Lucas B. Friedmann

‎"I want to stay as close to the border as I can without going over.
Out on the edge you see all kinds of things you can't see from the center." Kurt Vonnegut (1922-2007)

Eu escrevo porque (eu não entendo e nem sei como explicar) era
o que eu sempre quis fazer, mesmo antes de saber escrever

entre o que não é possível e o que é necessário

Uma das cenas marcantes do filme 'Interstellar', de Christopher Nolan, mostra a nave Endurance em trajetória descontrolada, exigindo uma manobra muito arrojada para ser resgatada. Um robô é acionado para contribuir durante a manobra e diz 'não é possível'; o comandante sentencia: 'é necessário'!


Uma das coisas mais fáceis na vida é permanecer na zona de conforto. Algo que precisa ser evitado pode estar acontecendo por perto, mas muitas vezes a necessidade de evitar esse acontecimento não é mais forte do que a energia que deve ser despendida para sair de onde se está sentado. A zona de conforto parece ter um efeito de 'buraco negro'... gravitacionalmente invencível!

brand-cooper.jpg

No filme "Interstellar", de Christopher Nolan, após uma série de acontecimentos desagradáveis e a morte de companheiros, os astronautas remanescentes, Brand e Cooper, ainda precisam resgatar a Endurance de uma trajetória sem controle que a levará ao ingresso na atmosfera de um planeta e a perda total da única alternativa que lhes resta de retorno ao planeta Terra.

Quando o comandante Cooper solicita a atuação de CASE, um robô auxiliar à tripulação, para que analise o número de rotações por minuto da Endurance, que após uma explosão passa a descrever uma espécie de espiral descendente, ele ouve: "it is not posible"!

O comandante então sentencia: "no, it is neccessary!"

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Alguém até pode argumentar que esse diálogo ocorre entre um computador e um ser humano e que cabe mesmo ao ser humano a decisão "mais do que realista". Talvez não fosse mesmo possível, mas era necessário tentar a abordagem com a Endurance. Se não tentassem, estariam mesmo condenados a permanecer naquele planeta desabitado. Se tentassem, poderiam morrer tentando.

Esse diálogo é mesmo emblemático por ter ocorrido entre um computador e um ser humano. É típico do ser humano ter esse impulso que o retira da zona de conforto e o faz buscar coisas melhores e coisas que vão além do seu cotidiano muitas vezes limitado e agreste. É típico do ser humano arriscar quando aquilo que ele já tem lhe dá segurança e estabilidade.

É possível dizer que é intrínseco ao ser humano essa tendência de ir além!

[Esta cena pode ser vista em um excerto do fime disponível no youtube. A trilha sonora baseada em pianos e órgãos, composta por Hans Zimmer, contribui fortemente para o climax durante a abordagem.]

Como um addenddum a essa discussão sobre o diálogo ter ocorrido entre máquina e homem, mais adiante nessa cena do filme, o próprio autômato, dotado de inteligência artificial, adverte Cooper dizendo "no time for caution". Ele precisa abrir caminho para que seus filtros de comportamento possam ser adaptados a uma situação de extremo risco. Ele precisava se arriscar e adverte Cooper que o fará.

É engraçado como a atuação do autômato muitas vezes reproduz o próprio comportamento de seres humanos, que depois de verem alguém tomando a iniciativa de saírem de suas zonas de conforto, acompanham solidariamente quem os precedeu para o desempenho de tarefas pouco usuais ou mesmo perigosas.

A diferença está no ímpeto entre o que 'não é possível' e o que 'é necessário'.


Lucas B. Friedmann

‎"I want to stay as close to the border as I can without going over. Out on the edge you see all kinds of things you can't see from the center." Kurt Vonnegut (1922-2007) Eu escrevo porque (eu não entendo e nem sei como explicar) era o que eu sempre quis fazer, mesmo antes de saber escrever.
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