Lucas B. Friedmann

‎"I want to stay as close to the border as I can without going over.
Out on the edge you see all kinds of things you can't see from the center." Kurt Vonnegut (1922-2007)

Eu escrevo porque (eu não entendo e nem sei como explicar) era
o que eu sempre quis fazer, mesmo antes de saber escrever

cass

Ela tinha esse costume de privilegiar a verdade acima de tudo. Ela dizia a verdade e mesmo procurava oportunidades para dizer a verdade. Ela se alimentava desse momento que parecia ser mágico de poder mostrar aos outros que a verdade estava com ela. Seu nome era Cassandra.


“Eu me arrependo profundamente”, ela ouviu ele dizendo. Aquilo penetrou sua personalidade de um modo agressivo e que se tornaria permanente. Ela era jovem e alguém poderia até mesmo argumentar que ela não tinha uma personalidade sólida formada (e que os efeitos dessa frase portanto se dissipariam). Talvez argumentassem que ela teria ainda uma personalidade em formação. Mas aquela frase, dita daquele modo objetivo e direto, despedaçou a personalidade que ela tinha naquele momento. Ele estava ali, enraivecido, e ela parecia não acreditar.

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Ele disse essa frase e se calou. E seguiu encarando-a, como que observando os efeitos do ataque desferido à queima roupa. Ela permaneceu como estava... em pé, rígida, olhos fixos, estonteada pelo ataque. Ele queria que ela reagisse porque ele queria seguir batendo, tamanha a sua raiva. Ela preferia ficar quieta porque ainda apenas instintivamente ela sabia que não seria uma reação despreparada que lhe daria o alimento que para uma reação efetiva. Ele queria mais e ela não sabia o que fazer. Ele, dali, seguiu sua vida. Ela permaneceria mortalmente ferida.

Ele, como se tivesse esgotado uma contagem até cem ou mil, percebeu que nada de novo aconteceria e se afastou. Deu alguns passos ainda olhando para ela. Depois se virou e seguiu. Ainda deu uma olhada para trás (parecendo não ter receio de se tornar uma estátua de sal). Ele sentia em seu corpo uma energia excessiva ainda em movimento. Ele sabia que era controlado e agradecia a esse auto controle, que fora me parte aprendido com o exemplo dos pais, mas também exercido com uma vida de equilíbrio, agradecia enfim por não ter excedido algum limite perigoso.

Ela viu que ele se afastava e percebeu inclusive quando ele saiu de sua vista. Mesmo assim não conseguia entender o que tinha acontecido. Não conseguia relacionar os fatos. Não conseguia identificar a origem desse ataque desferido com tanta violência e de fato com tanta efetividade. Enfim, depois de transcorrido um lapso de tempo que ela não conseguia dimensionar exatamente, deu-se conta de onde estava e caminhou lentamente até um assento em uma parada de ônibus. Sentou-se e tentou fazer algo que poderia ser definido como uma reinicialização em um computador.

Ele tinha um relacionamento com uma menina que trabalhava na farmácia mas sentia uma atração um tanto inexplicável pela tal moça loira com quem vinha conversando no ônibus, todos os dias, quando retornavam do centro da cidade. Eles conversaram e ela fora sua confidente, ouvindo os detalhes dessa história que na verdade nada tinha que não fossem apenas elementos simples. Eles tinham conversado sobre esse assunto duas ou três vezes. Ela não pensou duas vezes quando teve uma oportunidade para contar esses detalhes todos à sua amiga que trabalhava na farmácia para pagar as mensalidades da faculdade.

Ela na verdade não tinha dificuldades em ligar os fatos e seguir o caminho dos motivos que o levaram a desferir ataque tão covarde. Ela via os fatos claramente. Mas ela não conseguia entender porque tudo aconteceu do modo como aconteceu. Era a verdade, pura verdade, e a amiga da farmácia merecia conhecer os fatos. Ele não poderia ter feito o que fez, ele não tinha esse direito, já que era a verdade aquilo que ele tinha falado para ela e que ela tinha ido contar à amiga da farmácia. Era a verdade talvez em estado muito puro e que deveria chegar aos ouvidos dela.

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No dia seguinte, sentaram-se ela e uma amiga frente a frente em uma mesa do McDonald’s próximo à escola de ensino profissionalizante que frequentavam. Ela queria relatar o que acontecera e esperava uma opinião da amiga que a acompanhava desde o ensino básico. Foi assim, ela começou a contar, ele me contou que vinha conversando com uma moça no ônibus há algum tempo e tinha dúvidas sobre ficar com ela ou seguir com a namorada. Apenas dúvidas, perguntou a amiga, ou algo aconteceu? Eu acho, ela defendeu o amigo, que é apenas algo na cabeça dele e na cabeça dessa menina, por enquanto.

Deixe eu adivinhar, disse a amiga, isso foi suficiente para você ir contar para a namorada dele. Ela ficou surpresa e expressou isso dizendo: por que você diz isso desse modo? Minha amiga, não é a primeira vez! Como assim não é a primeira vez? Minha amiga, você não lembra o que aconteceu quando nós estávamos no segundo ano do ensino médio? Como assim o que aconteceu? Na verdade, não é exatamente o que aconteceu, mas o que você fez.

Você está se referindo ao que a Cláudia fez com o Márcio? Não, minha amiga, o que a Cláudia fez é algo que acontece todos os dias em todos os lugares do mundo desde que o mundo é mundo! Mas eu via ela aos beijos várias vezes com aquele menino que fazia medicina. Eu vou repetir então, disse a amiga, porque pelo jeito você não entendeu ainda: é o que você fez!

Como assim "o que eu fiz"? Minha amiga, eu te adoro, mas você precisa acordar!

Acordar do que, eu não estou dormindo! Minha amiga, veja a verdade!

Mas que verdade, essa que eu faço questão de divulgar? Não é isso.

É a verdade, por que escondê-la? E por que contá-la?

Já sei, a amiga interrompeu, você contou pra ele o que viu.

Ela então, agora acordada para os fatos, começou a entender.

Eu contei, ela confirmou.

Acho que você sempre fez isso sem perceber, né?, continuou a amiga.

Isso o quê?, ela perguntou, tentando entender o que vinha acontecendo.

Você tem que entender que não precisa sempre dizer a verdade.

Mas o problema é dizer a verdade?

Mas por que dizer a verdade?

Porque é a verdade!

Mas as pessoas nem sempre querem ouvir a verdade.

Mas é a verdade, ela disse insistindo.

Eu não entendo o que te faz ter tanta certeza que é a verdade.

A verdade é o que é.

Não, o que você diz que é a verdade, é algo que você não sabia e que você acha que alguém não sabe. E você se diverte levando essa verdade com rapidez a quem você quer contar.

Dias depois, em uma aula de literatura, o professor se exaltava mostrando aos alunos o quanto a mitologia grega era bela e desafiadora. Ele se exaltava com movimentos teatrais de mãos e braços e mesmo com o corpo todo, principalmente porque ele próprio era apaixonado pela cultura helênica. Ele falava sobre histórias de amor entre divindades e semidivindades e entre divindades e mulheres mortais.

Ela acompanhava as aulas com um interesse médio, sempre tentando absorver aquilo que poderia se mostrar mais importante para sua carreira. E literatura parecia não ser tão importante para alguém que fazia as disciplinas de um curso técnico em eletrônica.

Em determinado momento, ela sentiu um gelo percorrer-lhe a espinha, porque ouviu ele comentar sobre uma maldição lançada sobre uma certa mulher que estaria condenada a sempre contar a verdade. Nem era mais uma novidade, mas naquele momento ela se dava conta.

E o pior é que ela também estaria condenada a sempre ser desacreditada pelo que poderia vir a dizer. Em outras palavras, ela seria sempre desacreditada por sempre dizer a verdade. Ela veria a verdade antes que a verdade fosse inteligível às outras pessoas.

O professor continuava se contorcendo em devaneios envolvendo a mitologia grega. Os gregos sabiam de tudo, muito antes de todos nós, ele dizia. Os sentimentos que nos martirizam ou que nos fazem felizes hoje em dia, já estavam lá, entre os gregos.

Imaginem vocês, que o maior de todos os deuses era o deus do tempo. O que dizemos, às vezes, para nos motivarmos frente a algum obstáculo? Que o tempo é o melhor aliado.

E depois vinham os deuses da guerra e da sabedoria. As forças que nos impulsionam para frente e as forças que nos permitem frear nossos impulsos.

Ele continuava seus comentários e ela tinha a maldição da verdade desacreditada na cabeça. Estaria ela amaldiçoada? Seria ela a própria maldição?

A amiga estava assistindo a mesma aula, duas fileiras ao lado, e lhe enviou uma mensagem de WhatsApp. A amiga dizia: "A tua mãe sabia dessa tal Cassandra dos gregos. Foi por isso que ela te deu esse nome?" Ela respondeu: "Acho que uma coisa não tem a ver com a outra!"

A amiga retrucou: "Acho que não tem mesmo a ver. A Cassandra da Grécia sabia a verdade e não era levada a sério. Já você pode saber a verdade, mas você se alimenta de contar essa verdade sem se preocupar se está machucando ou prejudicando as pessoas!"

Ela se assustou com a agressividade daquela mensagem e juntou suas coisas e se levantou sem pensar em nada e deixando tudo para trás. Depois de ter cruzado a porta, ela se deteve por um momento para escrever uma última mensagem para a amiga: "vá pro inferno!"

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Seguiu caminhando pelo corredor em direção à saída, sabendo que algo deveria mudar. Viu alguns colegas no corredor conversando, alguns próximos à entrada da cantina, outros no cruzamento de dois corredores. Estranhamente, eles pareciam estar falando dela. Muito estranhamente.

Cassandra?, ela ouviu perguntarem, reconhecendo a voz. É você?

Eu não sou Cassandra, ela respondeu, conclusivamente, enquanto se virava para ver de onde teria vindo a pergunta. Imediatamente lembrou-se do professor e da maldição. Ela se lembrou da amiga que poderia neste momento estar dizendo: "se você se virou é porque você tem consciência do que faz e porque queria saber quem a procurava!" Inferno! Inferno! Inferno!


Lucas B. Friedmann

‎"I want to stay as close to the border as I can without going over. Out on the edge you see all kinds of things you can't see from the center." Kurt Vonnegut (1922-2007) Eu escrevo porque (eu não entendo e nem sei como explicar) era o que eu sempre quis fazer, mesmo antes de saber escrever.
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