Lucas B. Friedmann

‎"I want to stay as close to the border as I can without going over.
Out on the edge you see all kinds of things you can't see from the center." Kurt Vonnegut (1922-2007)

Eu escrevo porque (eu não entendo e nem sei como explicar) era
o que eu sempre quis fazer, mesmo antes de saber escrever

entre o 'ganhar perdendo' e o 'perder ganhando'

"Ganhar perdendo" talvez seja mais fácil, porque exige tão somente o esforço (que pode ser extenuante) de seguir em frente sem esmorecer. "Perder ganhando" talvez seja melhor, porque sempre viabiliza a racionalização de erros e acertos e uma reconfiguração do caminho a ser seguido.


Recentemente eu ouvi uma política experiente dizendo (mais ou menos) o seguinte: "O problema é que [ela] ganhou perdendo!" E na sequência de seu pronunciamento, ela frisou a expressão "ganhou perdendo". Independentemente da posição dessa politica em qualquer disputa, sua análise foi bastante apropriada, tanto para o momento político no qual essa análise se insere quanto para uma análise mais universal e descolada da atual crise brasileira. E ela finalizou esse pronunciamento dizendo: "muitas vezes 'perder ganhando' traz melhores resultados!"

Um tempero interessante nessa discussão é a coincidência da cidade do Rio da Janeiro estar sediando os Jogos Olímpicos neste ano de 2016. Certamente, o Rio se apresentou para sediar os Jogos em um momento político e econômico bastante diferente do momento atual. Naquele momento, a opinião pública acabou por se dividir entre ser favorável ou não ser favorável a algo que, se bem aproveitado, poderia ser grandioso. Nos bastidores, o "clima olímpico" poderia servir para equilibrar forças contrárias e para fazer de todos "campões olímpicos".

A competitividade que faz os atletas quererem ser os primeiros, até para responderem aos seus incentivadores e patrocinadores, e a velha máxima entre os contendores de que "o importante é competir" são extremos que também podem ser relacionados com a polaridade que é o foco deste artigo entre o "ganhar perdendo" e o "perder ganhando". Há atletas que "vencem vencendo", é claro, tamanha sua superioridade. Em outros casos, alguém vence porque o favorito não se encontra em sua melhor forma. E há os que fazem de tudo para vencer...

300-leonidas.jpg

Um exemplo notável pode ser encontrado na Antiguidade. O general espartano Leônidas e seus homens foram os primeiros a enfrentar os persas em sua tentativa de invadir a Grécia. Em determinado momento, Leônidas sabia que não sobreviveria. Mas a tradição de seu povo o fez encarar a morte com nobreza e lutando até o final. A resistência de seu pequeno grupo permitiu que os gregos se organizassem e resistissem à tentativa dos persas de expandir seu império.

Comparar o "ganhar perdendo" com o "perder ganhando" pode parecer tarefa simples, mas não é tão fácil assim. E essa falsa simplicidade também pode aparecer nas reações tanto de quem "ganha perdendo" quanto de quem "perde ganhando". A nossa sociedade parece incentivar o "vencer" a qualquer preço, a qualquer custo, parece incentivar a velha ideia d'os fins justificando os meios".

Por outro lado, o "perder ganhando" encerra em si uma tal quantidade de lições e de amadurecimento que talvez deva mesmo ser considerada como necessária, pelo menos em alguma etapa do desenvolvimento de pessoas e de sociedades. Perder, independentemente da derrota ser justa ou não, é um meio muito eficaz para ensinar o real valor daquilo que se tem.

derrotado.jpg

O "perder ganhando", entretanto, sempre vem com mais bagagem e com maiores possibilidades de amadurecimento. O "perder ganhando" sempre está associado ao tempo que pode ser necessário para que as dificuldades sejam superadas e que novas soluções sejam vislumbradas. O "perder ganhando" em todas as suas potencialidades sempre pode ser instrumento de revoluções!

Há portanto momentos para vencer e há momentos para "perder ganhando"!

Pois bem... retornando ao discurso (citado lá no início deste texto) de uma experiente política em que disse que "[ela] 'ganhou perdendo'", resta uma pergunta que a essa altura é quase óbvia: o outro lado vai saber "perder ganhando"?

11967praca.jpg


Lucas B. Friedmann

‎"I want to stay as close to the border as I can without going over. Out on the edge you see all kinds of things you can't see from the center." Kurt Vonnegut (1922-2007) Eu escrevo porque (eu não entendo e nem sei como explicar) era o que eu sempre quis fazer, mesmo antes de saber escrever.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/sociedade// @obvious, @obvioushp //Lucas B. Friedmann