Lucas B. Friedmann

‎"I want to stay as close to the border as I can without going over.
Out on the edge you see all kinds of things you can't see from the center." Kurt Vonnegut (1922-2007)

Eu escrevo porque (eu não entendo e nem sei como explicar) era
o que eu sempre quis fazer, mesmo antes de saber escrever

onde estão os bonzinhos e os maus em 'battlestar galactica'?

O seriado "Battlestar Galactica" foi produzido para a TV a cabo entre 2003 e 2009, estabelecendo recordes de audiência e desbancando outros seriados concorrentes e tradicionais. É um seriado de ficção científica, uma refilmagem de um clássico dos anos 70, que esteve focado nos conflitos humanos.


Um primeiro seriado denominado "Battlestar Galactica" foi produzido para a TV aberta no final dos anos 70 e, talvez pelo modo como os seriados de ficção científica eram pensados naquela época, parecia não ter grandes pretensões quanto à sua potencial credibilidade. Mas ele foi fundamental para criar o clima de déjà vu que reina na refilmagem, o segundo seriado denominado "Battlestar Galactica" e que é tema deste artigo, produzido para a TV a cabo entre 2003 e 2009.

Uma minissérie estabelece o ponto de partida para a trama. A humanidade, estabelecida nas Doze Colônias de Kobol, sofre um ataque devastador executado pelos cilônios. Kobol era o planeta onde havia surgido a humanidade, abandonado dois mil anos antes por esgotamento de recursos naturais. Com o esgotamento de Kobol, os humanos migraram para um novo sistema solar, formado por duas estrelas binárias, onde colonizaram doze planetas e satélites habitáveis.

Os cilônios estavam desaparecidos por aproximadamente quarenta anos. Robôs andróides criados para executar trabalhos rotineiros, eles se rebelaram contra seus criadores quando receberam inteligência artificial, preferindo ser livres para decidirem seus destinos. Após uma longa e "sangrenta" guerra, eles se foram, aparentemente em busca de um mundo alternativo para seguirem com suas "vidas". Mas eles retornaram com a intenção de aniquilar a humanidade.

O seriado então conta a estória de um grupo de sobreviventes que, alojados em várias naves e liderados pela última nave de combate da frota, a Galactica, decidem abandonar as Doze Colônias e partir em uma longa viagem em busca de uma hipotética e lendária Décima Terceira Colônia. Eles descobrem ainda que existem versões biológicas dos cilônios, que podem se misturar entre os humanos. E esses andróides biológicos são mais fortes, mais inteligentes, mais capazes.

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Na mesa que aparece acima, aludindo ao famoso afresco de Leonardo Da Vinci, aparece ao centro em vermelho a Número Seis, que não era a chefe dos cilônios mas que talvez tenha sido o maior símbolo daquilo que os movia contra os humanos. O seu posicionamento nessa mesa já poderia suscitar muitas discussões. Humanos e cilônios aparecem misturados nos dois lados. Em um dos extremos aparece o comandante militar, que foi o responsável pela ideia de buscar refúgio com a Décima Terceira Colônia. No outro extremo aparece a presidente civil, que apoiou essa ideia e que deu sustentação à empreitada.

Ao lado de Número Seis está Gaius Baltar, que é um gênio e que foi um traidor e que ao mesmo tempo foi julgado ao longo do seriado e considerado inocente, apesar de vários erros e crimes cometidos. Também próximo ao centro aparecem Starbuck e seu marido, que ela conheceu ao longo do seriado, que em vários momentos não ficaram ao lado do poder constituído mas a favor do "bom senso". Contra o que é representado por Gaius Baltar mas mais próximo da presidente e ainda no centro, aparece o inseguro mas combativo filho do comandante. Algumas outras personagens aparecem ainda próximos aos extremos.

Nessa trama, quem são afinal os bonzinhos e quem são os maus?

bsg-s1.jpg Capa da trilha sonora da primeira temporada.

O comandante Adama é um militar de carreira que não alcançou o posto de almirante antes do "holocausto" administrado pelos cilônios. Ele segue preceitos morais bastante rígidos, mas aceita seguir o bom senso quando julga necessário, apresentando traços autoritários e demonstrando insatisfação quando é contrariado. Ele assume a liderança militar do grupo de sobreviventes.

A presidente Roslin era a quadragésima terceira na linha sucessória, mas assumiu a presidência por conta do "holocausto" administrado pelos cilônios. Era uma professora do ensino médio que entrou para a política pela indicação do presidente para o Ministério da Educação. Ela fica sabendo que tem um câncer terminal no dia do ataque dos cilônios. Ela assume a liderança civil do grupo de sobreviventes.

Incrivelmente (mas talvez nem tanto) o comandante passa a respeitar as posições da presidente ao mesmo tempo em que se envolve emocionalmente com ela. A presidente, por sua vez, pressionada por uma doença terminal e recebendo doses de um medicamento de eficiência duvidosa, tem "visões proféticas" que podem levar ao caminho ainda desconhecido para a lendária Décima Terceira Colônia.

bsg-s2.jpg Capa da trilha sonora da segunda temporada.

Apollo é o filho do comandante Adama e vive ao longo do seriado uma jornada de amadurecimento. Ele teve uma educação bastante rígida pelo pai nem sempre presente e demonstra insegurança quando precisa se posicionar em relação a diversas questões práticas. Ele não aceita seguir as ideias de seu pai mas também não consegue assumir com facilidade suas próprias ideias.

Um exemplo emblemático da disputa entre Apollo e seu pai... Em um dos episódios, eles disputam amistosamente uma luta de boxe, com o pai obtendo os melhores golpes e argumentando com o filho que ele precisa seguir seus instintos. Mais adiante, a presidente infringe seu acordo de governabilidade com o comandante e este pretende levá-la para a prisão. Quando defrontado entre as ordens de seu pai (para prender a presidente) e seus instintos (que lhe dizem que essa ordem é autoritária), ele toma uma decisão errada, não seguindo as ordens do comandante e se rebelando contra aqueles que pretendiam prender a presidente.

Starbuck é um contraponto poderoso ao perfil de Apollo. Ela é decidida e enérgica, mesmo que seus pontos de vista não sejam unânimes ou mesmo completamente dentro da lei. Ela demonstra habilidades incomuns na condução de caças de combate e isso lhe vale postos de liderança, mesmo não contando com o apoio dos colegas em relação ao seu comportamento quase sempre extremado.

Apollo e Starbuck tiveram um relacionamento íntimo anterior ao seriado, em circunstâncias próximas (mas não diretamente relacionadas) à morte trágica do irmão de Apollo, o que fez com que se afastassem e com que, ao longo do seriado, existisse uma tensão permanente entre eles. Uma tensão de origem emocional afetiva, mas que rescende também às suas diferenças éticas e profissionais.

bsg-s3.jpg Capa da trilha sonora da terceira temporada.

O dr Gaius Baltar é um cientista genial e conhecido em todas as Doze Colônias. É um homem vaidoso e que não preza por valores éticos ou por lealdade, desde que seus objetivos sejam alcançados. Vivendo entre devaneios e realidade, ele em alguns momentos permite passivamente o avanço dos cilônios e em outros ajuda decisivamente os humanos em sua luta por sobrevivência.

Em um momento do seriado no qual a liderança da presidente é questionada, a genialidade de Baltar o colocou como uma forte alternativa de poder e de liderança. Entretanto, uma vez alcançado o objetivo, ele acaba usufruindo do cargo para obter benefícios pessoais. Desse modo, mais do que comprometido com suas habilidades ou com conceitos éticos, ele privilegia seus interesses pessoais.

A Número Seis, como é conhecida, é uma entre os doze modelos diferentes de cilônios biológicos. Uma das cópias da Número Seis seduziu Baltar ainda em Caprica, capital de uma das Doze Colônias, e obteve as senhas para anular as defesas coloniais e abrir caminho para o ataque devastador dos cilônios. Ela e outras cópias da Número Seis tiveram papéis diferentes ao longo da trama.

Existem doze modelos de cilônios biológicos. Sete deles compõem a população de cilônios biológicos, produzidos em grande número de cópias, tendo posição superior aos andróides não biológicos em sua hierarquia. Os outros cinco existem ao longo do seriado em cópias únicas, foram os primeiros (produzidos ainda pela civilização original de Kobol) e eles quem dominam um processo tecnológico de replicação.

De um modo interessante, a Seis que seduziu Baltar reaparece ao longo do seriado em seus devaneios, provocando-lhe eroticamente e mesmo lhe passando informações estratégicas dos cilônios. Ela morreu na minissérie, como consequência de uma explosão nuclear, e para ela, depois de "reencarnada", o mesmo fenômeno se repete, conversando em seus devaneios com o dr Baltar.

bsg-s4.jpg Capa da trilha sonora da quarta e última temporada.

Ao longo do seriado, a Número Oito é outra dos modelos de cilônios biológicos que ocupa papel de destaque. Uma de suas cópias, Sharon Valerii, a Boomer, é uma cilônia que pensa que é humana e que em determinado momento é acionada para cumprir uma missão decisiva contra os humanos. A outra, Sharon Agathon, a Athena, apaixonou-se pelo Capt Karl Agathon e juntos tiveram uma filha híbrida, a única gerada por meios naturais, que se torna o centro das atenções no final da trama.

A continuidade de um longo conflito com os humanos e as dúvidas que surgiram após a destruição quase total da humanidade geraram conflitos entre os cilônios. Alguns modelos, principalmente o Número Um, seguia com a convicção de que os cilônios deveriam seguir até a vitória final. Outros modelos, como a Número Três, preferia dedicar-se ao seu desenvolvimento pessoal e a uma busca pelo divino. Os outros se dividiam entre continuar ou encerrar o conflito.

Ao final, o desejo de alguns cilônios biológicos de se juntarem aos humanos, o descontentamento de alguns cilônios cibernéticos com suas lideranças, uma certa depressão por não conseguirem se reproduzir por meios naturais (apesar de várias tentativas naturais ou não ao longo do seriado) e ainda alguns outros fatores, fez com que os humanos ao final contassem com a aliança inesperada de um grupo de rebeldes cilônios e de uma de suas naves-bases.

bsg-razor.jpg Capa da trilha sonora do episódio especial "Razor".

E houve ainda a Almirante Cain, autoritária, arrogante e eficiente, para desequilibrar o jogo de poder que se desenrolava na frota. E de quebra ela comandava a Pegasus, uma das naves de combate mais modernas e poderosas da frota. Ela pretendia uma vingança contra os cilônios e não media esforços para isso, inclusive dispensando civis não diretamente úteis para seus planos.

Ela foi assassinada por uma das cópias da Número Seis, com quem Cain teve um relacionamento antes de saber que ela era uma cilônia. Quando descobriu, providenciou que fosse brutalmente torturada em busca de informações. Em seu funeral, apesar de tudo, Starbuck disse: "eu sinto que sem a Almirante Cain a frota e todos nós estamos um pouco mais desprotegidos!"

A trama do seriado é composta por uma sucessão de conflitos e disputas que vão sendo tecidos de um modo muito refinado e que fazem refletir sobre a condição humana. É uma situação limite que não parece diferente da vida cotidiana quando distante de catástrofes e tragédias.

Enfim... a pergunta que foi proposta (quem são os bons e quem são os maus?) é de difícil resposta. As personagens são humanas. Os homens e mulheres e os cilônios. Mesmo os cilônios. Todos demasiadamente humanos.

Talvez mais adequado do que classificar as personagens em bons e em maus seja dividi-las em quem luta pela sobrevivência dos humanos e quem luta em favor dos objetivos dos cilônios e contra a sobrevivência dos humanos.

Enfim... um retrato bastante real da vida exatamente como ela é!


Lucas B. Friedmann

‎"I want to stay as close to the border as I can without going over. Out on the edge you see all kinds of things you can't see from the center." Kurt Vonnegut (1922-2007) Eu escrevo porque (eu não entendo e nem sei como explicar) era o que eu sempre quis fazer, mesmo antes de saber escrever.
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