Lucas B. Friedmann

‎"I want to stay as close to the border as I can without going over.
Out on the edge you see all kinds of things you can't see from the center." Kurt Vonnegut (1922-2007)

Eu escrevo porque (eu não entendo e nem sei como explicar) era
o que eu sempre quis fazer, mesmo antes de saber escrever

a conquista de marte

Os alunos estavam reunidos em torno da professora ansiosos por ouvir a estória que ela contaria naquela noite no acampamento. Era uma estória clássica sobre um grupo de pessoas que escalariam um dos montes mais difíceis de serem escalados no planeta Marte. O escalador se tornaria uma lenda.


"Devemos fazer mais pelos outros do que por nós mesmos."

As crianças concluíram suas tarefas e logo se reuniram no centro das barracas para um dos momentos mais esperados do dia. A professora lhes contaria uma estória, daquelas que somente ela conhecia. Muitos ali tinham aceitado passar esses dez dias no campo apenas por causa desses momentos em que todos estariam reunidos ouvindo o que apenas ela estivesse falando. Alguns tiveram que insistir muito com seus pais para serem liberados de suas outras tarefas e poderem passar esses dias entre os amigos, com a professora, naquele acampamento.

A professora deveria ter algo entre cinqüenta e cinqüenta e cinco anos. Talvez um pouco mais. Ela era professora de ciências para os alunos que terminavam o primeiro ciclo de ensino e se preparavam para decidir se seguiriam estudos nas áreas científicas, nas áreas humanas ou nas áreas médicas. Ela era notável em tudo que dizia respeito com seu relacionamento com os alunos. Nada a obrigava a estar ali com eles, no meio do mato, no meio do nada, mas ela sempre, anos após ano, organizava essas excursões. Diziam até que era um tipo de vocação.

Eram sempre entre quinze e vinte alunos em cada turma, que passava sempre mais que dez e menos que vinte dias “fora do convívio familiar”, como ela sempre dizia. E todos os anos ela acabava organizando duas ou três listas de alunos interessados nessas saídas de campo. O filho do diretor da escola sempre tinha cadeira cativa em pelo menos uma saída por ano nas últimas temporadas. Alguns amigos se revezavam tentando agradá-la com presentes eventuais para que seus filhos pudessem ser encaixados nas longas filas que se formavam por vagas em seus acampamentos.

A estória daquela noite era uma das mais esperadas e uma das mais comentadas por quem já participara de algum dos acampamentos. Era a estória de um alpinista convidado para escalar um dos montes mais perigosos no planeta Marte, como parte de uma campanha para o lançamento de um novo traje para os colonizadores instalados em estações marcianas. O processo de "terra-formação", como era denominado, já estava em andamento há algumas décadas e já havia mais oxigênio na atmosfera, mas as condições no planeta vermelho ainda não eram as ideais.

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“O alpinista Daudlin Cortez certamente sabia que se encrencara aceitando a proposta milionária que lhe fizeram para que escalasse o Monte Olympus, em Marte. A sua decisão de aceitar o convite da agência espacial e escalar a famosa elevação marciana havia surpreendido a todos. A namorada, futura esposa, sabia que ele odiava viagens espaciais. Os pais achavam tudo aquilo uma grande loucura. O irmão mais jovem talvez fosse o único que, intimamente, torcia por ele, apoiado também pelo amigo de infância, colega de escaladas. Ele era dado a desafios.

“Daudlin tinha motivos bastante claros em sua mente. Havia ganho a incrível quantia de duzentos mil dólares para apenas aceitar. Se chegasse a Marte e supervisionasse a instalação da equipe, mais quinhentos mil dólares. Se fincasse uma bandeira com o nome dos patrocinadores nas regiões mais altas do monte Olympus receberia nada menos que dez milhões. E o contrato estipulava ainda diversas quantias, em função do quanto se aproximasse do objetivo. Fora contratos de publicidade... Teria sido realmente muito difícil recusar.

“Uma bandeira fincada no pico, um feito unanimemente considerado impossível, estava associada a uma quantia em dólares americanos com nada menos que dez dígitos. Daud, como a namorada gentilmente o tratava, nem tivera coragem de ler esse valor. (Obviamente força de expressão... ele não deixaria de ler justamente esse valor.) Ele sabia que sua força de vontade o levaria até lá se ele tivesse lido o valor proposto. Era na verdade nada mais que apenas mais um desafio em sua vida de tantos desafios impostos por ele mesmo como uma forma de auto conhecimento.

“O projeto havia recebido o pomposo título de "A Conquista de Marte". Era patrocinado por várias empresas e pelos principais governos. Uma empresa que produzia trajes de sobrevivência em Marte queria divulgar seu último produto, que garantia amplos movimentos, e queria ainda encaminhar uma venda ao Exército. Uma empresa de energéticos queria divulgar sua bebida, argumentando que ela aumentava a capacidade aeróbica das pessoas que a consumissem.

“Daudlin não suportava o desdém com que o povo era tratado. Imaginem só... um alpinista em outro planeta não enfrenta a rarefação da atmosfera verificada nas maiores altitudes. Por que então vender um energético? Por que não dizer ao povo e a todos que podem ser levados a sonhar com uma nova vida em Marte que o tal Daudlin Cortez subirá (ou subiu, na eventualidade de realmente conseguir) com tubos de oxigênio carregados no traje espacial?

“O maior interessado era o próprio governo. A colonização de Marte nunca havia dado certo, pois de todos os colonizadores que para lá se deslocaram, talvez dois em cada dez prosperaram. Os outros perderam familiares, não se deram bem com os trajes de sobrevivência, ou se entregavam ao alcoolismo. O fracasso era devido principalmente aos erros de avaliação sobre os sucessos das metodologias empregadas para tornar a atmosfera marciana parecida com a terrestre.

“E mais do que nunca a colonização precisava dar certo. A Terra enfrentava graves problemas com a super população: abastecimento de água, suprimentos de energia, esgotamento sanitário, produção de alimentos. A colonização do espaço sempre exige pessoas bem treinadas, mais do que a própria colonização de planetas. E a Terra agoniza com uma grande massa de pessoas destreinadas e despreparadas para qualquer coisa que foram ficando para trás dos grandes projetos.

“Os governos insistem nos mesmos erros do passado... Mantêm desequilíbrios enormes na distribuição de renda, a boa educação é acessível para uma parcela pequena da população, as políticas de incentivo à agricultura e às pequenas indústrias são confusas e pouco eficientes. Demonstram eficiência quando lidam com negócios pessoais e quando precisam liquidar líderes e pessoas de bom senso. Os randes interesses seguiam prevalecendo.

“Daudlin a todo instante pensava em retornar. A colonização de Marte não era assunto seu. E a vista do heliporto, onde o tal Olympus dominava a paisagem, à nordeste, era assustadora. Os ventos poderiam se tornar fortes o suficiente para arrancar quem estiver sobre o solo. E mesmo o frio apresenta-se como um companheiro inseparável, colocando à prova qualquer sistema de climatização dos trajes espaciais. E havia ainda as tais tempestades de areia.

“Mas pensava também no que poderia ser feito com os recursos obtidos. Poderia empreender quantas escaladas quisesse. Poderia planejar suas escaladas sem prestar tantas contas aos malditos patrocinadores. Poderia mesmo empreender ações comunitárias, talvez compensando a má iniciativa de vender sua imagem por alguns tostões para esses interesseiros que querem trazer infelizes para este planeta estéril. Uma decisão bastante complexa e difícil.

“Durante toda a vida Daud teve de contar o pouco que tinha. Enquanto estudava era quase miserável. Fazia malabarismos para fechar os finais de mês e para poder comprar alguns poucos livros. Tudo era sempre muito e muito difícil.

“Então descobriu as alturas, e descobriu que nelas poderia viver sem dinheiro. Enquanto escalasse poderia viver sem dinheiro, mas precisaria dele para poder escalar. Daí ele decidiu colocar alguém atrás do dinheiro.

“E vinha adiando o casamento por não se sentir capaz de manter uma família. Claro que talvez por uma série de inseguranças e pelo passo grande mesmo a ser dado, as responsabilidade e tudo o mais. Mas também porque queria seguir escalando.

“Mas desde sempre teve pouco além do que era estritamente necessário. Roupas, calçados, livros, alimentação... tudo sempre na justa medida. E se em algum mês ousasse se presentear com algo, no seguinte devia entregar a alma.

“A equipe da escalada era composta por sete homens, além do próprio Daud. Cinco desses sete eram conhecidos seus, companheiros freqüentes de escaladas ou velhos amigos, também escaladores. Dois eram observadores, um da empresa responsável pelos equipamentos para transformação da atmosfera marciana e outro do Exército das Nações Unidas.

“Um deles, Sean, um escocês que conhecera no ginásio, o acompanhava há muitos anos. Compartilhavam planos e projetos, e indignações sobre tudo que dizia respeito às condições econômicas e sociais do mundo de seus dias. Uma forte contribuição para que Daud assinasse o contrato fora dada por Sean. E justamente esse amigo lhe conduziria por um caminho sem volta...

“O início da escalada estava marcado para um certo dia 16 de junho na Terra, ou o dia trezentos e vinte e seis do centésimo nonagésimo sétimo ano do calendário marciano, cuja contagem fora iniciada com a primeira colônia permanente instalada no planeta vermelho. É importante esclarecer ainda que o projeto de subida não incluía trechos tão longos na escarpa do monte. E nem seria necessário chegar ao topo para dar a missão como cumprida.

“A subida foi efetuada em alguns dias e pôde se considerada como completamente exitosa. A subida em si não representara dificuldade alguma. Os ventos que tantos descreviam como furiosos não representaram qualquer barreira. O frio era perfeitamente compensado pela climatização artificial dos trajes. Os obstáculos que seriam enfrentados em uma subida convencional, na Terra, ali nem mereciam respeito. Os alimentos levados tinham sido suficientes.

A verdade é que o traje era bastante bom e facilitava muito a vida naquele planeta desolado. A terraformação já disponibilizava uma quantidade razoável de oxigênio na atmosfera, ao ponto que uma falha no traje espacial não decretaria a morte de seu usuário. Mas as condições que eles enfrentavam eram de fato condições bastante inóspitas. Esse traje tornava suas vidas confortáveis, ou pelo menos não tão difíceis.

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“Mas nem tudo saiu como planejado...

“Logo depois do início da subida, mais ou menos quando todos perceberam que seria simples, Sean procurou Daud quando se encontraram isolados do resto do grupo. Daud, disse ele, preciso conversar com você sobre algo muito sério. Fui procurado por um grupo de pessoas na Terra, antes de viajarmos, que podem usar o seu discurso aqui, quando fincarmos a bandeira, para iniciar algo muito grande, que pode acabar com o mundo como o conhecemos.

“Daud não entendera exatamente o que Sean queria dizer. Não estou entendendo, ele disse. Onde você quer chegar? O que propuseram para você. O que você está me trazendo? Como Sean demorou a seguir, Daud encarou-o firmemente.

“Se você confia em mim, disse Sean, diga isso no momento do discurso. E passou a Daud um bilhete com as seguintes palavras... "Nós devemos efetuar esforços como esse para controlar nossas próprias vidas e fazer delas o que bem entendermos!"

“Os dois se olharam fundo nos olhos. Quantos estão conosco?, perguntou Daud. O nosso grupo desconfia que algo grande esteja sendo preparado, respondeu Sean, mas eu receio que tenhamos que conter os dois observadores externos.

“Depois de pensar por instantes, Daud disse que aceitava dizer essas palavras ao invés do discurso previamente acertado. Mas como saberemos que essas palavras serão ouvidas pelas pessoas certas? Como saberemos que deu tudo certo?

“Esse meu relógio tem um led vermelho improvisado, disse Sean mostrando um detalhe em seu relógio de pulso. Vê aqui? Esse led acenderá minutos antes do discurso se tudo estiver certo. Se ele não acender é porque algo não saiu como o planejado, e então você poderá proferir o discurso acordado.

“Daud permanecia pensativo. Eu tenho impressão que nós podemos morrer aqui, e nunca mais retornar, comentou. O que você acha disso? Eu acho que devemos estar preparados para tudo. E ewu não sei se estou pronto para morrer.

“Eu não me permiti pensar muito nesse tipo de possibilidade. Mas acho que as conseqüências podem compensar. E riu... dizendo "Pense que certamente no futuro existirão escolas com os nossos nomes. Ou institutos de pesquisa ou universidades."

“Eu talvez prefira pensar que podemos estar reescrevendo aquele romance de H.G. Wells... como é mesmo o título?, "a guerra dos mundos". De um modo diferente. De um modo pacífico.

“E não retornaram a esse assunto até o final da escalada e o momento da decisão de fincar a bandeira. Poderiam ter continuado, mas o clima não favorecia. A partir do local em que pararam, os ventos estavam mesmo muito fortes. Capazes de conforme o que era contado arrancar as pessoas do solo.

“Daud não conseguia esquecer o que haviam conversado. As palavras lidas naquele bilhete não lhe saiam da cabeça. Na verdade, de tanto repassá-las já não se lembrava com exatidão das frases como as havia lido. importante seria o fim pretendido.

“"Nós devemos efetuar esforços como esse para controlar nossas próprias vidas e fazer delas o que bem entendermos!" Ou... Nós precisamos efetuar esforços desse tipo para controlar nossas vidas e fazer delas o que bem entendermos.

“Nós devemos realizar esforços como esse para controlar nossas próprias vidas e fazer com elas o que bem entendermos. Nós devemos nos esforçar como se fôssemos escalar o maior monte do mundo, controlar nossas vidas e fazer o que bem quisermos.

“O acampamento fora instalado próximo ao local onde a bandeira havia sido cravada. Instalaram-se com algum conforto para poder passar algumas horas ali. E para depois descansar e poder empreender uma nova caminhada, que seria o retorno ao ponto de partida.

“Daud tentou distrair-se trabalhando na instalação do acampamento. Tantas e tantas vezes repetiu o mesmo ritual, em condições mais difíceis... não há motivos para não se deixar distrair por ações já tão conhecidas...

“Uma rede interplanetária de noticiosos estava sendo estabelecida para a transmissão de uma entrevista. Por rádio, a equipe havia sido informada que haveria uma defasagem de várias dezenas de segundos entre o que Daud dissesse e o que os espectadores ouvissem. Em Marte, os espectadores assistiriam ao vivo à entrevista.

“As frases retornavam... Esse esforço deve servir como exemplo. Tudo o que quisermos pode ser alcançado. Devem deixar de decidir por nós. Devemos aprender a decidir. devemos aprender o que decidir. Há tanto para ser dito...

“Momentos antes do início da entrevista, uma série de acontecimentos na Terra e em Marte provocariam grandes mudanças nos rumos da História. Ações demorada e minuciosamente planejadas eram deflagradas, com o objetivo de iniciar uma revolução de proporções ainda não imaginadas.

“Em várias grandes cidades na Terra alguns grupos haviam sido treinados para dar início a ações que visassem enfraquecer os governos de seus países. Atentados contra sedes de governo, arrombamentos de bancos e de empresas financeiras, derrubada de símbolos nacionais inadequados.

“Algumas das principais indústrias foram tomadas pelos funcionários e paralisadas até segunda ordem. Vastas áreas rurais foram pacificamente tomadas de seus proprietários. Aeroportos e estações de trem ou ônibus foram fechados.

“A população civil era instruída a permanecer em casa.

“As estações de rádio e televisão e os provedores de acesso às redes de computadores foram rapidamente tomadas visando preparar o discurso do “conquistador de Marte”.

“O coração de Daud disparava. Parecia estar esperando pelo aviso. Que viria de um momento para outro. Por mais que estivesse preparado, soaria como inesperado. E se lhe faltasse voz?

“Então, o led no relógio de pulso de Sean acendeu. E foi como se o tempo tivesse parado... Sean e Daud se entreolharam. Daud não sabia a extensão de todos os acontecimentos que levaram àquela pequena luz vermelha.

“Um escalador da equipe sacou uma arma e apontou aos dois observadores, orientado-os para que se algemassem. A tensão era evidente no rosto de todos ali presentes.

“A rede estava completa e o microfone do traje de Daud estava aberto para a humanidade. O que aconteceria a seguir, seria contado por gerações e gerações... seria mitificado...

“O led ter acendido significava que as ações planejadas haviam em grande parte alcançado sucesso. E que muitas pessoas, talvez milhares de milhões, estariam ouvindo. E, do mesmo modo, talvez em breve encontrassem a morte.

“"Este meu esforço serve para mostrar que tudo que quisermos pode ser alcançado", ele começou, aos gritos, "vamos lutar para que deixem de decidir o que devemos fazer..." Essas frases haviam sido lembradas e relembradas e repassadas milhares de vezes.

“Essas frases não eram exatamente iguais às que estavam escritas naquele primeiro bilhete que Sean mostrara para Daud, mas eram o que ele conseguira dizer naquele momento.

“Em vários lugares iniciaram-se lutas armadas pelo controle das emissoras e dos provedores. Multidões tomaram as ruas, e exércitos tentaram contê-las, acumulando, ao longo dos dias seguintes, pequenas vitórias e pequenas derrotas.

“Em alguns meses, países inteiros foram fracionados. As antigas fronteiras deixaram de existir. Muitas cidades foram desfeitas. As estradas tornaram-se intransitáveis. Os campos serviram como refúgio...

“Em Marte, as colônias foram pacificamente tomadas, em um movimento mais organizado e tranqüilo, e em algumas horas passaram ao controle de grupos representantes das classes trabalhadoras.

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“No acampamento, um escalador chamado Jonas, que acompanhava Daud há mais de dez anos, sacou uma faca e a cravou em seu abdômen instantes depois do início das duas frases que mudaram a história. Os outros o contiveram, mas já era tarde. Daud estaria morto dali alguns minutos, mas já tinha se tornado uma lenda!“


Lucas B. Friedmann

‎"I want to stay as close to the border as I can without going over. Out on the edge you see all kinds of things you can't see from the center." Kurt Vonnegut (1922-2007) Eu escrevo porque (eu não entendo e nem sei como explicar) era o que eu sempre quis fazer, mesmo antes de saber escrever.
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