Lucas B. Friedmann

‎"I want to stay as close to the border as I can without going over.
Out on the edge you see all kinds of things you can't see from the center." Kurt Vonnegut (1922-2007)

Eu escrevo porque (eu não entendo e nem sei como explicar) era
o que eu sempre quis fazer, mesmo antes de saber escrever

como se estivera sonhando

Eu estava em Lisboa por questões profissionais. Ela havia participado de um congresso. Nos corredores do aeroporto, no retorno, em um momento nossos olhos se cruzavam e logo na sequência, meio que inexplicavelmente, estávamos conversando. As horas seguintes passaram rapidamente.


Nós estávamos conversando no saguão do aeroporto há algum tempo, quando nos demos por conta que precisávamos correr para não perdermos a conexão. Estávamos em Lisboa e esse súbito insight revelava que estávamos conversando há pelo menos três horas. Eu não percebi essas horas passarem e ela não tentou disfarçar que também não percebera. Com a surpresa, juntamos nossas coisas, espalhadas nos bancos vizinhos e corremos até o portão correspondente. O meu cartão de embarque indicava o mesmo portão ao qual ela deveria se dirigir e percebemos nos instantes seguintes, ainda com mais surpresa, que estaríamos no mesmo avião que partiria dali a alguns minutos e nos levaria até nossa conexão em comum, o aeroporto de Frankfurt.

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Eu a ajudei com alguns dos seus pacotes. Ela estava atrapalhada (eu percebi com certa felicidade) porque não queria perder o avião e também porque não queria perder contato comigo. Eu fiquei tranquilo quando me dei conta que estaríamos no mesmo vôo e que teríamos ainda algumas horas a mais até a nossa separação definitiva. Ela não conseguia desviar seus olhos de mim. Chegamos ao portão indicado no bilhete de embarque e seguimos até a entrada do corredor. Passamos pelos procedimentos de sempre e quando caminhávamos pelo finger eu brinquei com ela: “eu gosto de poltronas no corredor e eu tenho quase certeza que estou no quarto ou quinto corredor, à esquerda, poltrona 3”. Ela sorriu e disse: “seria muita coincidência nós estarmos lado a lado, não seria?” Rimos juntos.

Quando nós chegamos à porta do avião, uma aeromoça perguntava a poltrona de cada um e indicava o caminho a ser seguido. Eu e ela ficamos ainda mais surpresos quando nos demos por conta que realmente tínhamos adquirido passagens lado a lado. Eu no corredor e ela ao meu lado. Ao lado dela havia ainda um terceiro lugar, na janela, que não fora ocupado em nosso vôo. Quando nos sentamos, agurdando a decolagem, houve um princípio de constrangimento. Aquela coincidência parecia estar pressionando nosso recente relacionamento a um estágio mais avançado. Já não estávamos ali por vontade própria, como no saguão do aeroporto, mas parecia que cumpríamos nosso papel em um roteiro pré determinado. É como se algo ou alguém estivesse nos empurrando um para o outro.

Eu decidi brincar e aliviar essa tensão: “eu acredito então que nós nos encontraríamos de qualquer modo”. Você quer dizer que não foi uma coincidência termos nos encontrado no saguão do aeroporto?, ela perguntou. Eu não sei bem o que pensar, eu respondi. Eu não sei até onde essas coisas de destino não seriam apenas coincidências muito improváveis. O destino muitas vezes nos prega peças, ela disse. Essa frase me soou distante e um tanto fria e eu logo pensei que eu poderia estar perdendo terreno por não ter sido suficientemente (ou eficientemente) romântico. Ou por não ter correspondido uma certa expectativa romântica que pairava no ar. Eu acredito que muitas vezes essas coincidências podem servir como um poderoso combustível para o romantismo...

O que antes era uma tensão, nesse momento pareceu saturar-se e criar uma forte instabilidade, prestes a se romper por um caminho que nos aproximaria ou por outro caminho que nos afastaria. Até ali, nós tínhamos conversado como dois engenheiros e nós tínhamos identificado muitas afinidades entre nossas trajetórias. Tudo havia ocorrido muito rápido, mas aquela tensão estabelecida no ar em nosso redor indicava que ela, assim como eu, havia gostado e, pelo menos instintivamente, alimentava algum tipo de esperança romântica. Mas que tipo de esperança romântica poderia ser alimentada? Ela morava em um país tão distante do Brasil. Tantas diferenças culturais, tantas intenções diferentes, tantas expectativas diferentes. Ao mesmo tempo, tantas afinidades, tantas coincidências.

Naquele momento em que qualquer faísca poderia detonar o ar que respirávamos, o ar em nosso entorno, eu disse: “eu acho que somos forçados a considerar a hipótese de que o destino pode ter nos colocado juntos hoje”, deixando de olhar para a frente ou para os lados, indistintamente, e passando a encará-la nos olhos, com uma certa violência. Ao que ela respondeu, corajosamente, surpreendentemente, “eu me sinto forçada a concordar com você, e, pelo menos até aqui, isso me parece ótimo!” Nós vínhamos conversando até aquele momento como dois engenheiros de áreas diferentes, que se identificaram inicialmente descrevendo suas áreas de interesse e depois trocaram impressões sobre suas vidas, sobre o local onde se encontravam, sobre os motivos que os levaram até ali.

Sim, é ótimo!, eu respondi, com um ritmo um pouco mais lento e sustentando seu olhar. Sim, aquilo tudo era ótimo. Aquilo tudo que estava acontecendo mais se parecia com um sonho. Algumas horas antes, eu estava caminhando pelo saguão recém chegado ao aeroporto quando me senti visado por uma moça muito bonita, alta e magra, com olhos escuros muito eloquentes. Eu procurei um banheiro e, depois de aliviado, segui caminhando à procura de um local para me sentar. Distraído, eu e essa moça muito bonita quase nos batemos e quando nossos olhos se cruzaram para um pedido de desculpas ficou evidente que algo mais ainda aconteceria entre nós. Eu tentei me lembrar de alguma técnica que me permitisse prendê-la comigo. É incrível como alguns fatos realmente se impõem de um modo muito forte!

“Eu acho que nós dois estávamos distraídos”, ela disse. “É, eu acho que sim”, eu respondi. Ela sorriu muito sutilmente, sorriu de um modo positivo e alegre, mas com um movimento dos lábios que talvez tenha lhe custado poucos décimos de milímetro. Eu estava ainda tentando pensar em algo, congelado pela sua beleza e agora por aquele sorriso que nada mais era que um gigantesco convite para que eu propusesse qualquer coisa. Ela aumentou o sorriso e perguntou, um pouco sem jeito, “você está passando bem?” Eu não tive outra alternativa senão rir timidamente da situação e ganhar ainda alguns segundos. “Eu vou ter que esperar o meu vôo por algumas horas. Se você estiver na mesma situação, nós poderíamos tomar um café!” Ela ficou me olhando. "Eu digo quando chegarmos a Frankfurt!"

“Eu acho uma ótima ideia!”, ela disse. Eu me senti aliviado e eu tenho certeza que não consegui disfarçar esse alívio. Caminhamos juntos até um café que havia na área de alimentação. Ocupamos algumas cadeiras que haviam em torno da mesa que escolhemos. Eu gentilmente busquei os cafés, uma mistura de café passado com um pouco de leite para mim, um cappuccino para ela. As horas seguintes para mim se confundem no tempo, como se tivesse ocorrido um colapso de tudo que conversáramos em uma impressão única que eu tive dela naquele primeiro contato. Eu, um engenheiro, em Lisboa por conta de algumas questões profissionais. Ela,, uma engenheira elétrica, acadêmica, participando de um congresso. Mas não estávamos minutos antes ainda sentados em nossos bancos no avião?

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O vôo durou um tempo que eu não saberia precisar, por estar completamente absorto na conversa com ela. As palavras, as entonações, as frases, os olhares. Ela me contou de sua família e de como a revolução islâmica havia imposto limitações pesadas à vida das mulheres em seu país. Eu contei sobre algumas diferenças culturais evidentes com a vida no Brasil. Também conversamos sobre as nossas famílias. Eu havia me divorciado algum tempo antes daquela viagem. Ela havia tido um namorado mas que não era o momento para um casamento e que eles acabaram algum tempo antes. E falamos ainda de outras tantas coisas. De Frankfurt, algumas horas depois, eu retornaria ao Brasil e ela retornaria para o Irã. Eu também sou professor universitário em Porto Alegre. Ela tinha planos para o doutorado.

Eu estou adorando essas horas com você, eu disse. Se você quiser, podemos sentar e seguir conversando até os nossos próximos vôos. Eu acho que pode ser ótimo, ela disse, já sem esconder seu desejo de seguir próximo de mim. O meu vôo sairia dali a cerca de seis horas e o dela sairia quinze minutos antes do meu. Então escolhemos um lugar no saguão do aeroporto onde pudéssemos nos servir de algo para comer e seguimos juntos. Eu contei um pouco dos meus gostos... viagens, algumas poucas para fora do Brasil, mas principalmente meu gosto pela cidades uruguaias. Ela me contou que gosta de cozinhar e que gostaria de morar sozinha, mas que o salário dela na universidade é insuficiente para isso, pelo menos neste momento.

Em alguns momentos, enquanto ela falava, eu observava as linhas de seu rosto e como elas evoluíam com os movimentos da mandíbula e da face com a pronúncia das palavras e com as diferentes manifestações de sentimentos, associadas com o que ela estava falando. Alguma lembrança de infância, com sua família, algum conflito na universidade, um desejo forte aos poucos evoluindo para uma intenção de sair de seu país. Ela comentou sobre dificuldades encontradas por namorados em seu país e que o casamento acontecia muito cedo em qualquer relacionamento. Eu não perguntei, e até pensei que em algum momento do futuro poderia surgir uma situação apropriada, sobre as dificuldades encontradas em relacionamentos afetivos.

Enquanto eu falava, ela também me observava. Seu rosto atento e um certo brilho em seus olhos me faziam tentar espichar as frases e as ideias para que eu pudesse firmar aquela imagem em minha memória. Por algum motivo, eu sabia que nossa história não se encerraria dali algumas horas, quando embarcássemos em nossos vôos que seguiriam em direções opostas. Eu pressentia que aquelas imagens fixadas em minha memória serviriam durante muito tempo para manter meu coração aquecido e para manter viva a memória daquela menina tão fascinante. Os meses se sucederiam e as mensagens trocadas entre nós se manteriam frequentes e seriam mais do que suficientes para me manter aquecido, apesar da distância.

Estávamos sentados frente a frente e quando percebemos que chegava a hora de seu vôo eu peguei em sua mão. Ela remexia em busca de algo em uma de suas mochilas. Eu já pressentia que a separação seria difícil. Nós já estávamos conversando initerruptamente há talvez mais de dez horas. Ela talvez me surpreendesse assutada com o toque, mas ela apertou minha mão com suas duas mãos, olhou em meus olhos e jogou sua mão direita por trás da minha nuca me puxando para um beijo. Ela disse que odiava despedidas, tirou da mochila um cartão com seu email, disse para que eu escrevesse, vestiu um véu que também tinha saído de sua mochila e foi se levantando. Ela não falou mais nada e se afastou da mesa de café.

Eu fiquei olhando ela se afastar e logo me dei conta que não poderia deixar que acontecesse desse modo. Juntei as minhas coisas e corri atrás dela. Ela percebeu que eu estava correndo quando eu disse seu nome e comecei a dizer algo que começava com “eu”. Ela levantou a mão direita como se fosse me proibir de algo e disse “eu também”. Ela parou no meio do caminho até o seu portão de embarque e deixou suas coisas caírem ao chão, me esperando. Eu fiquei em frente dela, deixei minhas coisas caírem, e nos beijamos. A partir dali não dissemos mais nada. Ela juntou suas coisas e se foi. Eu próprio não teria muito tempo mais para ficar ali porque meu embarque estava marcado para dali a quinze minutos.

Eu cheguei em casa e imediatamente lhe escrevi um email. A viagem dela havia sido mais curta que a minha e ela se encontrava conectada, aguardando uma mensagem minha. Em minutos estávamos conectados via skype conversando simultaneamente por meio de um chat. Os meses seguintes foram marcados por frequentes e longas conversas. A diferença de fuso horário incomodou um pouco e contribuiu para a alteração de vários dos nossos costumes, mas isso parecia não nos importunar. Eram cinco horas e meia de diferença durante a maior parte do ano; em alguns dias ela ia dormir mais tarde e em outros eu acordava mais cedo. Era difícil, pela distância e pela improbabilidade de uma vida em comum, mas eu me sentia completo.

As semanas e os meses seguintes hoje se empilham em minha memória talvez como apenas um momento no tempo, parecendo colapsados por causa da rapidez com que tudo se passou em nossas vidas. Eu entrava atônito na minha caixa de mensagens aguardando por novas notícias dela, por qualquer informação, por qualquer tipo de alimento que me mantivesse vivo. Ela correspondia às minhas ansiedades, demonstrava também uma necessidade de saber de mim, parecia devorar o que eu lhe escrevia. Dividimos sonhos, construímos planos, sonhamos juntos talvez algumas dezenas de vidas em comum amadurecendo o tipo de vida que nós dois gostaríamos de viver. Eu fui feliz em todos esses momentos e agora relembrando de tudo aquilo.

Eu lhe contei que gosto de massas italianas com um bom vinho tinto seco. Eu prefiro massa talharim preparada à bolonhesa, com algum vinho chileno. Ela nunca provara qualquer tipo de bebida alcoolica, seguindo as tradições e costumes de seu país. Eu gosto muito de sair aos sábados pela manhã de carro em direção ao interior em busca de algum bom restaurante para um almoço saboroso. Ela gosta de curtir o final do dia e o início da noite semi deitada em um confortável sofá, à luz de velas. A janta da noite também pode ser servida em um clima mais intimista sob a luz de velas. Eu gosto de estar na praia em qualquer estação do ano, indistintamente, mas não curto entrar na água, enquanto ela costuma ir à praia no verão apenas.

Eu lhe contei sobre algumas namoradas do passado, sobre meu casamento e sobre o divórcio. Ela me disse que houvera um namorado, mas que não evoluíra a um relacionamento mais sólido e ao casamento. Conforme ela me explicou, diferentemente do ocidente, os seus costumes estabelecem que um namoro não envolve maiores intimidades e que serve para que os namorados avaliem suas afinidades e decidam-se sobre avançar ao casamento.Eu lhe contei que me divorciara após complicadas diferenças que se estabeleceram ao longo do relacionamento e principalmente durante o casamento. Ela me descreveu a estranheza com que via os relacionamentos mais superficiais, apesar dos costumes por lá estarem se renovando.

Um dos melhores momentos do nosso primeiro encontro havia sido o momento em que nossas mãos se tocaram. Esse toque me dá uma sensação de maior proximidade e a rugosidade da pele me traz à realidade. É um canal de comunicação que se estabelecera entre nós. Durante os meses seguintes, eu várias vezes disse que queria suas mãos novamente sequestrasdas pelas minhas, eu queria mantê-las sob minha guarda. Eu queria exclusividade e esse canal de comunicação poderia ser um modo de enfrentar essa distância tão absurdamente grande que nos separava. Uma distância física que era de certo modo compensada pela incrível proximidade emocional e sentimental que se estabelecera entre nós desde aquele primeiro encontro.

Os meses se passaram como areia que estivesse em nossas mãos, escorrendo entre os dedos, célere, devorando dias e noites, e nós decidimos em conjunto que precisaríamos de um novo encontro para decidirmos sobre o nosso futuro. O primeiro havia sido obra do destino e as semanas e meses seguintes nos deram tempo para nos conhecermos melhor. Então precisávamos agora de uma chance para uma decisão por nossa própria conta, uma decisão apenas nossa. Nós julgamos que seria necessário um encontro que não envolvesse tanta adrenalina e tanta intensidade do destino nos jogando um em direção ao outro. É como se estivéssemos dizendo: “nós já entendemos o recado, agora deixe a decisão conosco!”

Em uma tentativa conjunta para enterdermos o que havia acontecido, nós imaginamos que uma janela havia se aberto, muito estreita, muito delicada. Qualquer sopro de vento poderia ser suficiente para fechá-la. Nós conseguimos nos ver através dessa janela. Eu sempre um pouco mais ansioso, talvez pelo medo de perdê-la depois de um encontro de improbabilidade astronômica. Ela tranquila talvez apenas pela segurança emocional que eu lhe passava, reforçada sempre como um meio de contrapor a enorme distância entre nós. Houve uma oportunidade em um momento em que estavámos ambos preparados e abertos para aproveitá-la. Nós apreciamos o que nos foi oportunizado. Ela considerava uma “vitória do amor”.

Nós combinamos ir a um local de férias na Europa, para passarmos ali alguns dias e convivermos o suficiente para chegarmos a uma decisão coerente com os nossos sentimentos. Eu já tinha a minha decisão tomada. Ela parecia resistir ao que o destino nos forçava a aceitar. Nosso reencontro ocorreria em um jantar, em um restaurante italiano. Nós acordamos um encontro às dezenove horas e trinta minutos, nas proximidades desse restaurante. Eu estava muito ansioso e cheguei mais de trinta minutos antes do horário combinado. Ela não estava ali ainda e eu pensei comigo que ela dava sinais de que não estava assim tão impactada por tudo que vinha acontecendo entre nós. Eu sentia uma mistura de tranquila certeza com uma dura ansiedade.

Quando eu a vi se aproximando, eu me senti constrangido por já estar ali há tanto tempo. Eu deveria ter me atrasado. Eu deveria ter deixado ela esperando. Ah, essa ansiedade... Ela foi reduzindo a velocidade quando nossos olhos se cruzaram. Em determinado momento, eu percebi que ela parecia estar aproveitando aqueles segundos anteriores ao nosso encontro. Ela parou a alguns passos de mim e ficamos por alguns segundos naquela espécíe de transe. Eu estava com as mãos cruzadas às costas, eu levei a minha mão direita a frente e a abri enquanto eu dizia, apenas movimentando os lábios, “eu posso sequestrar a sua mão?” Ela não se conteve e veio na minha direção com os braços abertos para um abraço.

Seus dois braços não envolveram meu pescoço, mas ficamos com os braços alternados, um sobre o outro. A turbulência do momento levou a isso. Meu braço direito sob seu braço esquerdo; meu braço esquerdo sobre seu braço direito. Assim nossas faces ficaram muito próximos e eu pude sentir o calor de seu rosto e o cheiro de seu pescoço. Eu pude perceber que ela tremia, assim como eu. Tremíamos os dois, tal a emoção que eu e ela associávamos àquele momento. Ela me apertou muito forte e eu senti seu aperto com olhos fechados. Eu a abracei com as mãos espalmadas, movimentando-as rapidamente de cima para baixo. Aquele abraço era o alívio de meses e meses de uma tensão que foi se acumulando e que não se esgotaria ali.

Quando nos separamos ela colocou sua mão esquerda entre nós em um gesto eloquente que requeria um sequestro. Eu peguei sua mão e aquele gesto foi absorvido enquanto nos mantínhamos olhos nos olhos. Era uma espécie de confirmação de tudo que tínhamos vivido até ali e um consentimento de tudo que poderia estar por vir. Incrivelmente apenas aí vieram as primeiras palavras.... “como foi a tua viagem?”, eu perguntei. “Foi ótima!”, ela respondeu. “Esse abraço valeu cada minuto de espera”, eu disse. Ela sorriu de um modo que evidenciava seu alívio, “eu nem sei o que dizer”, olhos fixados em mim. A partir dali, caminhamos unidos pelas mãos até o restaurante e até a nossa mesa, conversando muitas e várias coisas.

Eu planejara muitas coisas para serem ditas e pensara passo a passo como aquele jantar poderia se desenrolar. O magnetismo daqueles olhos me distraíram de um tal modo que a conversa seguiu seu caminho próprio, independente do meu planejamento ou da vontade de qualquer um dos dois. Eu penso agora que o destino pode ter nos apresentado, meses antes, mas que naquele jantar eu e ela presenciávamos o surgimento de uma personalidade nova, própria, formada por mim e por ela e por alguma coisa além dessa soma e que certamente resultava dessa soma. Havia uma semelhança extraordinária entre nós dois, eu me via refletido nela, mas haviam diferenças suaves, que temperavam um certo narcisismo em me ver refletido nela.

Naquela janta e nos dias que se seguiram nós simplesmente estivemos juntos. Em nenhum momento conversamos sobre nosso futuro, os próximos anos ou os próximos meses, as próximas semanas ou mesmo os próximos dias. De tudo que conversávamos, cada um tinha suas opiniões e pontos de vista, tranquilamente conversados ou discutidos mas raramente ou mesmo nunca contrapostos. Eu acredito que a única coisa que sabíamos de um modo visceral é que ficaríamos juntos. A sequência daqueles dias seria consequência natural de tudo que acontecera. Nós tínhamos de fato já tomado decisões, mas éramos reféns de nossos destinos em comum. O destino nos reuniu, mas enfim seguiríamos juntos por nossa decisão.

Estávamos então finalmente embarcando juntos para casa. Era quase a mesma fileira no avião, mas do outro lado da aeronave. Eram naturalmente duas poltronas lado a lado. Eu olhava adiante pelo corredor e aquela circunstãncia me levou a um déja vu. Durante tantos meses, eu sonhara, nós sonháramos com uma situação exatamente como aquela que estávamos vivendo. Eu não estaria preso em algum tipo de arco fechado no tempo, condenado a viver e reviver várias vezes aquelas emoções dos últimos meses? Eu não estaria transferindo de algum modo esquizofrênico o que eu poderia estar vivendo intensamente durante meus sonhos? Eu não estaria perdido entre desejos e infelicidades diárias que me pesassem demais sobre os ombros?

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Ela então sequestrou minha mão e eu entendi que não era mais um sonho. O meu olhar estava perdido adiante ao longo do corredor do avião e minha atenção foi novamente trazida à realidade por ela. Aquele toque de pele me fez sentir algum inesperado fluxo de energia entre nós. Aquela conexão que se formou entre nós era muito forte, talvez mesmo mais forte que nós dois. Não conseguimos resistir a uma força que nos trouxe àquele momento. Uma força que parecia não poder ser superada e que, de qualquer modo, nenhum de nós gostaria mesmo de contrariar. Ela sequestrou a minha mão e eu finalmente mergulhei em uma espécie de fluxo que se formava ao meu redor, ao nosso redor, e que me empurrava em sua direção ou que nos empurrava ambos um contra o outro. Era tempo de acordar, era tempo de viver. Era tempo de navegar esse fluxo que se formava.


Lucas B. Friedmann

‎"I want to stay as close to the border as I can without going over. Out on the edge you see all kinds of things you can't see from the center." Kurt Vonnegut (1922-2007) Eu escrevo porque (eu não entendo e nem sei como explicar) era o que eu sempre quis fazer, mesmo antes de saber escrever.
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