Lucas B. Friedmann

‎"I want to stay as close to the border as I can without going over.
Out on the edge you see all kinds of things you can't see from the center." Kurt Vonnegut (1922-2007)

Eu escrevo porque (eu não entendo e nem sei como explicar) era
o que eu sempre quis fazer, mesmo antes de saber escrever

é verdade... sou viciado!

A vida é completamente alterada de sua ordem original. Os compromissos cotidianos são esquecidos. A vida passa a ser vivida dia por dia, sempre desejando aquele momento mágico. O momento de receber aquela tempestade de percepções é um momento que se sobrepõe a qualquer outro momento.


Eu cheguei logo cedo no aeroporto para embarcar no voo das nove da manhã que me levaria finalmente para casa. Foram sete dias de trabalho intensivo, mas que era necessário e que teria um retorno interessante. Foram principalmente sete longos dias longe de minha querida família. A minha bela Maryam e os pequenos Tatiana e Tomás. Além da minha pequenina Athena.

Na verdade, não exatamente para casa. Eu ainda deveria pegar o carro no estacionamento e viajar mais duas horas. Naquele ano, nós tínhamos em comum acordo decidido pela mudança para a casa de praia. Era um desejo de todos, mas principalmente seria uma mudança benéfica para o desenvolvimento do pequeno Tomás. Aquele ar marinho e a calmaria de cidade de interior...

Nós tínhamos considerado a hipótese de utilizar também a casa de campo, mas naquele primeiro ano, para evitar muitas mudanças e observar como todos se adaptariam, decidimos passar o ano inteiro na praia. No ano seguinte, avaliaríamos a possibilidade de passar alguns meses na aconchegante casa na serra, comprada dois anos antes. Nós todos gostávamos de ambos.

Embarquei no avião no horário marcado e tudo deu certo. Eu tinha expectativa de conseguir adormecer, mas não consegui. As atribuições desses sete dias distante de casa, mas principalmente a falta que sentia dos meus queridos me deixava um tanto ansioso. Eu havia recolhido, nos poucos momentos de descanso, presentes para cada um deles. E especialmente uma lembrança para a minha bela.

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Durante o vôo, em momentos entre a vigília e um certo adormecimento, eu me distraí entre imagens dos últimos anos, lembranças dos dias que passamos na praia, o nascimento de minha filha, o sol de final de dia refletido na água sobre a areia com uma das torres da praia ao fundo, a pequenina Athena sempre meio alegre meio silenciosa, até que acordei com o aviso de que pousaríamos em breve.

Chegando em Porto Alegre, eu pude seguir diretamente ao estacionamento, já que propositadamente eu não carregava mais do que uma pequena bagagem de mão. Peguei o carro, coloquei a bagagem nos pés do passageiro. Dali seriam ainda mais duas horas pela BR 290 e depois pela BR 101 até a praia de Torres. Eu estava retornando um dia antes do combinado e queria fazer uma surpresa a todos.

Chegando em Torres, as poucas ruas que eu tive que percorrer até chegar à nossa casa pareceram me tomar mais tempo do que as duas horas de estrada. Aproximando-me da nossa casa, eu logo ouvi a confusão das crianças e da pequenina Athena, para quem o tempo parecia não ter efeito. Quando o carro passou em frente ao pátio, Maryam anunciou que o papai estava chegando.

É um desses momentos da vida que justifica qualquer esforço. Estacionei o carro, sai com os presentes nos braços. Pequenas lembranças, que não deveriam ocupar muito espaço, mas que teriam sua importância valorizada. Os sorrisos das crianças, a alegria um tanto enciumada da pequenina Athena, e Maryam que ao lado de todos esperava pelo abraço terno que lhe reservava.

Era um final de tarde de início de dezembro e já haviam pessoas na praia. Ainda havia um certo ar de primavera, com um certo friozinho inclusive, mas nada que impedisse esse público específico à praia, que gosta desses dias anteriores às festas de final de ano. Mesmo tendo bastante tráfego em todos os meses do ano, o início do período de veraneio já trazia muitos visitantes ao balneário.

Conforme todos se acalmaram após a minha chegada, eu sabia que não poderia me furtar daquilo que meu corpo já exigia de mim nesse horário. Eu vesti o calção de corrida, uma daquelas camisetas mais surradas, as meias e os tênis. A minha bela já sabia das minhas necessidades e disse que colocaria todos no banho e que estariam prontos certamente quando eu retornasse.

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Eu sentia o ar de final de tarde (com uma temperatura até inesperadamente baixa pra a época e para a quantidade de pessoas que ocupavam as areias) nas pernas. Bem... uma sensação que, pela minha experiência, intensificaria de um modo marcante esse momento tão especial e tão aguardado.

Quando finalmente comecei a correr pelo calçadão, as sombras já estavam alongadas e mesmo o ar contribuía anunciando o crepúsculo e o pôr do sol. Os primeiros minutos de corrida são sempre os mais árduos. O corpo parece resistir ao esforço e parece antever um certo sofrimento que se anuncia.

A resistência e a persistência em continuar são como que demonstrações de um preço que se paga antecipadamente em troca das recompensas que se aproximam. Os passos ainda se mostram pesados e as pernas parecem enroscadas em algum tipo de corda ou cabo que as amarra e atrapalha os movimentos.

E então depois de alguns minutos se percebe o início das emissões de componentes bioquímicos, por todo o corpo, inundando músculos, inundando tecidos, contribuindo para um melhor bem estar físico e permitindo que eu siga adiante. Cada nova passada vai se tornando então um novo movimento de uma complexa engrenagem que visa permitir que siga em frente com a convicção que o objetivo sera cumprido.

Ao final do tempo que eu normalmente dedico à corrida, eu reduzi o ritmo e passei a caminhar, tomando o rumo de casa. Primeiro uma caminhada mais forte que foi aos poucos sendo reduzida para uma caminhada normal. Aquela sensação é algo sem igual. Em algumas oportunidades, a minha bela me acompanha, mas com menos fôlego já que ela não vem conseguindo manter o ritmo das corridas.

Quando cheguei em casa, ela me aguardava do lado de dentro da porta. "Tudo bem, querida?", eu disse. "Tudo ótimo", ela respondeu, "os pequenos estão na sala e mais um pouco vamos jantar", complementando. "Ótimo!", vou tomar um banho então. "Vou com você", ela respondeu, me seguindo. Quando eu fui desacelerando de modo definitivo o ritmo, suspirando e demonstrando a satisfação obtida com o exercício, ela comentou "é um vício, né!?" em espírito de compartilhamento. "Sim, é um vício!"


Lucas B. Friedmann

‎"I want to stay as close to the border as I can without going over. Out on the edge you see all kinds of things you can't see from the center." Kurt Vonnegut (1922-2007) Eu escrevo porque (eu não entendo e nem sei como explicar) era o que eu sempre quis fazer, mesmo antes de saber escrever.
Saiba como escrever na obvious.
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