Lucas B. Friedmann

‎"I want to stay as close to the border as I can without going over.
Out on the edge you see all kinds of things you can't see from the center." Kurt Vonnegut (1922-2007)

Eu escrevo porque (eu não entendo e nem sei como explicar) era
o que eu sempre quis fazer, mesmo antes de saber escrever

sobrevivendo às revelações / 2

Ele estava naquele relacionamento há bastante tempo e não se sentia mal, mas também não se sentia plenamente realizado. Além disso, ele sempre cultivara um certo temor por algo que ele não entendia exatamente o que era e que ele não tinha ideia onde poderia chegar.


CONTINUAÇÃO DA PARTE 1.

Subiram ao barco, carregaram os equipamentos, ela foi logo se instalando em uma posição que ela considerava mais segura. Ele tomou o posto de comandante, depois de uma olhada em torno, como se fosse uma última vista daquela paisagem.

Navegaram sem trocar palavras. O barco era pequeno e os forçava a ficarem próximos. Ele seguia calmo. Era sempre ele quem conduzia o barco. Tinha que navegar sempre na perpendicular às ondas e ela dizia que não conseguiria aprender a identificar esse tipo de rota. Ela não escondia seu nervosismo, que ele associava à ansiedade de mergulhar no mar e se intrometer na vida íntima de peixinhos coloridos, arraias e pequenos tubarões.

Ele imaginava como ela contaria aos amigos que tinha visto um cardume de sei-lá-o-quê perseguidos por uma arraia que poderia ser maior que o tapete da sala. E embaixo de não-sei-qual-pedra havia alguns tubarõezinhos que nadavam sob a proteção da mãe, escondida em algum recanto próximo. E havia um navio naufragado do século XVIII, ou seria XVII?, com moedas de ouro e o diabo.

Ela imaginava que a vida com ele não parecia ruim, mas que caminhava para um marasmo insuportável. Imaginava como seria a reação após o cumprimento do que fora planejado minuciosamente. E como contaria para as amigas a tragédia de não ter um corpo para enterrar. E que quem sabe seu corpo tivesse sido dilacerado por tubarões esfomeados. E quem sabe encontrassem nos meses seguintes seus equipamentos no estômago de alguma dessas feras marinhas.

Chegaram com o barco no local que ele havia sugerido e o motor foi logo desligado. A âncora foi jogada enquanto ela já terminava de se preparar. Você está mesmo com vontade, ein? ele perguntou. Como se você não estivesse! ela respondeu, energicamente.

Ele se certificou de que a âncora estivesse bem afixada no fundo. Ela se assegurou que as sacolas que tinham trazido estivessem bem escondidas no fundo do bote. Ele procurou sua parafernália para o mergulho.

Ela colocou a máscara sobre a cabeça e passou a fita por trás da nuca. Ele se postou para colocar os pés de pato. Ela se esgueirou pela lateral do bote e escorregou para fora do barco, caindo na água.

Ele se preparou para cair na água com um estranho pressentimento. O que poderia sair errado?, ele pensou. Tinham se divertido durante vários dias naquele paraíso. Tudo tinha dado tão certo. Seriam várias lembranças fantásticas, como tantas outras.

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Entrou na água ainda no meio do turbilhão de bolhas produzido por ela. Aquele tipo de atividade agradava a ela. Ele sempre se sentira fora de seu ambiente natural, com todos aqueles equipamentos e todos aqueles protocolos de segurança.

Ele nunca tivera um gosto pelo mergulho tão arraigado como o dela. Ele ia ao fundo e nadava sentindo a pressão sobre o corpo. Isso lhe dava mais prazer do que ficar observando a fauna local. Mas ele sempre respirava com cuidado, como que prestando atenção ao ritual e evitando alguma tragédia.

Quando entraram no meio de um pequeno cardume desses peixinhos de aquário ele percebeu que ela se distraía à toa, olhando para um e outro daqueles pequenos seres que nadavam entre nós em completa entrega à interação com esses estranhos que soltavam bolhas. Muitas bolhas, como se fossem gases.

Ele então percebeu que seria o momento certo. Sem olhar para trás, (com receio de se tornar uma estátua de sal, como contava sua avozinha) nadou com movimentos ritmados até a superfície. Subiu ao bote e desfez o nó da âncora, deixando-a onde estava. Não pretendia mesmo utilizá-la novamente.

Ligou o motor de popa sem pensar no que estava fazendo. Colocou o bote em movimento paralelo à costa e navegou por poucos minutos. Cortou o combustível e deixou que o motor parasse de funcionar. Despiu a roupa de mergulho e a deixou sobre o bote, ao lado da mochila, como se não tivesse sido utilizada.

Conferiu a bússola minúscula de seu relógio para se certificar da direção em que deveria nadar. Deslizou até a água e começou a nadar em movimentos ritmados e constantes, para evitar problemas musculares e para aproveitar ao máximo as energias de que dispunha. Concentrava-se para não pensar em nada.

Chegou à praia cerca de trezentos metros ao sudeste de onde pretendia ter chegado. Colocou-se em marcha em direção ao ponto planejado para chegada. Fazia um tempo quente que foi suficiente para que ele ficasse seco. Procurou na areia e logo encontrou a sacola de plástico que havia escondido com suas roupas.

Vestiu-se observando ao redor para certificar-se de que estava sozinho. Estava escondido entre alguns arbustos baixos que existiam entre os montes de areia de praia. Uma camisa clara, uma bermuda de sarja bege e um chinelo de dedo. Ficou parado olhando para o mar, como que conferindo se nada surgiria dali para lhe cobrar o que havia feito.

Começou a caminhar em direção ao vilarejo. Pelos seus cálculos, em cerca de dez minutos encontraria a estrada principal da ilha. Dali seriam mais uns quinze minutos até o vilarejo e mais uns cinco minutos até o hotel. Talvez pela praia fosse mais próximo, mas ele queria dar a impressão de que havia saído para caminhar entre as lojas do centrinho.

Quando chegou à pequena cidade encontrou outras pessoas, sentiu um leve estremecimento de sua segurança e determinação. O que o teria levado àquele gesto desesperado? Haveriam acontecimentos que justificassem tal conduta? Como essas pessoas todas reagiriam se soubessem do que ele passaria a fugir?

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Chegou na recepção e fez menção de perguntar por sua esposa. A moça deu-se conta que havia um recado e o buscou nos escaninhos dos quartos. Quando estendia a mão para entregá-lo, ele disse “minha esposa?” em espanhol. “Acredito que ela tenha lhe deixado este bilhete.”

Ele abriu o envelope e, depois de ler seu conteúdo, disse “ela está mergulhando!” A atendente assentiu com a cabeça e ambos deram a conversa por encerrada. Ele chegou a pensar que ela seria interessante, mas qualquer tipo de envolvimento poderia inserir elementos indesejados nos fatos que se seguiriam.

Enquanto ele fingia indignação e sentava-se em uma mesa do barzinho, quase à beira mar, à guisa de um descanso de tudo aquilo, percebeu que o tal casal ainda se encontrava ali. As mesmas gesticulações exageradas e a mesma discussão sobre como seria o tal livro de contos. Quando chegou o uísque que havia pedido, ouviu da mesa deles que ela dizia, como se quisesse se aclimatar com uma nova ideia, “e então... ‘como sobreviver ao apocalipse’?”. Mas, pense comigo, continuou, a palavra apocalipse remete ao outro nome do livro bíblico. E ela fez então uma nova tentativa, “como sobreviver às revelações?”


Lucas B. Friedmann

‎"I want to stay as close to the border as I can without going over. Out on the edge you see all kinds of things you can't see from the center." Kurt Vonnegut (1922-2007) Eu escrevo porque (eu não entendo e nem sei como explicar) era o que eu sempre quis fazer, mesmo antes de saber escrever.
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