Lucas B. Friedmann

‎"I want to stay as close to the border as I can without going over.
Out on the edge you see all kinds of things you can't see from the center." Kurt Vonnegut (1922-2007)

Eu escrevo porque (eu não entendo e nem sei como explicar) era
o que eu sempre quis fazer, mesmo antes de saber escrever

o simples e o complicado

Uma reunião com amigas na noite anterior e tudo parecia estagnado e sem esperanças. Daí aquele telefonema e uma nova esperança surgiu. Combinaram jantar juntos. Que segredos aquele jantar poderia trazer à tona novamente? Que novos caminhos poderiam surgir daí?


Naquela manhã de sábado, Verônica não poderia imaginar tudo que aconteceria como conseqüência de ter atendido aquele telefonema. Alô, disse uma voz meio abafada, é da casa da Verônica? Sim, é ela própria quem está falando. Aqui é o Marcos, acho que você nem se lembra de mim. É claro que me lembro, é o Marcos que jogava basquete no time do segundo grau. Vocês ganharam aquele campeonato gaúcho de escolas secundaristas. Ela pronunciou essa frase sem acreditar que ele ainda se lembrasse dela. Sou eu mesmo, que memória você tem!, exclamou ele. Isso tudo foi há muito tempo, ela pensou.

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Na noite anterior, Verônica, 32 anos, havia saído com algumas amigas para beber em nome da solidão. Um jeito de atenuar os efeitos de uma vida empresarial solitária. Chegou lá pelas cinco e meia ou seis horas em casa. Chegou em tempo de se despedir do segurança que atende o condomínio sempre à noite durante a semana, das sete às sete. A Charlote, 29, havia se retirado um pouco antes, às duas, com a desculpa que levara trabalho para o findi. A Vânia, 33, a Vera, 31, e a Mariana, 42, resistiram até o fim da celebração. Todas contabilizavam várias decepções amorosas nos últimos meses, ou mesmo nos últimos semestres.

O Marcos havia sido o primeiro beijo da vida da Verônica. Um segredo guardado com a vida: Imaginem, ela já tinha quase quinze anos! Antes dele, o Alberto havia andado de mãos com ela em alguns recreios no final da oitava série, mas nada além disso. E depois, o Roberto foi o quase... quase noivo, terminaram antes de receber as alianças na relojoaria... quase cunhado, porque o irmão da Verônica quase casou com a irmã do Roberto... e por fim quase o primeiro. E depois ainda veio o Maurício, que foi a grande decepção.

Mas o Marcos ainda estava ali do outro lado da linha telefônica. Como eu ia esquecer de você!?, apressou-se em mostrar algum sinal de vida, por maior que fosse a incredulidade. Mas o que ele poderia estar querendo comigo?, pensou. Sabe que eu estou morando no Rio, mas estou de férias na casa da mãe, explicou o Marcos. E ela me contou que te viu no Centro alguns meses atrás, e daí eu fiquei com vontade de conversar contigo, saber como vão as coisas. Você já casou?, já tem filhos? Não, nem um nem outro. E você? Também não.

Ela se lembrava exatamente. Ele vestia aqueles tênis de cano longo, camisetas de manga cavada. O time usava uma camiseta vermelha com listras brancas nas laterais. Além do símbolo do colégio no lado esquerdo do peito. No dia em que venceram o campeonato ele disse que por baixo daquele brasão (é assim que se diz não é?) o coração batia por ela. E daí saiu o beijo. Em uma daquelas reuniões dançantes em que ele ficava estaqueado em uma das colunas da garagem da casa da Flávia. Os colegas dele diziam que ele ajudava a segurar o telhado. Talvez tenha sido esse comportamento duplo que lhe chamou atenção: ele era desenvolto nos esportes, relativamente pouco tímido, mas na reunião dançante era absolutamente inexpressivo. Um “quase morto”.

O que você acha de sairmos para beber alguma coisa e colocar as fofocas em dia?, perguntou ele. Você sabe por onde andam os colegas daquela nossa turma? O “beber alguma coisa” ribombou por dentro da cabeça e a fez lembrar dos exageros da noite anterior. Mas a pergunta a trouxe à vida real novamente: apesar dele ter ligado e de ter se lembrado dela, somente com a pergunta ela se deu conta que ele pretendia alguma coisa. Mas como seria possível que depois de tanto tempo ele quisesse alguma coisa comigo?

Pode ser, podemos combinar alguma coisa, disse ela, meio sem querer demonstrar um mínimo de curiosidade. Ainda existe o Valter, lá na Cristóvão?, perguntou ele. Sim, existe, e continua como há quinze anos atrás. Que tal irmos lá hoje?, perguntou ele. O sangue corou as faces dela. Ele parecia estar atacando uma presa. Ele havia sido rápido. Se ela aceitasse assim rápido pareceria que ela estava desesperada. É que hoje à noite umas amigas já me convidaram para pegar um cineminha. Mentira! Mentira! Mentira! E depois de dizer apareceu claramente o desejo de aceitar. E desespero poderia realmente ser a palavra certa.

É que eu viajo amanhã de volta para casa. E pego o trabalho de novo na segunda. Eu sei que deveria ter ligado antes, mas passei vários dias em Capão, na casa da minha irmã. Daí acabei conseguindo te ligar somente hoje. Nós poderíamos sair depois do teu cinema. Ou poderíamos ir juntos ao cinema. O que você acha?

Pode ser, pode ser, quem sabe nos vemos hoje então. Você quer ir ao Valter? Que tal às nove?, perguntou ela.

Ótimo, às nove. Eu te pego em casa ou nos encontramos lá?

Que tal às nove na base da escadaria do Valter?

Combinado.

Até lá, então.

Desligaram. A cabeça de Verônica continuava doendo. Um pouco pelos sinos da catedral de Roma, que tocavam insistentemente uma vez por hora. Outro tanto pela bebedeira do dia anterior procurando alguma coisa entre o estômago e o intestino. Mas principalmente pelas lembranças que passavam em turbilhão. E por tudo que as lembranças evocavam.

O Marcos e as reuniões dançantes. O basquete. A professora de história. As aulas particulares de matemática. As mãos do Alberto. As insistentes notas baixas em biologia. A festa da aprovação no vestibular. Os beijos do Marcos e tudo que deu errado depois com o Maurício.

Eram duas da tarde e era necessário ir ao shopping comprar alguma roupa nova para sair com o Marcos. Sim, a essa altura dos acontecimentos era mais fácil assumir que todas as cartas seriam mesmo jogadas nessa noite. E era necessário almoçar também, para ver se a dor de cabeça passaria. Meses e meses sem ninguém ligando para perguntar como havia sido o dia tornavam a rotina difícil de ser enfrentada. Já se amontoavam sete meses desde o rompimento com o Ricardo, e haviam sido dias difíceis. Sim, porque não arriscar tudo nessa noite?

Desceu até a garagem do prédio e decidiu comer alguma coisa no shopping. Pensou que se escrevesse algum dia alguma coisa sobre o que acontecia nesse sábado perdido de um mês de julho não tão frio, adotaria a grafia xópin, ao invés da grafia em inglês. Mas como nunca tinha tempo ou coragem de escrever, esse conto não viria a luz muito cedo.

Entrou no carro, girou a chave na ignição e esperou o ruído característico do sistema de injeção sendo ativado. Procurou pelo controle remoto do portão da garagem. Acionou o rádio numa estação que dá preferência a clássicos da MPB. E deu a partida ouvindo os últimos acordes de uma canção que parecia ser um samba da década de 40. Acionou também o controle do portão.

Quando o carro começou a rodar e cruzar pela porta da garagem ela identificou a próxima música. E por incrível que pareça... era a música dela e de toda aquela época e do Marcos! (Mas é claro que o Marcos não sabia disso.) A emoção fluiu rapidamente e tomou conta de todo seu corpo. As lágrimas tomaram seus olhos. Um calor enrubesceu sua face, ela viu no espelho.

Você foi... o maior dos meus casos... de todos os abraços... o que eu nunca esqueci... E como se encaixava: Um arrepio subiu-lhe a coluna. Como a letra encaixava-se na história dos dois. Você foi... dos amores que eu tive... o mais complicado e o mais simples para mim... Mas será que o Marcos foi amor? Acho que não. Amor talvez tenha sido o Maurício, que deu errado. Mas houve depois o João, que tinha um jeito tão carinhoso e atencioso de me tratar. E o Ricardo, apesar de ser grosseiro e desajeitado. Mas havia o Maurício, que não conseguia deixar de pensar em sair com outras mulheres, e principalmente com as secretárias da empresa. E havia o Roberto, com quem quase tudo deu certo. Os fins de semana na praia com o Roberto eram quase perfeitos. Toda aquela excitação de descobrir aonde o instinto pode nos levar. Por que tudo deu errado com ele? Você foi o melhor dos meus erros... Sim, poderia ter dado certo com o Roberto, mas poderia ter dado certo também com o Marcos... A mais estranha história que alguém já escreveu... E é por essas e outras que a minha saudade faz lembrar de tudo outra vez...

O carro percorreu a Protásio, entrou no Bonfim, saiu pela Protásio de novo até a Ramiro, chegou até a Ipiranga. Dali até o Praia de Belas foi rápido. Mas nada disso ela percebeu. A rua, as pessoas, os ônibus, as pessoas. Algumas felizes, outras tristes, outras sozinhas. Como tudo passou tão rápido desde aquela época, como ela não percebeu como foram as coisas.

Você foi a mentira sincera, brincadeira mais séria que me aconteceu. Tudo em torno parecia não existir. Ela parecia flutuar sobre nuvens, caminhando sem precisar movimentar as pernas. Um sentimento de aceitação. Um sorriso enorme, de orelha a orelha, como se diz, estampava-se em seu rosto. Ela se esforçava para escondê-lo, mas ele insistia em aparecer, em mostrar-se.

O instinto se manifestava e ela deixava ele se manifestar. Mas assim sem incentivar, convivendo com ele de longe, e sentindo ele crescer de vez em quando e dormitar outras vezes. A felicidade fazia tudo parecer tão doce e tão perfeito e tão maravilhosamente bem encaixado em tudo que vinha acontecendo e tudo que provavelmente aconteceria nos próximos dias. Era impensável como aquilo ainda não havia acontecido, como também parecia impensável que não acontecesse amanhã ou na próxima semana.

Você foi o caso mais antigo, o amor mais amigo que me apareceu. Comprou um jeans, uma camisa, um blusão, um sapato. Faria um estilo casual. Comprou também um CD do rei. Queria em casa poder sorver cada momento daquela melodia. Queria ir à noite ao encontro dele com a melodia repetindo-se interminavelmente em sua memória.

Das lembranças que eu trago na vida, você é a saudade que eu gosto de ter. Voltou ao carro, fez uma escala em um posto de conveniências, chegou finalmente em casa. Tudo girava, mas tudo parecia tomar seu rumo definitivo. As dificuldades agora lhe pareciam claras e limpas e fáceis de serem resolvidas. Tudo parecia estampar uma objetividade impiedosa.

Só assim sinto você bem perto de mim outra vez. No corredor sentiu um perfume que recordou-se ser moda na época do Marcos, que era a sua também. Se escrevesse um conto algum dia sobre esse encontro daria o título de “perfume de Stilletto”. Mas não, não seria bom, porque logo depois esse perfume se tornou sinônimo de coisas bregas, de mau gosto. Caiu no lugar comum.

Conteve-se levemente quando se lembrou de detalhes físicos. Já havia se contido antes. Certamente se conteria depois. As mãos, o peito liso, as pernas. Esqueci de tentar te esquecer... Resolvi te querer por querer... Decidi te lembrar quantas vezes eu tenha vontade... sem nada perder... Comeu um iogurte e um sanduíche de queijo sem perceber. A dieta que vinha sendo mantida arduamente há três meses seria recordada muitos dias depois. Tomou inclusive guaraná, e se lembrou dos fortes desejos por fanta uva. O relógio voava, já era hora de se preparar.

Você foi toda felicidade... foi a maldade que só me fez bem... Pensou em ajeitar tudo pelo telefone, não sabia bem como falar... apesar da idade, e pode-se dizer da experiência, ainda se sentia tímida e desajeitada para falar de certas coisas. Você foi o melhor dos meus planos... o maior dos enganos que eu pude cometer... e já não se envergonhava de si própria de acompanhar a música, sozinha em casa, com lágrimas rolando pelo rosto, pela felicidade de se sentir viva novamente.

Das lembranças que eu trago na vida... você é a saudade que eu gosto de ter... Aprontou-se com nervosismo e sem saber exatamente como se portar, ou o que aconteceria, ou como resolver os imprevistos que certamente surgiriam. Mas se aprontou com confiança, pronta para o que viesse. Um tom casual seria mesmo apropriado para uma noite como essa, teve certeza por fim.

Foi ao carro mais uma vez, e a cabeça agora não incomodava mais. Colocou o CD no aparelho do carro. Saiu da garagem como se decolasse de um avião. Ouvia a música com volume baixo, como sempre, mas era suficiente. Repassava a letra várias vezes, incansavelmente. Pensou mesmo em pegar um caminho maior para prolongar esse momento, pois nem imaginava o que ainda poderia sair errado.

Estacionou nas proximidades da Cristóvão. Caminhou lentamente, repassando a letra da música, verso por verso. Refez o roteiro do dia, lembrando detalhes. Ruídos, perfumes, cores, sensações, odores. Chegando na entrada do Valter percebeu que ainda faltavam cinco minutos para as nove da noite. Decidiu esperar (o que mais poderia fazer?). mas percebeu como tudo já estava decidido. Quase que por motivos alheios à sua vontade.

Fazia frio, mas pouco importava. O estilo casual era mesmo perfeito. Calafrios subiam sua espinha e sacudiam seus braços. Mas pouco importava. Ela seguraria se fosse necessário, os manteria a força no lugar certo. Tudo em breve se acabaria. Um rapaz alto e meio passado no peso logo se aproximou. Ela não acreditava, mas era ele mesmo. O rosto era inconfundível.

Que bom que você veio, que bom te rever, disse ele. Que legal a gente se encontrar de novo, disse ela. E se uniram em um forte abraço. Subiram as escadas mantendo a distância esperada entre dois amigos que há tempos não se encontram. Pegaram uma mesa perto da porta, e pediram cerveja preta.

Conversaram durante duas horas e recordaram várias coisas. Os meninos da turma, as meninas da turma, os professores, as aulas de educação física. Ela percebeu que ele tinha segundas (e provavelmente muito boas) intenções. Mas não passou disso. Nada aconteceu.

Comentaram sobre como hoje os jovens estão precoces. Ele explicou que isso tem a ver com o mercado, porque os jovens se tornam consumidores mais cedo. Ela já sabia, mas não contou para ele. Ela comentou sobre como o Brasil parece estar mal no futebol, ao que ele logo teceu comentários que soaram a uma complexa teoria sobre a degradação desse esporte no Brasil. Ele descreveu um pós graduação que fez na Itália. Ela comentou sobre o emprego que ocupa já há alguns anos. Verônica jamais viria a saber, mas naquela noite Marcos já carregava em seu interior as sementes daquilo que no futuro o levaria à morte. Tudo pareceu chegar a um final lá pelas onze da noite, quando se despediram. Ele foi para casa. Ela não.

Quando se separaram, na base da escadaria do Valter, ela sabia para onde ir. Tudo que acontecera contribuiu para aumentar sua certeza. As lembranças, a conversa, e ela reconheceu que o excesso de peso dele também. Foi um papo legal. Mas ele não conseguiu disfarçar que tinha alguém. E que nada esperava dessa noite além de apenas uma noite. E não que ela não tivesse tido esse tipo de experiência nesses últimos anos, marcados por relacionamentos fadados ao fracasso. Mas isso era impossível depois de tudo durante a tarde, durante a música, durante a ida ao shopping, mesmo durante o telefonema e durante aquela fase de recuperação da bebedeira.

Entrou no carro mais uma vez e seguiu até a Carlos Gomes. E não deixou de ligar o CD novamente, agora mais tranqüila, mais serena, mais segura. Das lembranças que eu trago na vida... das inúmeras lembranças, emergiam alguns dias na praia, onde fora para se concentrar nos estudos, um fim de semana perdido entre a formatura e o primeiro emprego, um beijo roubado em uma festa, uma promessa de futuro, outro quando faltara luz no colégio... você é a saudade que eu gosto de ter... chegou, estacionou, correu, apertou o interfone, subiu, a porta já estava aberta, estacou na entrada... só assim sinto você bem perto de mim outra vez.

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Uma luz mortiça saia de dentro da sala... e lá dentro Júlia. Talvez uma resposta para o futuro, tão diferente do passado. Talvez uma promessa para o futuro, tão parecida com o passado. Sempre por si tão próxima, e sempre por mim tão distante. Agora, sim... só assim sinto você bem perto de mim outra vez. Outra vez.

[Escrito em janeiro de 2004, em Torres, RS.]


Lucas B. Friedmann

‎"I want to stay as close to the border as I can without going over. Out on the edge you see all kinds of things you can't see from the center." Kurt Vonnegut (1922-2007) Eu escrevo porque (eu não entendo e nem sei como explicar) era o que eu sempre quis fazer, mesmo antes de saber escrever.
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