Lucas B. Friedmann

‎"I want to stay as close to the border as I can without going over.
Out on the edge you see all kinds of things you can't see from the center." Kurt Vonnegut (1922-2007)

Eu escrevo porque (eu não entendo e nem sei como explicar) era
o que eu sempre quis fazer, mesmo antes de saber escrever

eu te perdoei, mas eu não preciso te dizer que perdoei

Eu a vi a alguma distância e logo um filme passou em minha cabeça. Já não nos falávamos há alguns anos, mas sua traição foi definitiva para o final de nosso relacionamento. Quando ela me viu, veio em minha direção. Havia ainda um clima amistoso entre nós. Seu sorriso não me cativava mais como antes.


Eu estava sentado em um café na região central de Florianópolis quando a vi ao longe, caminhando na minha direção. Ela ainda era bonita e ainda mantinha aquele sorriso que anos antes havia me conquistado. mas sua traição, um tanto inesperada, havia cortado meu coração e sepultado nosso relacionamento. Havia um clima amistoso ainda, mas a verdade é que não nos falávamos há muito tempo. Era até uma surpresa encontrá-la ali, já que ambos éramos de Porto Alegre.

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Essa traição, no momento em que ocorrera, havia sido inesperada. Um amigo me convencera que tinha sido inesperada porque eu estava apaixonado mas desvinculado dela ou de nosso relacionamento, em devaneios ou coisa desse gênero, e não via o que acontecia ao meu redor. Eu inclusive já havia superado tudo aquilo e nem guardava rancores. Eu e ela não seguimos nos vendo e eu não precisei me deparar com a necessidade de perdoá-la.

Ela caminhou ainda alguns passos e, quando me viu, caminhou em minha direção e até fez menção de sentar-se comigo ou de pelo menos me cumprimentar. Eu não a convidei para um café. "Que coincidência nos encontrarmos aqui?", ela disse; "de fato, que coincidência", eu disse. Confesso que me sentia um pouco desconfortável, sem saber exatamente como agir. Houve a traição, concordamos logo em seguida que o divórcio seria a saída e depois dali quase não nos falamos mais.

Uma traição exige perdão? Uma traição permite perdão? Uma traição envolve culpados? Houve um período em que eu pensei muito sobre tudo isso. Depois essas questões ficaram para trás. A página havia sido virada. Como sempre acaba acontecendo. A vida é dinâmica e assim como me detive por um tempo nessas questões, outras questões surgiram, outras pessoas, outros trabalhos, outro amor. A vida tomou seu rumo natural, como sempre deve acontecer.

Ela se sentou, acomodou algumas sacolas na cadeira ao lado. Parecia querer extrair algo de mim. "Como vão as coisas?", ela perguntou; "a vida anda tumultuada, muitos trabalhos", eu respondi. Eu poderia ao menos me esforçar para não ser tão telegráfico, não é? "Você sempre trabalhando demais, né?", ela disse. Você agora vai querer dizer que me traiu porque eu trabalhava demais?, eu pensei comigo. Eu me restringi a uma expressão de impotência frente aos fatos da vida.

Quando eu soube da traição, vários anos antes daquele café, eu decidiria não dizer para ela que eu sabia de tudo. Aquela traição apenas era um sintoma de que nosso relacionamento se encaminhava para uma conclusão. E dizer para ela que eu sabia apenas lhe daria uma chance para mentir para mim dizendo coisas como "é mentira" ou "como você pode afirmar isso com tanta certeza". Eu preferi encerrar aquela fase da minha vida e seguir em frente.

Conversamos algumas amenidades enquanto um filme em preto-e-branco passava em minha cabeça. Eu rememorava razões e justificativas para tantos acontecimentos encadeados. É claro que ela me traíra também em parte por culpa minha. Ou talvez nem tanto. E eu não abrira um período de discussões com ela sobre isso porque eu talvez não a amasse tanto assim. Ou nem tanto. E concluímos aquele relacionamento e seguimos em frente porque era para ser assim. Ou não, não é mesmo?

Ela falava sobre algo relativo à sua mãe quando eu fui arrancado desses devaneios pela frase "mas eu tive que perdoá-la, porque ela é a minha mãe" dita por ela. A palavra perdão aparecera naquele filme preto-e-branco mas era também dita por ela. "Eu prefiro não me envolver com fatos relacionados com a sua mão, você se recorda, não é>", eu disse, tentando manter um afastamento saudável desses fatos. Ela se limitou a um sorriso amarrado.

Dali a pouco ela pareceu sofrer uma descarga elétrica e olhou as horas indicadas no celular. "Eu enho que ir", ela disse. "A conversa está ótima e foi ótimo te encontrar de novo", ela seguiu, já se levantando e juntando as sacolas. "Foi ótimo mesmo", eu confirmei, mais por inércia mesmo. Nós nos despedimos com dois-beijinhos bastante inocentes. Ela então me deu as costas e seguir em frente. Eu voltei a me sentar e pedi um novo café. O anterior já estava frio.

Enfim... considerando o mal que aquela traição havia significado para mim, eu havia perdoado seu comportamento. Mas eu certamente não precisava lhe comunicar isso. Eu a perdoara, mas eu não lhe diria que havia perdoado.


Lucas B. Friedmann

‎"I want to stay as close to the border as I can without going over. Out on the edge you see all kinds of things you can't see from the center." Kurt Vonnegut (1922-2007) Eu escrevo porque (eu não entendo e nem sei como explicar) era o que eu sempre quis fazer, mesmo antes de saber escrever.
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