos atrás, nós decidimos que seria melhor para nós que nos casássemos. Eu decidi que gostaria de me casar com você. Agora eu já decidi e estou te comunicando que eu não quero mais. Eu simplesmente não quero mais. Eu sei que tem a ver conosco, mas não adianta apenas um querer.

Ponto final.

Eu então finquei firmemente os pés no chão e acordei desse sonho desperto, esquizofrênico e insalubre. Independentemente do modo como as coisas viessem a se desenrolar, eu ainda deveria decidir se o que me havia surgido poderia ter relação com a verdade e-ou com a realidade. Meu amigo, no bar, depois, diria “você ainda precisa de provas?” Eu ri comigo mesmo e respondi para mim mesmo que “não é uma questão de provas, mas eu deveria deixar o sangue esfriar um pouco.” Qualquer decisão tomada no seio de uma crise pode estar condenada ao fracasso.

Eu caminhei pela sala retornando ao quarto e desviei meus olhos do retrato que mostrava eu e ela em um desses momentos de felicidade, como um casal, anos antes, com a nossa sobrinha. Eu temi não reconhecer mais a bela e doce menina com quem eu havia me casado já há tantos anos. Eu estaquei no meio da sala, subitamente atropelado pela consciência de que já não havia para onde retornar durante a madrugada. O local de onde eu havia levantado alguns minutos antes já não era mais o mesmo. Eu decidi então terminar aquela noite dormindo no sofá da sala.


Lucas B. Friedmann

‎"I want to stay as close to the border as I can without going over. Out on the edge you see all kinds of things you can't see from the center." Kurt Vonnegut (1922-2007) Eu escrevo porque (eu não entendo e nem sei como explicar) era o que eu sempre quis fazer, mesmo antes de saber escrever.
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